Pesquisa confirma que checagem de fatos desestimula compartilhamento de fake news
Impacto do uso de selos “verdadeiro” e “falso” também foi analisado; estudo mostra que trabalho pode ser aprimorado
Uma pesquisa encomendada pela Chequeado, agência argentina de checagem de fatos, revelou que a verificação de notícias é capaz de mudar o comportamento das pessoas e desestimular o compartilhamento de conteúdo desinformativo ou não baseado em evidências.
Crédito:Latam Journalism ReviewO estudo realizado por Ernesto Calvo, professor de governo e política da Universidade de Maryland (EUA), e Natalia Aruguete, da Universidade Nacional de Quilmes (Argentina) mostrou que não necessariamente as pessoas mudam de opinião e passam a concordar com a checagem, mas se sentem expostas e querem evitar o confronto ao saber que iriam compartilhar fake news.
A análise foi feita de forma observacional durante a campanha eleitoral argentina de 2019, entre os meses de junho e dezembro. E na parte experimental, foram entrevistadas 2.040 pessoas na Argentina em abril de 2020, em uma amostragem representativa da população.
Um dos casos analisados foi a difusão de uma informação falsa de que o então candidato à reeleição Mauricio Macri estava usando um fone de ouvido durante um debate televisivo. De acordo com a pesquisa, 720 retuítes foram publicados sobre o tema por pessoas alinhadas ao grupo opositor a Macri, nas três horas anteriores à verificação do Chequeado.
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Nas três horas seguintes à publicação da correção, o número de retuítes caiu para 74. Ao mesmo tempo, a atividade no grupo prejudicado pela notícia falsa aumentou, passando de 37 retuítes para 146 no mesmo intervalo de tempo.
Para a diretora executiva e jornalística da organização, Laura Zommer, o estudo prova que, mesmo quando continuam pensando o que pensavam, as pessoas decidem não se expor e confrontar algo que foi dado como falso.
O pesquisador Ernesto Calvo avalia que o resultado é positivo, porque, após a checagem, "diminui drasticamente a circulação da mensagem falsa na comunidade que a estava difundindo, mesmo que ela não acredite na correção". E, para ele, é mais importante impedir a disseminação de notícias falsas do que convencer as pessoas.
O que pode ser mudado na verificação?
As descobertas não incluem apenas boas notícias para os verificadores, mas também fornecem vários pontos que podem ajudar a aprimorar esse trabalho.
Por exemplo, as pessoas consideram “falsas” as notícias classificadas como parcialmente falsas ou com dados incorretos. Além disso, elas preferem compartilhar algo classificado como "verdadeiro", que confirme o que pensavam. Do contrário, a confiança do leitor sobre a agência de verificação começa a cair quando ele está sendo o tempo todo desmentido.
Segundo Zommer, as pessoas interagem na internet de forma afetiva. Quando um checador diz que algo que está em afinidade com a pessoa é falso, é como um juiz de futebol que anula um gol dela. Tem pessoas que vão gostar menos da agência por isso, ela explica.
“As pessoas pensam: 'está cheio de notícias falsas, mas você corrige as minhas o tempo todo'. Elas não precisam pensar que a correção é uma mentira, basta pensarem que o checador está escolhendo aquela verificação porque tem um viés político", afirma Calvo.
Ao contrário, quando a organização publica uma checagem afirmando que algo com que a pessoa concorda é verdadeiro, isso é entendido como um prêmio. Por isso, os pesquisadores afirmam que as organizações de fact-checking precisam administrar o número de etiquetas "falso" e "verdadeiro" que usam, considerando os impactos na credibilidade institucional a longo prazo.
"Este estudo não diz 'não use o falso', mas sim reforça que os checadores não devem menosprezar o 'verdadeiro', porque nos ajuda a recuperar o valor de marca", diz Zommer.
Outra vantagem da etiqueta "verdadeiro" é que ela viraliza mais do que o "falso", porque as pessoas tendem a compartilhar mais.





