PESQUISA IMPRENSA/MAXPRESS/ABERJE: Redações, enfim, reconhecem a importância das assessorias de imprensa

PESQUISA IMPRENSA/MAXPRESS/ABERJE: Redações, enfim, reconhecem a importância das assessorias de imprensa

Atualizado em 04/03/2006 às 11:03, por Denise Moraes.

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Enfim, amigos?

Pesquisa inédita encomendada pela Revista IMPRENSA, em parceria com o Maxpress e a Aberje, coordenada pelo departamento de pesquisas da Aberje, mostra o enfraquecimento do balcão que separa profissionais das redações e assessores de comunicação. Elaborada pelo Instituto Franceschini, a pesquisa ouviu 405 jornalistas de todo o país durante quatro dias e descobriu que a velha rixa entre jornalistas e assessores, se não estiver acabando, está bem próxima do fim. A questão é: por quê? IMPRENSA ouviu jornalistas, assessores e acadêmicos para repercutir os resultados obtidos pela pesquisa e saber como e quando os assessores se estabilizaram incontestavelmente na área de comunicação. Dentre as respostas, um consenso. Eles estão melhores, mais profissionalizados. E nós, que trabalhamos em equipes cada dia menores, com prazos impossíveis e sem recursos para uma boa apuração, precisamos deles. O patinho feio, quem diria, virou cisne.

No relacionamento com a mídia, qual o desempenho dos assessores de imprensa

Impossível negar que sempre existiu uma guerra surda entre jornalistas de redação e assessores de imprensa. Entre os dois lados do balcão, as acusações são mútuas. Enquanto a redação diz que os assessores são "distribuidores de releases ", os assessores chamam as redações de arrogantes, folgados e adjetivos, digamos, menos publicáveis.

Esse clima beligerante, porém, parece que está chegando ao fim. Informa a pesquisa IMPRENSA/Maxpress/Aberje, realizada no final do ano passado, que profissionais de redação finalmente reconheceram a importância dos colegas assessores. Quando questionados se os assessores de imprensa ajudam ou não no relacionamento com a mídia, 83% dos jornalistas responderam que eles ajudam de alguma forma, contra apenas 9% dos que acreditam que o trabalho dos assessores atrapalha o trabalho da imprensa. "O preconceito entre jornalista e assessor de imprensa era mais um conceito do que um problema real. Era como o preconceito dos jornalistas com aquele colega que ia para a TV", disse Carlos Eduardo Mestieri, um dos pioneiros da comunicação empresarial no Brasil e presidente da Inform Comunicação.

Segundo Mestieri, a queda desse conceito está embasada em alguns fatores, como o fato de o assessor ter deixado de ser um distribuidor de release e se tornado um pensador da comunicação, integrando-a a todas as áreas, e de os jornalistas terem descoberto que é possível depender do trabalho das assessorias de comunicação, uma vez que o profissional de redação está cada vez mais acuado pela falta de tempo e pelo problema da velocidade da informação.

Marta Gleich, editora-chefe do jornal Zero Hora (RS), é ainda mais específica: "Assessor de imprensa ajuda muito quando é transparente, disponível e direto. Só liga quando a pauta é notícia, avisa logo se a empresa vai ou não se pronunciar, atende o celular à meia-noite nas férias e não enrola a redação. Mas não dá para agüentar aqueles assessores que ligam para 'pedir uma forcinha'. Ora, ou o assunto é notícia e interessa ao leitor, ou não é. Pedir uma forcinha não é nada profissional."

Outra questão abordada na pesquisa foi a ética. Quando perguntados se, no tratamento com a imprensa em geral, as agências de comunicação e assessoria de imprensa são antiéticas, pouco éticas, éticas ou muito éticas, 66% dos entrevistados julgaram os assessores como éticos, contra 30% que tacham os colegas como antiéticos. "Isso só reforça a qualidade e seriedade do nosso trabalho e também a profissionalização do cliente, que nos paga para darmos uma opinião, e não para confirmar uma política", diz José Luiz Schiavoni, sócio da S2 Comunicação Integrada e presidente da Abracom.

No entanto, para Edson Rossi, diretor de redação da revista VIP , esse resultado pode ter outra conotação: "Acredito que a resposta mostre que a maioria das pessoas em redação sabe que as ações de uma assessoria de imprensa são tomadas em função dos interesses da empresa, do governo, da pessoa ou da instituição para a qual trabalha a assessoria. E esses interesses podem ser o mesmo, não necessariamente, aos dos leitores, telespectadores, ouvintes e internautas. Não se trata de um profissional ser mais ou menos ético, mas de estar de um ou outro lado", avalia.

Como foi feita a pesquisa

A partir do cadastro de jornalistas da base de dados do Maxpress - o mailing mais completo de informações de 48.115 profissionais de mídia em todo o país - o instituto Franseschini entrevistou 405 jornalistas de todas as regiões brasileiras. O universo pesquisado refere-se a profissionais que têm envolvimento com as áreas de política e economia. A pesquisa foi feita por telefone entre os dias 29/11 a 02/12. A margem de erro para os resultados nacionais é de 5%, para mais ou para menos.

A mostra foi escolhida por pulo sistemático - ou seja, obedecendo o mesmo padrão de seqüência - de uma lista com 16.713 jornalistas.


"Como presidente da Abracom, fico muito feliz com os resultados dessa pesquisa. Afinal, uma parte importante da comunicação corporativa é o relacionamento com a mídia. Então, para nós, é muito gratificante ver os jornalistas atestando o valor e a importância do nosso trabalho."
(José Luiz Schiavoni, sócio da S2 Comunicação Integrada e presidente da ABRACOM)


No tratamento com a imprensa, como você caracteriza as agências de assessoria?

A pesquisa também abordou a relação entre relações públicas e jornalismo em dois aspectos. O primeiro questionou sobre quem deveria ser responsável pela assessoria de imprensa nas empresas: jornalistas, relações públicas ou publicitários. Deu jornalismo na cabeça: 77% acreditam que os jornalistas devem ser os responsáveis; 13% crêem que a função cabe aos RPs e 2% indicaram os publicitários ( veja gráfico na pág. 39 ). "O profissional de comunicação integrada deve ser mestiço, e eu creio ser o RP o mais preparado para liderar uma assessoria de comunicação. No entanto, isso não significa que o jornalista ou outro profissional não tenha capacidade para exercer a função", pondera Roberto Constante, presidente do Conrerp (Conselho Regional de Relações Públicas) de São Paulo/Paraná, discordando do resultado.

Já o segundo aspecto tratou da confiabilidade e perguntou, entre jornalistas e RPs, em quem o entrevistado mais confiava. O jornalismo foi maioria novamente: 79% confiam mais nos jornalistas, contra 8% que confiam mais nos RPs e 8% que confiam nos dois profissionais. "Trata-se de um corporativismo mesquinho, que visa tão somente a reserva de mercado para garantir seu espaço, caso seja necessário, em detrimento da profissão dos outros", analisa Marcello Chamusca, idealizador do portal RP-Bahia, que gerou polêmica com um espaço destinado a denunciar jornalistas que exercem ilegalmente a função de RP.

Chamusca explica que tomou a atitude não por corporativismo, mas pelo fato de o jornalismo estar se apropriando de funções que são exclusivas dos RPs - e sem formação para isso. "Hoje já não dá mais para se proibir jornalistas de atuar na assessoria de imprensa, mas acho que essa é uma atividade que deve ser gerida por um relações públicas, pois envolve a imagem pública da organização e esta é uma atribuição do RP", comenta.

Pensando nos jornalistas e relações públicas, em qual desses profissionais você confia mais?


Reserva de mercado

A opinião de Chamusca não é um delírio solitário. Apesar de jornalistas e RPs conviverem harmoniosamente nas assessorias de comunicação, seus conselhos gestores travam uma batalha legal para garantir mercado a seus filiados. O Conferp (Conselho Federal de Relações Públicas) determina que assessorias devem ter um RP atuando na equipe, geralmente como responsável pelo trabalho.

Quatro anos atrás, por meio dos Conrerps, algumas empresas de assessoria foram multadas por descumprirem a Resolução Normativa 43/2002, do Conferp, que determina a obrigatoriedade de registro junto ao Conselho daqueles profissionais e empresas que quiserem denominar seu trabalho como Relações Públicas sem serem efetivamente formados em RP ou terem um profissional dessa área no comando.

"O jornalismo já tem uma série de privilégios garantidos pela legislação. Não satisfeitos, eles se colocam como jornalistas em uma consultoria. Convenhamos que isso cria uma concorrência desleal", explica João Alberto Ianhez, presidente do Conferp, garantindo que a pressão feita pelo Conselho foi uma reação à posição da Fenaj e dos sindicatos de jornalismo do país e suas políticas intervencionistas.


Na sua opinião, quem deve ser o responsável pelas assessorias de imprensa nas empresas?

O fato é que ele não diz uma inverdade: atualmente tramita no Senado o projeto de lei 079/2004, que restringe ao profissional de jornalismo funções como coordenador de pesquisa, comentarista, arquivista-pesquisador, revisor, repórter-fotográfico, repórter-cinematográfico, ilustrador e assessor de imprensa. Como se vê, não há santos nessa história.

"A burocracia é o tipo mais puro de dominação legal", diz a professora da ECA/USP, Sidinéia Freitas, citando Max Weber. Para ela, os RPs tentam se redimir por meio de um outro projeto de lei, o PLS 324/2005, o qual ela chama de "desregulamentação branca". "Esse projeto sugere a criação de um exame de proeficiência a ser feito pelos profissionais que já atuam na área e não são RPs. É uma forma de convidá-los a fazer parte do nosso time. Porque, para nós, o que interessa é a qualidade, e não a formação", garante.

O jornalista Mauro Lopes, diretor-presidente da MVL Comunicação, endossa a opinião de Sidinéia: "O corporativismo é uma postura equivocada. Hoje não dá para pensar em agência de comunicação sem pensar em todas as áreas, e isso inclui jornalismo, relações públicas, marketing e até direito".

Se por um lado, o mercado já decidiu que a comunicação integrada é uma realidade, o corporativismo, por sua vez, tem mais força na visão dos conselhos e associações do que no dia-a-dia dos diversos profissionais que integram as assessorias de comunicação. No mundo corporativo, a seleção natural tem uma regra clara: sobrevivem os mais eficientes.

"Hoje os assessores dão o caminho e facilitam o trabalho do jornalista. Antigamente, os empresários tinham horror aos jornalistas, achavam que eles distorciam tudo... O assessor conseguiu convencê-los de que não adianta fazer bem, é preciso mostrar que faz bem. E, para isso, a mídia é o melhor meio"
(Roberto Constante, presidente do Conrerp de São Paulo/Paraná)


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