Pedro de Camargo Neto, presidente da Associação Brasileira da Indústria Produtora e Exportadora de Carne Suína, em São Paulo; e Ronaldo Luiz Mendes Araujo, coordenador de comunicação da Sociedade Rural Brasileira, em São Paulo
Pedro de Camargo Neto, presidente da Associação Brasileira da Indústria Produtora e Exportadora de Carne Suína, em São Paulo; e Ronaldo Luiz Mendes Araujo, coordenador de comunicação da Sociedade Rural Brasileira, em São Paulo
Pedro de Camargo Neto, presidente da Associação Brasileira da Indústria Produtora e Exportadora de Carne Suína, em São Paulo
Acredito que o desafio para o profissional seja pautar os temas e não ser pautado pelas assessorias dos governos e empresas. Isso exige tempo, dedicação e conhecimento nem sempre existentes. Acho fundamental o repórter especializado ter conhecimento sobre os temas do agronegócio que cobre e não se ater somente a informações de fontes que têm interesse em que a matéria enfoque apenas determinado ângulo. Fazendo isso, o jornalista corre o risco de, ao ter sua matéria publicada, perder credibilidade. Como leitor e empresário do setor, aprecio reportagens equilibradas, com a participação de todos os lados envolvidos nas histórias.
Pontos positivos na cobertura são os que revelam que o repórter pesquisou o tema, checou as informações, partiu de uma pauta bem fundamentada, procurou as pessoas "certas" para falar, trabalhou também o contraditório, o dissenso. A cobertura da imprensa brasileira sobre o contencioso do algodão na Organização Mundial do Comércio (OMC), de modo geral, tem sido boa. Esse assunto eu conheço bem, pois quando estava no governo, iniciei o contencioso contra os EUA, que resultou em vitória para o Brasil. Agora, os jornais estão dando matérias sobre o acordo entre o Brasil e os EUA para evitar que o governo brasileiro use o direito de retaliação.
Cada vez mais aumentam os assuntos para a imprensa cobrir e entendo que os editores precisem selecionar os temas. Entendo também que, como o setor ganhou, nos últimos anos, importância para o desenvolvimento do país, precisamos de uma mídia que reflita esse status. Sinto falta de mais cadernos sobre temas do setor nos jornais e revistas. Essa cobertura já foi mais ampla. Uma forma de melhorar a cobertura sobre o tema seria os jornais e revistas darem mais matérias especiais para serem publicadas uma vez por semana, por exemplo, já que não têm tanto espaço no dia-a-dia.
As transformações que ocorreram no Brasil, nas últimas duas décadas, foram profundas. Cresceu o papel que o setor passou a ocupar no desenvolvimento da nação. O futuro apresenta inúmeros desafios, e a imprensa poderia ajudar muito, trazendo transparência e incentivando o conhecimento. Falta debate sobre como deve ser a nova política agrícola do futuro, dos gargalos em termos de logística e os projetos de investimento, o desafio da modernização da estrutura tributária e do ambiente macroeconômico, questões sobre sanidade animal e vegetal, barreiras técnicas e negociação comercial e dificuldades de acesso a mercados para os produtos do agronegócio brasileiro, o papel do setor público e as parceiras com o setor privado.
Ronaldo Luiz Mendes Araujo, coordenador de comunicação da Sociedade Rural Brasileira, em São Paulo
O principal equívoco é o olhar "enviesado" da grande imprensa com relação ao agro. Nas editorias de economia isso não acontece tanto, mas nas editorias de política e meio ambiente, isso é latente.
O setor, especialmente, o produtor rural, ainda é visto, em sua maioria, como perdulário, desmatador, grileiro. A falta de comunicação entre o meio urbano e rural provoca isso. Há um fosso entre essas duas dimensões. E a falta de diálogo prejudica a imagem e a construção de reputação do segmento rural junto aos formadores de opinião e tomadores de decisão que vivem nas cidades.
Em parte isso acontece por desinformação e preconceito da sociedade urbana, mas, por outro lado, o setor rural ainda engatinha no tocante a comunicar melhor a sua realidade. Dessa forma, casos individuais de trabalho escravo ou desmatamento mancham institucionalmente todo o setor.
Os veículos precisam estar mais próximos do cotidiano do agronegócio, especialmente para mostrar os benefícios não só econômicos, mas ambientais e sociais que o setor fornece para toda a sociedade.
Mas essa proximidade, muitas vezes, ou arriscando um pouco mais, na maioria das vezes, só vai acontecer se houver uma maior mobilização do próprio setor rural. O segmento tem que estabelecer canais de diálogo mais sistemáticos com a grande imprensa, a fim de expor, com base em números, dados, informações concretas, seu ponto de vista sobre os mais diversos temas, que impactam sua atividade.
Uma questão crucial é que para a sociedade urbana o agronegócio parece uma coisa só. Dessa forma, um produtor estaria no mesmo patamar de uma Brasil Foods ou de uma Bunge. Falta à grande imprensa mostrar que o produtor é o elo mais fraco da complexa rede de relações da cadeia produtiva do agro. E justamente por ser o personagem mais vulnerável, sofre mais.






