Perfil: Sebastianismo no Planalto

Perfil: Sebastianismo no Planalto

Atualizado em 07/07/2006 às 19:07, por Pedro Venceslau.

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Tão Gomes Pinto é Sebastião de nascimento. E, diferente de Dom Sebastião, o rei que Portugal ainda espera, Tão voltou - em delicioso e contundente livro - para contar as histórias políticas que viu. E também as que não viu, mas que poderia ter visto ao longo de sua brilhante carreira, dentro e fora do poder, mas sempre em meio às palavras

Diz a lenda que o elefante é um animal com várias vidas e que adora ficar parado, pensando nelas. Aos 67 anos de idade e mais de 40 de jornalismo, o jornalista Tão Gomes Pinto prefere ser chamado de elefante do que de dinossauro. Principalmente agora que decidiu revirar baús para escrever seu primeiro livro, uma seleção de crônicas batizada de O Elefante é um Animal Político - um guia de auto-ajuda para quem tem ambições e um manual de sobrevivência para quem vive nos arredores do poder ( ver box ). Apesar de ser uma coletânea, Tão demorou para finalizar sua primeira obra. Afinal são muitas as vidas e o seu cargo atual, assessor de imprensa em Brasília, ocupa toda sua agenda. "Sou preguiçoso. Produzo melhor sob pressão. Finalizei o livro nas minhas horas de folga", conta. E por falar em pressão, Tão mudou-se para o Distrito Federal em busca de uma vida mais tranqüila, longe dos deadlines e do trânsito de São Paulo. Na Capital federal, foi convidado por um senador novato do Mato Grosso do Sul, um nome desconhecido da grande imprensa e que precisava justamente de um dinossauro das redações para ganhar projeção: o petista Delcídio Amaral. Seu novo emprego tinha tudo para ser light . E foi até o dia 15 de julho do ano passado. Era tarde da noite e o senador estava sozinho em seu gabinete, pensando em como diria "não" ao convite dos dirigentes do partido para presidir aquela que seria a mais tensa CPI do governo Lula, a dos Correios. Era consenso tanto no gabinete quanto na sua base, em Mato Grosso do Sul, que aquela empreitada não tinha como acabar bem. Com um petista à frente da investigação, a CPI já nascia carimbada de chapa-branca. Os pensamentos de Delcídio foram interrompidos por Tão, que entrou na sala disposto a convencer o chefe a aceitar a missão. "Senador, são nos desafios que surgem os grandes nomes. Insisto que o senhor aceite". Tão não falava nem como profeta, nem como recém-convertido. Suas andanças no poder eram gabaritadas não apenas pela experiência como repórter e editor de política, mas, sobretudo, como assessor de Franco Montoro, de Roberto Gusmão, então ministro do governo Sarney, e do prefeito de Campinas, Jacó Bittar. Pouco depois, toca o telefone. Do outro lado da linha, o amigo e ministro Romero Jucá reforçou o pedido usando o mesmo argumento. O gabinete nunca mais foi o mesmo. Em menos de um mês, Delcídio tornou-se um dos rostos mais conhecidos do noticiário brasileiro. No final do processo, Delcídio saiu estremecido com o partido, mas muito bem com o presidente e a opinião pública. "A maior dificuldade em todo esse processo foi o PT, que é muito radical em suas ações. Era mais complicado lidar com eles do que com os partidos da oposição. Já a relação do Delcídio com o Lula sempre foi boa. Eu acho, inclusive, que o Delcídio seria um ótimo nome para concorrer a vice-presidente na chapa do Lula", avalia o assessor-guru.

Quinze dias, um cargo, dois concorrentes

O jovem Sebastião Gomes Pinto sonhava ser diplomata. Nos anos 50, chegou a estudar línguas, sobretudo francês, moda na época, com um professor ilustre: o cineasta Jean Claude Bernardet, que estava desempregado. Aos 23 anos de idade, já casado, decidiu que seria juiz de Direito. "Eu estaria aposentado hoje", diverte-se. Durante o curso de Direito da Faculdade do Largo de São Francisco, começou a procurar algum "bico" para ajudar nas contas. Foi então que conheceu sua primeira redação, a Última Hora , onde entrou como estagiário do caderno de esportes, em 1962, para ganhar 45 cruzeiros. Em seu primeiro dia no novo emprego, Tão foi informado pelo editor, Celso Brandão, que teria que disputar sua vaga com outro estagiário, Vital Bataglia. Quem se saísse melhor em 15 dias ficaria com o emprego. "O Vital era o candidato mais forte. Ele jogava bola, era sobrinho de boleiros e sabia tudo sobre futebol", conta Tão. No final das duas semanas, a dupla foi chamada pelo editor: o jornal decidira contratar o dois.

Tão já tinha aprendido os macetes da cobertura quando o empresário Luís Fernando Levy decidiu lançar um jornal que seria concorrente direto da Última Hora no nicho dos populares, o saudoso Notícias Populares , que nascia com uma fórmula simples e eficaz e logo se tornaria o rei das bancas: sangue, futebol e mulher pelada por preços convidativos. Seduzido por um salário de 90 cruzeiros, ele mudou-se para a redação do NP , que ficava embaixo de uma oficina na Rua do Gasômetro. "Era um pardieiro", lembra. Seu chefe passou a ser um anti-comunista ferrenho, o jornalista romeno Jean Mellé. Tão deixou de ser repórter de esporte e passou a cobrir política no fatídico 31 de março de 1964, o dia do golpe.

No ano seguinte, em 1965, o Grupo Estado decide lançar um jornal vespertino de esporte, que seria o embrião do Jornal da Tarde . O jornalista Mino Carta, encarregado de montar a equipe, recebeu do jornalista Ulisses Alves Cruz um punhado de recortes de jornal com matérias de um tal "Sebastião Gomes", que estava em política, mas era bom mesmo de esporte. Mino gostou do que viu e convidou o rapaz para seu time. Na mesma semana que Tão foi ao Estadão ouvir a proposta, ele havia recebido outro convite, de uma agência de publicidade, a Thompson. "Na saída do Estadão liguei para minha mulher dizendo que eu tinha dois convites para ganhar 250 cruzeiros: ou eu virava publicitário ou continuava sendo jornalista. Acabei ficando com o segundo".


C om Carlos Chagas, diretor da Manchete em Brasilia, Jack Kapeller, diretor da empresa, e o presidente FHC no Palácio do Planalto.


Imprensa no sangue - com os três filhos, Daniela, Max e Guilherme. Os três têm ligações com a mídia.

Do esquadrão mineiro para a semanal revolucionária

Mino Carta havia desembarcado há pouco tempo da Itália quando foi convidado para montar o vespertino do Grupo Estado. Já era considerado um "medalhão" - carregava no currículo a revista Quatro Rodas - mas não tinha intimidade com as redações. Coube ao seu colega, Murilo Felisberto, mineiro de Lavras, a tarefa de montar um dream team , que foi quase todo importado de Minas. O Jornal da Tarde marcou época. Era um jornal ágil, articulado com o novo espírito paulista dos anos 60. A idade média na redação era de 22 anos, o que resultava em um jornal diferente dos outros. A grande estréia nas bancas aconteceu em janeiro de 1966.

Parte dessa seleção do fechamento deixou o JT para parir outra publicação, em um projeto ainda mais ousado: criar uma revista semanal de informação, em plena ditadura militar. E lá se foi Tão, seguindo seu mestre, Mino. Foram tempos difíceis os primórdios de Veja . Ao contrário de hoje em dia, nos anos 60 a revista era considerada pelos militares um reduto esquerdista. "O ( Roberto ) Civita não tinha informação política e não circulava nos meios militares quando decidiu lançar Veja . Ele era visto como um aventureiro. Veio o AI-5. Sofremos uma severa fiscalização desde o começo. Em 1969 colocaram lá dentro três censores. Era um cerco pavoroso. O Estadão não passou por isso. Eles publicavam Camões e pronto. Ninguém ia na redação encher o saco. A Folha também não teve tantos problemas", recorda. Comercialmente a revista também enfrentou muitos problemas para se estabilizar. "A revista tinha 150 jornalistas e começou com uma tiragem de 600 mil. Foi caindo, chegou aos 28 mil. Começaram os passaralhos. Ouvi dizer que, no fundo do poço, chegou aos 19 mil de tiragem". A hemorragia só foi contida quando o jornalista Raimundo Pereira teve uma idéia brilhante: criar fascículos sobre a preparação da viagem do homem à lua. Foi um sucesso, digamos, astronômico.



A relação entre Mino Carta e Roberto Civita não resistiu às pressões de Armando Falcão, ministro da Justiça nos anos de chumbo. Certa vez, já nos anos 70, o dono da Abril encontrou o ministro em Brasília e ouviu dele a seguinte pergunta: "Por que você insiste nesse Mino Carta?". "Porque ele é o melhor jornalista do país", respondeu. "Então porque você não contrata o segundo melhor?", retrucou o ministro. O recado foi dado. E obedecido. Mino esvaziou sua gaveta e mudou-se para a Editora Três, onde se associou a Domingo Alzugaray para montar uma nova publicação mensal de leitura masculina, mas sem mulher pelada, nos moldes da norte-americana Esquire . Seu fiel escudeiro Tão embarcou com ele nesta nova aventura editorial. E ajudou a criar a IstoÉ .

Fazendo a IstoÉ com a mão esquerda


F oto histórica - Com o chefe, senador Delcídio Amaral.

Entre idas e vindas na IstoÉ , depois de deixar a semanal e passar um período fazendo freelas , Tão foi parar em Uberlândia, Minas Gerais, onde assumiu o comando da Gazeta do Triângulo , o principal jornal da região, que havia passado por uma profunda reforma gráfica. Ele estava "esquecido" em Minas quando recebeu um convite para voltar para a boa e velha IstoÉ , desta vez sem Mino Carta, que havia se desentendido com Domingo Alzugaray e partido para outra. O convite era para ser editor de política, mas as guerras internas somadas a outros fatores o levaram ao comando da revista. Tão promoveu uma verdadeira reviravolta. Passou a produzir mais reportagens de comportamento e ajudou a alavancar as vendas. Sob sua batuta, IstoÉ chegou a vender 600 mil exemplares. Crescia, em tiragem e vendas, mais do que o dobro da Veja . Estava tudo muito bem, quando, em 23 de janeiro de 1995, 30 meses depois de assumir o comando da semanal, no pico da pressão, sentiu-se mal em casa e desmaiou. "Depois de uma bateria de exames os médicos entraram no quarto e disseram que eu tinha tido um AVC por overdose de drogas. Eu dei risada. Nunca nem cheguei perto. Se sinto cheiro de maconha, meu estômago embrulha. Depois, me viraram pelo avesso e descobriram que eu tinha um milimétrico desvio na carótida". Começava aí o período mais difícil de sua carreira. "Eu tive que aprender a escrever com a mão esquerda e sentia muitas dores. Aquilo me limitava muito. O Mino me ensinou uma regra: o poder efetivo da redação está com quem faz o espelho. Eu não conseguia mais fazer e deixei com o Hélio ( Campos Mello ). Aquela situação me deixava muito irritado e eu comecei a dar uns ´pitis` na redação". Domingo, então, ofereceu a Tão o cargo de correspondente na Europa. Mas ele estava construindo sua casa e não topou. A segunda proposta foi o cargo de diretor-editorial da Editora Três. "Era um cargo em que eu ficava meio à toa, organizando almoços. Eu me sentia meio inútil".

Tão voltaria a colocar a mão na massa em 1996, quando foi convidado a assumir o comando da revista Manchete . O entusiasmo de Tão era visível. Jack Capeller, então presidente da Bloch, dizia: "O velho leão voltou a rugir". Um ano depois, em 1997, assumiu o comando da redação da revista IMPRENSA, onde rugiu até 2002. Hoje, nos dias em que assume estar mais próximo dos elefantes do que dos leões, Tão Gomes Pinto deixou de rugir. Elefantes, segundo o dicionário, barrem. Eis o que anda fazendo o velho elefante.

Tão obsceno quanto necessário

Numa banca de defesa de mestrado, dias desses, ouviu-se uma interessante definição da utilidade da crônica: é o espaço "menos sério" do jornalismo para que ela legitime a objetividade do jornalismo factual. Um contrapeso, por assim dizer. O texto de Tão - freqüentemente comparado a de grandes mestres do século XIX - é, certamente, uma exceção àquela análise, porque sua crônica, apesar de deliciosa como uma sobremesa, não é apenas brinquedo para as horas vagas do leitor e, no fundo, cumpre a função (com ironia, os jogos de palavra e o despudor típicos de sua geração) que o grande jornalismo não consegue mais desempenhar. A crônica de Tão revela as obscenidades do poder sem, contudo, ser denuncista. Aliás, não há tipo mais chato de jornalista que aquele que afirma ter sempre uma denúncia a fazer. O furo que merece ser dado está debaixo dos nossos olhos. E Tão sabe disso. (Rodrigo Manzano)