PERFIL: PÁGINAS DA VIDA

PERFIL: PÁGINAS DA VIDA

Atualizado em 18/05/2009 às 03:05, por Redação Revista IMPRENSA.

Na seção "Perfil" da edição 245 da revista imprensa temos um dos mais famosos bibliófilos do Brasil: José Mindlin. Na edição impressa há um retrospecto de sua vida, desde as reportagens para o jornal O Estado de S. Paulo , até sua experiência como empresário do ramo automotivo, quando comandou a empresa Metal Leve. Mas o aspecto mais básico de sua vida, que permeou a maioria de suas experiências, foi de fato sua biblioteca. No decorrer da vida, Mindlin conseguiu colecionar mais de 60 mil volumes - 20 mil títulos são da Brasiliana, acervo de obras relacionadas ao Brasil que foi inteiramente doado à Universidade de São Paulo (USP) e que compõem a maior do gênero na América. Muitos desses livros e documentos, sobre o Brasil ou não, são raros e revelam curiosidades sobre os mais diversos assuntos, incluindo o desenvolvimento da imprensa e das artes gráficas. Pedimos que Mindlin comentasse algumas dessas preciosidades, das quais reproduzimos, em alta resolução, algumas páginas a seguir:

"Decreto de criação da Imprensa Régia", de 1808

Foi uma verdadeira revolução na comunicação do Brasil, como resultado da vinda da corte portuguesa para o Rio de Janeiro, em que se instalou a Imprensa Régia, que antes não exigia no Brasil. Todas as impressões eram feitas em Portugal. Com a Imprensa Régia, o Brasil adquiriu outro patamar de cultura e autonomia cultural, de modo que o decreto que instituiu a Imprensa Régia marca um dos grandes benefícios que a transferência da corte trouxe para nós. Foi quando o Brasil realmente começou a ter sua existência como nação. Então é claro que uma referência direta à Imprensa Régia e, naturalmente, ao número de impressões que foram feitas lá é muito grande, e procuramos ter, desde aquele período, uma representação do que foi o livro no Brasil de 1808 para os nossos dias e também, independentemente dessa parte brasileira, alguns exemplos do que foi o livro desde o século 15 até os nossos dias [em outros lugares do planeta].

Houve tipografias clandestinas no Brasil [anteriormente à Imprensa Régia], mas elas não foram significativas. Começou no século XVIII, mas a censura portuguesa era extremamente rigorosa.

Imprimiu-se algumas centenas de cópias desse decreto, mas muito se perdeu. Então esse é um documento que pode ser considerado raro. A história desse documento em especial é muito complicada de descrever, pois a biblioteca existe desde 1927, então só consigo me lembrar de algumas coisas... A biblioteca tem 80 e poucos anos, é muita obra! O que posso dizer é que procurei ter alguns exemplares de trabalhos da Imprensa Régia e quando encontrei o decreto da fundação, dei início oficial ao seguimento desse setor da biblioteca.

"Caetés", de Graciliano Ramos, com dedicatória ao amigo Pio, em que relata as lembranças dos tempos em que trabalhavam em jornal. Edição de 1933 com ilustrações de Santa Rosa

Todas as primeiras edições de autores desse período já se tornaram raras. Porque as tiragens eram pequenas, muitas vezes de 300 a 500 exemplares no máximo. Isso, espalhado pelo país, mostra que bons exemplares dessa circulação não foram muitos.

Todas edições [da obra "Caetés"] tiveram algumas modificações... Não são substanciais. Basicamente a primeira edição já é expressiva do talento do Graciliano Ramos.

"Ensaios morais", de Alexandre Pope

É uma das primeiras impressões oficiais do Brasil, pela Imprensa Régia. E esta é de uma qualidade gráfica da qual se orgulharia qualquer impressora portuguesa ou brasileira. O papel era inglês, de alta qualidade e a diagramação, os tipos escolhidos e a clareza de leitura do texto são excepcionais. Temos algumas centenas de obras de Imprensa Régia, mas esta é, gráfica e artisticamente, uma das mais expressivas.

Naturalmente, o início da imprensa aqui não foi fácil, mas a impressão no Brasil adquiriu qualidade rapidamente e o século XIX tem uma grande riqueza de impressões que mostram que existia competência e bom gosto na diagramação, na escolha dos tipos, na ilustração. Essa obra do Pope é expressiva da beleza das edições da Imprensa Régia.

"Correio Braziliense", n° 1, Volume 1

Foi um jornal impresso na Inglaterra, onde se encontra uma grande propaganda da idéia de declaração de independência do Brasil colônia. Nós conseguimos a coleção completa desse jornal, cuja circulação era proibida tanto em Portugal, como no Brasil. Mas era importante para aquele período de evolução política.

[Quanto ao acordo sigiloso de cavalheiros entre Hipólito da Costa e dom João VI] é mais ou menos isso mesmo, mas havia uma censura forte. Essas proibições tinham aplicação difícil porque a distância e a expansão territorial impediam a repressão às edições clandestinas. Mas foi importante como documentação da luta pela independência.

"A Estação", edição com o conto "O caso do Romualdo", de Machado de Assis

Dessas revistas procurei reunir o maior número possível, ou até uma coleção completa, mas a gente pode se considerar satisfeito com alguns exemplares do século XIX, que mostram que a atividade cultural do segundo império foi bastante intensa. O curioso é que havia revistas com críticas intensas a Dom Pedro II que ele sempre tolerou, mesmo havendo uma grande pressão sobre ele para que reprimisse essas edições e punisse os autores. Mas ele sempre manteve a liberdade de imprensa no 2º Império.

A Estação era importante do ponto de vista literário, procurando imitar os costumes da França. A Saisson , que é A Estação francesa, foi imitada na edição brasileira.

Machado de Assis é um dos ídolos da literatura brasileira e quando se encontra alguma coisa do início da carreira dele ou que só foi reunida em livro mais tarde, há um interesse especial. "O caso do Romualdo" é do período romântico, por exemplo.

"Revista Illustrada", de Angelo Agostini

As legendas das caricaturas são surpreendentemente arrojadas, reinou liberdade de expressão. E essa revista durou muitos anos, acho que 15 ou 16 anos.

Essas coisas são curiosidades [Agostini criticando os jornais A Gazeta de Notícias e O Mosquito em seu cartum] do que foi a imprensa no Brasil durante o primeiro e segundo Impérios. E essa revista é realmente espantosa como coragem de manifestação. A parte de caricatura é de excelente nível e a gente teve sorte de reunir - através de aquisições separadas - a coleção completa.

"Diário de Francanzano Montalboddo"

É o primeiro livro que menciona Pedro Álvares Cabral. A primeira vez foi publicada em 1507, mas temos uma edição de 1508 e uma de 1521, que é mais completa. A importância vem da raridade de documentos como a carta de Caminha, descrevendo aqueles primeiros momentos da colônia, pela rigidez da coroa portuguesa quanto ao sigilo sobre o novo mundo. O livro de Montalboddo se concentra mais na viagem do que no Brasil, mas é uma obra valiosa.

Originais de "Perto do coração selvagem", de Clarice Lispector

Eu conheci Clarice Lispector em 1950, em Washington, onde ela, eu acho, trabalhava na embaixada. Ela era mais moça que eu e vivia também do jornalismo. Eu mesmo, aliás, comecei a minha vida profissional como redator do Estado [ de S. Paulo ], entrei para a redação em maio de 1930, tinha 15 anos e meio. Fiz 16 anos em setembro. O começo da minha carreira foi o trabalho jornalístico, no qual eu aprendi a escrever e conheci os mistérios políticos e da sociedade brasileira. Para mim foi uma experiência insubstituível.

Em 1932 ainda trabalhava no Estadão. Todos nós acreditávamos na Revolução como um instrumento eficiente de desenvolvimento político. Infelizmente o movimento acabou sendo sufocado pelo governo Vargas. Mandava textos para o Estadão ou telefonando, ou por telegramas, e também fiz trabalho de comunicação como revolucionário. Foi um período de vibração política que a gente não esquece. Seria um pouco pretensioso me classificar de correspondente de guerra, mas eu tive uma experiência prática do esforço que foi feito.

Voltando à Clarice: nós procuramos ter o maior número possível de originais da literatura brasileira. Este é importante porque é o exemplar que sobrou para a impressão. Nós temos outros mais significativos, como os de Guimarães Rosa, por exemplo, com textos originais usados para impressão da obra com correções manuscritas do autor... Enfim, a variedade aqui na biblioteca, modéstia à parte, não é pequena.

"Triunfo de Petrarca" e "O sonho de Poliphilo"

A biblioteca brasiliana é mais ou menos metade do acervo, mas a literatura estrangeira, história e viagens também não é pequena. E eu sempre procurei encontrar bons exemplos do que foi o livro desde o século 15 até os nossos dias. Então conseguimos a primeira edição ilustrada de Petrarca, publicada em 1488, que eu comprei em Londres em 1946. Me lembro bem da compra desse livro. O "Poliphilo" é um livro que eu persegui durante quase 30 anos, mas era sempre um livro de preço superior às minhas posses. Sempre que eu resolvia comprar a obra, apesar de ser eventualmente um custo excessivo para mim, o preço subia outra vez. Certa vez concluí que mais valia a pena ter o livro do que conservar o dinheiro. O dinheiro volta, mas um livro muitas vezes não se consegue encontrar de novo.

Petrarca é uma edição européia anterior à descoberta do Brasil. O Poliphilo é um livro clássico, de todos os tempos, foi uma revolução na arte gráfica em 1499, mas que se fosse publicado hoje, seria aceito como uma boa edição moderna. Logo o Petrarca é dos primeiros da imprensa, embora o primeiro livro impresso seja de 1455, mas assim mesmo são 30 e poucos anos de existência até Petrarca, e essa é a primeira edição ilustrada, o texto original é do século 13.

"Vocabulário Português e Latino", primeiro volume, de 1712 a 1728, do padre Raphael Bluteau.

Não lembro, acho que Bluteau [é o nome do autor da obra]. Minha memória já foi muito boa, mas há um departamento de nomes próprios do meu cérebro que está avariado. É anterior à imprensa no Brasil, editado em Coimbra. Portanto não é da Brasiliana. É o primeiro dicionário da língua portuguesa, possui oito volumes.

[Mindlin colaborou para a digitalização completa da obra, produzida pelo Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) e da USP, disponível no endereço www.ieb.usp.br.]

"Gazeta do Rio de Janeiro" de 1 º de julho de 1820

Primeiro jornal impresso no Brasil e pela Imprensa Régia. Você vê que a imprensa no Brasil é de antes da independência. Ia acontecer em 1822, como poderia ser um pouco antes ou depois, mas o governo português já não podia evitar o imperativo da independência brasileira. A Gazeta foi um dos órgãos propagadores da idéia da independência, daí sua importância. A corte ao voltar à Portugal, deixou a semente da independência, porque colaborou muito para o sentimento de emancipação.

Mas ainda assim, começou tarde aqui no Brasil. No Peru e no México a imprensa já datava do século XVI. Portugal era muito cioso de manter controle absoluto sobre a informação. Dizer que a colonização portuguesa foi favorável ao Brasil não corresponde à realidade, pois controlava muito a colônia.