Pauteiro voluntário, jornalista Ricardo Lombardi fala sobre o blog "Desculpe a Poeira"
Pauteiro voluntário, jornalista Ricardo Lombardi fala sobre o blog "Desculpe a Poeira"
Conciliando a rotina de blogueiro e jornalista, o paulistano Ricardo Lombardi, de 38 anos, vive, simultaneamente, a tarefa de oferecer conteúdo para o público jovem do Guia do Estudante e do Almanaque Abril , ambos da Editora Abril, e o de disponibilizar assunto para colegas de trabalho que buscam por uma pauta interessante.
Inicialmente aluno de Direito na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Lombardi logo teve contato com o meio jornalístico durante sua procura por um trabalho qualquer na área jurídica. Com apenas 18 anos, foi chamado para ser arquivista no jornal O Estado de S.Paulo , mantendo o banco de dados que suporta o trabalho de jornalistas das redações do diário, do Jornal da Tarde e da Agência Estado. "O contato diário com os jornalistas que eu atendia me abriu os olhos para outros caminhos possíveis e todos pareciam muito mais interessantes do que os caminhos do Direito. Tranquei a matrícula na faculdade, fui cursar Jornalismo e aproveitei as oportunidades que o jornal me ofereceu com o passar dos anos", explica.
Oito anos depois, já no posto de editor de turismo do JT , durante a gestão de Leão Serva, e formado pela Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero, foi trabalhar na editora em que até hoje presta seus serviços. Acumulando passagens pelas revistas Bravo! (redator-chefe), ELLE (editor) e Contigo! (redator-chefe) e pelo jornal online do iG, , quando atuou como correspondente em Nova York, idealizou e fundou o blog " ", com o objetivo de fornecer temas e assuntos diferentes para outros jornalistas desenvolverem matérias.
Em entrevista ao Portal IMPRENSA, o jornalista explicou sua dedicação ao blog, seus pontos positivos e negativos, e como desenvolveu tal projeto.
IMPRENSA - O que o levou a abrir "Desculpe a poeira"?
Ricardo Lombardi - No Estadão e no JT , fui pauteiro durante muitos anos, função que me obrigava a ler os jornais estrangeiros que a direção assinava, em busca de idéias ou de textos que seriam encaminhados para a equipe de tradução. Já naquela época, início dos anos 90, eu tinha o hábito de recortar textos de jornais e revistas e guardá-los em pastas de plástico para consultas futuras. Vários desses textos acabavam virando sugestões de pautas para colegas, outros serviam apenas de assunto para discussões e muitos não viravam nada, iam mofar nas pastas. Com a chegada da Internet, esse hábito ganhou força, além de ficar mais prático. O blog surgiu quando resolvi que, melhor que mandar o conteúdo por e-mail para um grupo pequeno de colegas, seria mais democrático publicar tudo na web. Afinal, a maioria das fontes é grátis, basta saber procurar. Ainda hoje, jornais e revistas se inspiram muito em matérias da imprensa estrangeira. A diferença é que agora as pautas são de todos e há muito mais fontes. A originalidade está mais na abordagem do que na notícia em si.
IMPRENSA - Por que não trabalha mais em veículos de comunicação?
Ricardo - O blog é um projeto pessoal. Acho que foi a Marília Scalzo que disse uma vez que todo jornalista, seja de texto, foto ou design, deve ter um projeto pessoal para tocar no tempo livre, com a intenção de refrescar as idéias para as atividades profissionais diárias e de não se deixar contaminar apenas com as questões de dentro das redações. Ela está certa. No meu caso, o blog me obriga a ler um cardápio de publicações que acaba me ajudando na minha função como redator-chefe do Almanaque Abril, cargo no qual estou hoje. Acrescento que com o passar do tempo, o projeto do blog foi mudando. Mais do que sugerir pautas, a intenção é filtrar - dentro das minhas limitações, claro - a riqueza de informações da Internet, dando dicas de pautas, sites, blogs, textos, artistas, ilustradores. Mas sempre com a idéia de apresentar ao leitor algo que ele não conhecia (ou não teve tempo de conhecer).
IMPRENSA - Como mantém o blog?
Ricardo - Mantenho o blog dormindo bem pouco e tomando café forte. Acordo às 5h ou 5h30 da manhã para pegar as notas mais frescas. De noite, lá pelas dez, dou uma vasculhada nos meus sites favoritos para pesquisar algum material que poderá ser usado no dia seguinte. Posto cedo por duas razões: acho jornalisticamente mais correto oferecer novidades logo pela manhã, na hora do café, e tenho outras obrigações profissionais ao longo do dia. Trabalho como redator-chefe na redação do Almanaque Abril e do Guia do Estudante. Formamos uma equipe que edita 14 publicações anuais.
IMPRENSA - Qual é o retorno que tem com o blog? Consegue contabilizar isso?
Ricardo - Recebo vários e-mails de leitores e de colegas. Muitos jornalistas agradecem por terem lido algo que acabou sendo útil para eles, de alguma forma, nas publicações em que trabalham. Outros, muito generosos, enviam sugestões de links. Não contabilizo, mas, vez ou outra, vejo uma sugestão minha publicada em jornais ou revistas. Não significa que tenham passado pelo meu blog antes, mas apenas que meu olhar como "pauteiro" estava na direção certa.
IMPRENSA - Você passou de repórter para um fornecedor de material para outros jornalistas. Como é para você essa relação? Sente vontade de produzir algo a partir das pautas que publica?
Ricardo - O ponto principal é o seguinte: se antes ajudava uns poucos amigos de São Paulo com meus recortes de jornal ou com meus links, hoje posso ajudar mais pessoas - e de outros estados do país. Gentileza gera gentileza, eu acho. Como projeto pessoal, isso me satisfaz. Muitos dos temas eu mesmo gostaria de perseguir, claro. Mas é melhor passar adiante do que engavetar, certo?
IMPRENSA - Alguma das pautas que você publicou gerou alguma boa história para alguém?
Ricardo - De memória, lembro de algumas: uma corretora de imóveis online que vende ilhas particulares mundo afora acabou gerando uma pauta para o Estadão; uma nota sobre uma agência italiana de turismo de luxo foi mencionada pela Revista da Semana . Uma pauta do Wall Street Journal sobre editoras de livros que usam o YouTube para divulgar seus autores saiu na Bravo . A história de Shigeo Tokuda, um senhor de 74 anos que ganha a vida como ator pornô no Japão vai virar tema de revista para a terceira idade. Um texto da New Yorker que sugeri, sobre arquitetura na China, foi traduzido pela Piauí . Claro que, nesse último caso, eles podem ter lido diretamente na revista, mas não importa. Outros puderam ler, de graça, no original.
IMPRENSA - Como vê o cenário de blogs no Brasil? Qual sua opinião a respeito das informações que são veiculadas nas páginas pessoais?
Ricardo - Bom, tem gente mais capacitada do que eu para opinar, já que não sou um estudioso do assunto. O que sei é que o que vale para a os jornais e revistas impressas vale também para os blogs e colunistas online: os leitores sempre voltam quando encontram informações relevantes ou um texto que lhes diga algo. Quando não encontram mais, abandonam. Eu faço isso. Mudo minha lista de visitas diárias conforme vou descortinando outras opções e me decepcionando com algumas antigas. Uma amiga jornalista, certa vez, fez uma observação interessante: na opinião dela, esse negócio de blog virou uma ferramenta fácil para as pessoas exercitarem seus pequenos poderes, todo mundo muito cheio de opinião, teorias e idéias geniais. Eu, assim como ela, gosto mais de blogs que me levem a lugares que eu não conheço. Se fizerem isso com sucesso e diariamente, ganharão meus cliques, com certeza.






