Perfil - copa: Um poeta contra o óbvio
Perfil - copa: Um poeta contra o óbvio
Armando Nogueira começou no futebol há mais de 50 anos. Como repórter, sua estréia foi em 1954, mas há registros ancestrais de sua participação como jogador em Xapuri, no Acre, quando descobriu que era muito melhor com as palavras que com as bolas.
Armando Nogueira ainda era um aprendiz de feiticeiro quando assistiu sua primeira Copa do Mundo. O ingresso para a concorrida final entre Brasil e Uruguai no Maracanã, naquele fatídico 16 de julho de 1950, foi um prêmio dos seus editores, satisfeitos com o trabalho do jovem estagiário de 23 anos de idade, que começava a brilhar no Diário da Noite . De 1954 em diante, Armando cobriu do primeiro ao último jogo da seleção brasileira nas últimas 13 Copas, sem exceção. A esta hora, aliás, ele já está na Alemanha, pronto para participar de sua 14ª competição, agora como comentarista do canal SportTV. A sofisticação do futebol globalizado de hoje nada lembra o campinho de terra batida em Xapuri, no Acre, onde nasceu Armando Nogueira e onde jogou pelo time do Ginásio Acreano.
Voltemos no tempo. Em sua estréia em 1954, na Suíça, quando fechava suas matérias por telex ao lado de medalhões como David Nasser, Ricardo Barreto e Romualdo Silva, o foca Armando Nogueira teve uma idéia que marcaria sua carreira definitivamente. Apesar de não ser um repórter fotográfico, gastou todas suas economias em uma Rolleiflex, a dama das câmeras fotográficas na época. No dia do jogo entre Brasil e Hungria, considerada uma das favoritas do torneio, Armando resolveu ir para o vestiário, com sua Rolleiflex em punho, antes do fim do jogo para entrevistar o jogador Nilton Santos, que tinha sido expulso. "O Brasil foi eliminado e houve tremendo sururu entre os jogadores no túnel que levava aos vestiários. Eu estava lá e fui surpreendido com a briga. Aí levantei minha câmera a apertei o flash eletrônico. Não tinha idéia do que tinha saído". Terminada a confusão, Armando Nogueira foi correndo para o hotel e entregou seu filme para o fotógrafo Ângelo Regato, do Diário da Noite . "No outro dia, ele chegou no meu quarto e mostrou a foto. Era o Zezé Moreira ( técnico da seleção ) jogando uma chuteira. Nos jornais daquele dia tinha outra foto, do presidente da delegação húngara, com a cara cheia de esparadrapo, dizendo que tinha recebido uma 'chuteirada'. A associação era óbvia. A chuteirada seria do técnico da seleção brasileira". A notícia da tal foto correu rápido e chegou até a concentração da seleção brasileira. Naquele mesmo dia, Zezé Moreira foi procurar Armando no hotel para tentar convencê-lo a não divulgar a imagem comprometedora. Tarde demais. "Eu disse: 'não posso fazer mais nada, já mandei para o Brasil'. Ele rompeu relações comigo e só se reconciliou no final da carreira dele, em uma noite de autógrafos do Rio de Janeiro. O fato é que vendi essa foto até para o El Gráfico , na Argentina. Contrai um inimigo, mas fiz uma foto que me colocou em evidência na profissão". Além de uma grande foto, Armando trouxe para o Brasil o mito da Hungria, considerada por ele a melhor seleção daquela competição. Suas crônicas exaltavam a seleção campeã, o que deixou irritado um dos mais fanáticos e nacionalistas cronistas da época, Nelson Rodrigues, que não aceitava o fato do Brasil ter sido derrotado tão cedo. "Houve uma polêmica do Nelson contra mim. Ele sempre foi um nacionalista exacerbado e não admitia que ninguém fosse melhor que a seleção brasileira. Eu dizia que a seleção húngara era melhor que a do Brasil. Como não havia TV na época, era a palavra dele contra a minha. Aquilo acabou me dando notoriedade", conta Armando.
Naqueles dias, conta Armando, a competição pelo furo era bem mais acirrada que hoje. "Havia uma briga feroz pelo furo. A relação entre os jornalistas era de trairagem completa. O sujeito não pensava duas vezes antes de passar a gilete em um envelope seu, com sua correspondência, que vinha pela Panair. Era uma briga de foice no escuro. Hoje, o furo é compartilhado por todo mundo", compara.
Armando Nogueira (centro) gravando no estúdio do Sportv.
Barreira
A Copa do Mundo de 1970, no México, marcou o início de uma nova fase na cobertura dos jogos, especialmente no caso do Brasil. Com o país vivendo sob a ditadura militar, a segurança da equipe foi reforçada, o que levou a um distanciamento maior entre repórteres e jogadores. Foi nessa época, também, que começaram a surgir os primeiros sinais da mercantilização do futebol, em figuras como assessores de imprensa, empresários e afins, que formavam uma segunda barreira entre os jornalistas e o time. Apesar das dificuldades, a Copa de 70 é lembrada com um carinho especial por Armando. "Eu fui como diretor de jornalismo da Globo. Levamos uma equipe que nos permitiu fazer uma cobertura melhor, já com satélites de televisão. Eu tinha até um programa: 'Dois minutos com Armando Nogueira', que passava no 'Jornal Nacional'". A Copa seguinte, de 1974, na Alemanha, aconteceu sob o signo do medo. Como, dois anos antes, em 1972, ocorrera a tragédia das Olimpíadas de Munique, que acabou com assassinato da delegação israelense, a segurança do torneio foi reforçada ao extremo da paranóia. "Nós começamos a encontrar barreiras intransponíveis para ter acesso à intimidade da seleção. Foi ali que a coisa começou a endurecer para todo mundo". Não bastasse as dificuldades da cobertura, a seleção canarinho foi eliminada nas quartas de final, depois de perder para a Polônia por 1 X 0. De 1974 em diante, a cada nova Copa do Mundo o futebol e a cobertura ficavam mais sofisticados, caros e inacessíveis. Mas o texto de Armando Nogueira permanecia recheado com a mesma paixão e com o mesmo encantamento, uma espécie de guerrilha contra o óbvio. Como naqueles tempos de Brasil contra Hungria.
Para Armando Nogueira, a mercantilização do futebol é inevitável. "O esporte e os jogadores são, hoje, produtos de mercado. E, como produtos, se tornaram menos interessantes que antes. Os jogadores começaram a ter consciência do que chama marketing e começaram a só falar coisas de sua conveniência. Existe uma retórica comum a todos, dependendo do nível de cada um. 'Trabalhamos muito esta semana. Demos muito de nós para chegar aqui...'. Não tem graça, é convencional", queixa-se. A matéria-prima do poeta do gramado anda escassa. Sua poesia, não.
Poesia dos gramados
Armando Nogueira, escreve sua coluna para Jornal do Brasil, em sua boa e velha máquina Remington
"Por isso, recebam, amanhã, os heróis do Mundial de 70 com a ternura que acolhe em casa os meninos que voltam do pátio, onde brincavam. Perdoem-me o arrebatamento que me faz sonegar-lhes a análise fria do jogo. Mas final é assim mesmo: as táticas cedem vez aos rasgos do coração. Tenho uma vida profissional cheia de finais e, em nenhuma delas, falou-se de estratégias. Final é sublimação, final é pirâmide humana atrás do gol a delirar com a cabeçada de Pelé, com o chute de Gérson e com o gesto bravo de Jairzinho, levando nas pernas a bola do terceiro gol. Final é antes do jogo, depois do jogo - nunca durante o jogo".
Trecho de crônica escrita por Armando Nogueira sobre a final da Copa de 70, republicado em O melhor da crônica brasileira (1997). Os textos de Armando Nogueira tornaram-se referência da crônica esportiva brasileira e foram publicados em dez livros, desde a década de 60.
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