Pedestres sem passagem

Pedestres sem passagem

Atualizado em 08/10/2007 às 11:10, por Maira Escovar.

Com exceção de Nova Iorque, Boston e outras poucas capitais que possuem excelentes serviços de metrô, na maioria das cidades americanas o ato de se deslocar a pé da casa para o trabalho, escola, farmárcia ou supermercado é algo arriscado.

E não é por causa de ladrões, assaltantes ou sequestradores, personagens com o qual estamos acostumados a encontrar todos os dias nos jornais brasileiros.

Longe disso, pois diferentemente das grandes capitais, na maioria das cidades médias americanas você pode caminhar pelos parques ou sentar numa mesinha de café colocada na calçada e trabalhar no seu laptop sem se preocupar com ladrões. O perigo, na verdade, está em exercer o papel de pedestre.

Assim como no Brasil, as ruas e avenidas americanas possuem faixas de segurança, geralmente acompanhadas de um semáforo inteligente no qual teoricamente após apertar um botão que registra a intenção de atravessar a via, os veículos parariam em intervalos regulares para os pedestres. Mas não foi o que eu presenciei nas minhas últimas aventuras pelas ruas de uma pequena cidade próxima a Atlanta, Estado da Geórgia, após ter assistido algumas matérias sobre manifestações de pedestres nas ruas deste Estado.

O que eu encontrei foi semáforos onde o pedestre precisa se deslocar alguns metros ou até escalar alguns pequenos terrenos só para conseguir apertar o botão de pedido de passagem. E, se não bastasse o esforço para acionar o semáforo, após isso é preciso esperar vários minutos até que o sinal de pedestres se abra.

Aí, assim que ele finalmente se abre, o relógio não chega a cronometrar cinco segundos e ele já volta a indicar uma mãozinha vermelha pedindo para que os pedestres parem.

Como eu não estava nem na metade do caminho para atravessar as seis longas faixas da avenida, tive que começar a correr para não atrapalhar o trânsito dos automóveis que já aceleravam por alí. A impressão que dá é que o sistema se auto-programa, prevendo que nunca há pedestres ou que quando há, ele pode ter apertado o botão por engano. Talvez por isso eu não tenha visto mais ninguém tentando atravessar aquele cruzamento.

Com ruas cheias de carros mas sem pedestres é fácil imaginar porque, segundo um levantamento recente feito aqui no Estado da Geórgia pelo site - organização que se dedica a defender os direitos dos pedestres - 25% das crianças e 58% dos adultos já são considerados
obesos.

Segundo o mesmo site, as crianças norte-americanas hoje andam ou pedalam suas bicicletas 37% menos do que faziam há 20 anos atrás. Além disso, apenas 10% delas caminham para ir até a escola pois os pais alegam que não há segurança suficiente aos pedestres.

Por mais que os motoristas em geral sejam educados, parando os carros quando vêem pessoas caminhando a pé pelos estacionamentos ou condomínios, caminhar por aqui realmente é uma experiência emocionante, senão estressante.

Um motivo para tamanho "esquecimento" e descaso com os pedestres pode ser a distância entre casas e estabelecimentos comerciais por aqui. Nas cidades longe dos grandes centros você precisa caminhar ao menos cinco ou seis longas quadras para encontrar uma casa, loja ou empresa.

Outra justificativa é que os carros nos Estados Unidos são muito acessíveis. As famílias com dois ou três filhos não raramente possuem de quatro a cinco motores na garagem.

Uma paisagem com muitas rodas que à primeira vista pode parecer interessante, rica, desenvolvida e moderna, porém nada democrática ou saudável.