Pesquisa em jornalismo ou pesquisa jornalística?

Pesquisa em jornalismo ou pesquisa jornalística?

Atualizado em 23/04/2008 às 15:04, por Kátia Zanvettor.

Há uma grande diferença entre a pesquisa jornalística e a pesquisa em jornalismo, enquanto a primeira diz respeito a uma atividade subjacente à prática jornalística que se refere, sobretudo, ao hábito cotidiano de conhecer, investigar o tema a qual o jornalista pretende cobrir, a segunda fala da construção de um campo científico na área jornalística.

Enquanto a primeira está consolidada (assim se espera) no ensino de jornalismo a segunda causa certa controvérsia, e muitas vezes a pesquisa em jornalismo é confundida e até propositalmente substituída pela pesquisa jornalística. O ponto principal é que fazer pesquisa em jornalismo não é tarefa muito fácil, é preciso estar disposto a sair um pouco da prática, a usar mais o olhar analítico, a criar espaços de reflexões em longo prazo que nem sempre surtem os resultados esperados e que não dão respostas aos anseios imediatistas com os quais professores e alunos podem ter se acostumados.

Mas até que ponto o ensino de jornalismo prevê a pesquisa em jornalismo como essencial? Uma passada rápida pelo texto das diretrizes curriculares da área é suficiente para entendermos que a prática de pesquisa científica dentro das escolas de comunicação não é uma atividade com grande centralidade. Até ali existe uma confusão entre o jornalista pesquisador, que todo profissional deve ser, e o pesquisador de jornalismo, atividade com cunho científico, que prevê método e amplo conhecimento, que tem como objetivo contribuir para evolução do saber jornalístico.

Acredito que o fato dessas diferenças não ficarem claras no texto oficial contribui para embaralhar a importância de ambas as formas de fazer pesquisa para os cursos de comunicação. Cria-se ainda uma idéia equivocada de que a pesquisa científica não é uma atividade para todos, que só alguns, com mais propriedade intelectual ou inclinação para os estudos, podem enveredar por este campo. Considero essa idéia relativamente fraca e superficial. Em primeiro lugar, a universidade, por natureza, deve ser um lugar para o exercício do saber científico e por isso mesmo a pesquisa científica deve e pode ser estimulada para todos, inclusive, no curso de jornalismo.

Obviamente, nem todos vão seguir carreira acadêmica, mas aí por uma questão de escolha ou oportunidade, e não incompetência ou falta de inclinação. A vivência da pesquisa em jornalismo na universidade tem ainda outros benefícios imediatos à formação do aluno, que diz respeito à ampliação do seu contato com autores do campo que não àqueles passados nas disciplinas, a criação de um rigor em relação ao conhecimento e, claro, uma compreensão do campo de atuação para além das técnicas.

Infelizmente essas qualidades ainda não são vistas como essenciais para todos os cursos de comunicação, mas elas já fazem diferença nos cursos de maior tradição que estimulam a participação científica dos seus alunos. A partir dessas experiências é possível notar que, o aluno que de alguma forma teve contato com a pesquisa científica durante sua trajetória acadêmica não só poderá ser um bom pesquisador em jornalismo, como também será um ótimo jornalista pesquisador.