Perfis falsos nas redes sociais causam confusões entre usuários e gafes que se espalham pela mídia
Perfis falsos nas redes sociais podem causar confusões entre usuários da web e gafes que se espalham pela mídia. Mesmo on-line, a falsidade
Atualizado em 05/07/2011 às 15:07, por
Pamela Forti*.
#Pode isso, Arnaldo?
ideológica é crime
Para um número expressivo de usuários do Twitter, o jargão lembrado no título da matéria sempre provoca uma risada. Não por se tratar de uma piada ou ter alguma conotação duvidosa, mas por lembrar um dos perfis mais populares da rede de microblogs no Brasil e que, sabidamente, é uma personagem baseada em um popular narrador esportivo. As transmissões de Cléber Machado, juntamente com o comentarista Arnaldo Cezar Coelho, foram a inspiração para o perfil @oclebermachado, que comenta não só os esportes mas todo o tipo de assunto, da forma mais óbvia possível. "As chances dessa partida ser vencida pelo time A são de 50%", é um post usual.
Nem sempre, no entanto, os perfis falsos criados nas redes sociais são facilmente identificáveis e as confusões geradas pelo usuário "brincalhão" podem ser maiores do que se imagina. Em fevereiro deste ano, a reportagem da Folha de S.Paulo foi surpreendida por um pedido pouco crível. O músico e compositor João Gilberto - supostamente - entrou em contato com o repórter Marcus Preto, dizendo que queria "desabafar". Na época, estavam na mídia notícias sobre uma ação de despejo que o músico estaria sofrendo. O repórter deu corda. Uma entrevista foi marcada e realizada por e-mail. O repórter recebeu 11 mensagens no decorrer da madrugada do dia 2 de fevereiro. "Tomei um susto. Achei que não pudesse ser ele. Na verdade, tinha quase certeza que não era ele", conta Preto.
João Gilberto é reconhecidamente um dos mais reclusos personagens da MPB e é avesso a entrevistas. A esmola era demais. Paralelamente à conversa eletrônica, o repórter fez uma série de checagens, com pessoas próximas, colegas de trabalho e familiares. "De qualquer forma, isso já era uma história", disse o repórter. Consultado, Caetano Veloso disse que nunca tinha ouvido falar que o colega tivesse um e-mail ou usasse o computador. Quis ver as mensagens. "Pode tirar seu cavalinho da chuva: não é João", decretou Veloso.
O suposto João Gilberto era também detentor de um perfil do músico no Facebook. Aos 80 anos, era pouco provável que ele resolvesse abrir sua vida via internet, mas muita gente dizia que o perfil falava de detalhes que apenas o próprio saberia. "Vou mandar prender! Entende? Vou mandar prender!", disse o agente do artista, Otávio Terceiro, ao ser contatado pela reportagem da Folha. O falso perfil conquistou milhares de seguidores, confundiu muita gente e difundiu uma série de informações sobre o músico - verdadeiras ou não.
Luiz Felipe Silva, Reinaldo Azevedo e Daniel Piza
SAIA JUSTA O caso não é isolado e tem se repetido com espantosa frequência, não apenas entre personalidades da música mas também entre jornalistas e políticos. O principal canal é o Twitter, onde os fakes se multiplicam com mais facilidade, dada a brevidade das mensagens, que deixam poucas pistas. William Bonner, Tiago Leifert, Arnaldo Jabor, o próprio Cléber Machado, Alexandre Garcia, Galvão Bueno, Britto Júnior e muitos outros já foram vítimas da "pegadinha".
O perfil @josoares também é falso. O apresentador já fez o aviso várias vezes na TV. "Ele postou apenas oito vezes no dia em que foi criado, foi abandonado, está totalmente inativo há dois anos. E, mesmo assim, tem 600 mil seguidores", surpreende-se a jornalista Rosana Hermann, autora do livro "Um Passarinho me Contou - Relatos de uma Viciada em Twitter".
Até que o mal-entendido se desfaça, o fake causa situações embaraçosas. Foi o que aconteceu com a repórter Izilda Alves, da rádio Jovem Pan. Em uma de suas matérias, que falava da recuperação da apresentadora Hebe Camargo após uma cirurgia, a jornalista disse, no ar: "Na sua página do Twitter, Hebe até brincou, dizendo que saiu correndo pelo hospital na cadeira de rodas e nunca riu tanto". O que Izilda não sabia era que o perfil de Hebe Camargo era falso e cometeu a gafe ao vivo.
VÍTIMAS ON-LINE A bagunça na rede é tanta que o Twitter lançou o selo "conta verificada", atribuída a personalidades de peso. Ele é a garantia de que o usuário precisa. Já receberam a certificação o ex-governador José Serra, o apresentador Luciano Huck, o jornalista Marcelo Tas, o Dalai Lama e o ator Charlie Sheen. A princípio, o selo podia ser solicitado pelo próprio usuário, mas o Twitter avisa que suspendeu as análises de perfis, por hora, atendendo apenas parceiros e anunciantes. A certificação era emitida exatamente para esclarecer os conflitos de identidade. "O Twitter não tira ninguém do ar por conteúdo, mas por falsidade ideológica sim", afirma Rosana Hermann. O caminho, para quem teve sua conta violada ou encontrou um "clone", é entrar em contato com o site hospedeiro por meio dos canais de ajuda e formulários.
POLÍTICOS TWITEIROS Barack Obama foi o primeiro político a utilizar bem a internet, em meio à campanha presidencial norte-americana. No Brasil, muitos políticos também aprenderam a usar a rede. O Twitter é a ferramenta preferida pela maioria, já que permite postar pequenas notícias sobre a atividade do parlamentar e interagir de maneira prática com os seguidores. "É um termômetro. Serve para aferir a repercussão de conduta, o posicionamento político", afirma o senador Álvaro Dias, do PSDB-PR. O senador também foi vítima de perfil falso na internet, mas a assessoria de imprensa foi ágil e resolveu o problema junto ao Twitter. Mas não parou por aí. "Quando já estava com mil e poucos seguidores, logo no início, derrubaram meu perfil. Eu quis saber o motivo e não obtive respostas. Não fiquei sabendo como isso aconteceu e tive que fazer outro", explica. Agora, o senador coleciona 35 mil seguidores e faz questão de atualizar pessoalmente sua conta. "Ninguém mexe no meu Twitter. Há pouco, eu estava na reunião da Comissão de Justiça. Enquanto aguardo o momento da minha intervenção, respondo a perguntas que chegam", diz o senador. No PT, o deputado federal André Vargas, também do Paraná, afirma que, além de usar a rede social para comunicar projetos e entrar em contato com a população, também usa o Twitter para refutar ataques e demarcar um campo político: "Minhas mensagens são muito 'retuitadas' e, quando questionado, respondo a todas". Tal como o colega do PSDB, Vargas também cuida pessoalmente do perfil. "Faço 70% do trabalho de atualização. Sou mesmo viciado nisso. Minha mulher e filhos reclamam muito". O deputado costuma engajar-se no debate eletrônico, como no da discussão sobre a legalização do aborto, suscitada na campanha presidencial. Vargas foi atacado pelo bloco feminista, via Twitter, por ter posições mais conservadoras. Duarte Nogueira, deputado federal pelo PSDB-SP, lembra que as redes sociais são também um bom canal de comunicação com a mídia. "O que observo é que o Twitter se transformou em uma fonte de pautas para os jornalistas. Assim, quando anunciamos alguma ação, além dos avisos tradicionais, divulgamos também no microblog". E não só a política rende discussões via internet. "Discutir futebol no Twitter sempre provoca polêmica. Mas de forma bem-humorada", conclui.
Um caso emblemático foi o ocorrido com o jornalista Daniel Piza, que não gostou nada da brincadeira. "É um desocupado que só quer sacanear. Perder tempo se passando por mim, usando trechos dos meus textos, com o meu nome, minha foto. Eu não consegui tirar do ar. Se facilitarem o caminho, com certeza vou querer que tirem". Criado em 2008, o "fake" de Daniel (@danielpiza) tem mais de 3 mil seguidores e continua no ar, mas o último "twite" foi em dezembro de 2010. "Na verdade, não queria fazer Twitter. Hoje estou até gostando (risos). É bom para informações rápidas, troca de links legais, mas ainda prefiro o blog. Dá para desenvolver melhor um assunto", confidencia o jornalista, que criou a conta para avisar os seguidores que o primeiro perfil não era verdadeiro.
Reinaldo Azevedo, articulista da revista Veja, teve um perfil e um blog falsos, mas a história acabou bem. Um leitor, fã do blog real, criou um perfil e redirecionava os posts para o Twitter. "Ele me procurou e se identificou. O perfil que tenho hoje, na verdade, é criação dele. Conversamos e ele me passou a senha e ficou tudo certo". Quanto ao blog falso, a história foi outra. "Anunciei que estava indo à Polícia e foi retirado do ar", diz o articulista.
BRINCADEIRA OU CRIME? Luiz Felipe Silva, presidente da Comissão de Informática, Direito Eletrônico e Crimes Eletrônicos da OAB-MG, lembra que ao se criar um perfil falso na internet se torna passível de ação judicial. A primeira providência antes de entrar com uma ação judicial é criar prova. Para isso, o advogado explica que é necessário ter uma testemunha ou fazer uma ata notarial - que é o procedimento mais seguro. Para isso, a vítima precisa imprimir a página da web e levar ao cartório. O tabelião acessará o mesmo site e emitirá um documento atestando a existência da página. "Ele diz que, naquele dia e naquele horário, aquela página estava realmente on-line. Isso é importante porque a página pode estar no ar hoje e amanhã não estar mais. Com a ata notarial, constitui-se a materialidade daquele crime", argumenta Silva. Em seguida, faz a denúncia ao site hospedeiro.
O próximo passo será pedir quebra de sigilo ao site, solicitando que localize o usuário infrator. Caso o pedido seja negado, o site pode ser processado no lugar do autor do crime, que pode responder por falsidade ideológica, calúnia, injúria e difamação. Se causar prejuízo material a uma empresa, pode ser processado por danos materiais. As penas variam de multas a detenção de até dois anos. Silva atendeu um caso semelhante - uma professora que teve um perfil falso no Twitter. Ela ganhou a causa e recebeu uma indenização de R$5 mil. As ações penais ainda estão em trâmite. O acusado está sendo processado por calúnia e por imputação de crime a outra pessoa. Vale a pena lembrar: a simples "brincadeira" pode terminar em cadeia
*Com Jéssica Oliveira
Matéria publicada na edição de julho (269) da Revista IMPRENSA






