Pauta água deixa de ser “primo pobre” na mídia diante de crise no Cantareira

Os alertas vinham em conta-gotas. Até que, em 2003, a mensagem foi curta e grossa: “São Paulo só atende demanda por água até 2010”, manchetava a Folha de S.

Atualizado em 04/03/2015 às 13:03, por Gabriela Ferigato e Jéssica Oliveira.

Talvez pela mania do “deixa o amanhã para depois”, aos poucos, a previsão catastrófica foi caindo no esquecimento. O amanhã, conhecido como 2014, chegou. Desde então, a crise hídrica ganhou atenção total da mídia.


Por ora, ainda não chegamos ao cenário pintado pelo escritor Ignácio de Loyola Brandão, em 1981, quando escreveu “Não Verás País Nenhum”. Nesse futuro sombrio, em que quase tudo é artificial e acessível mediante um severo racionamento, a água, feita a partir da urina dos cidadãos, passou a ser disputada como ouro, transformando as pessoas.


Saindo da ficção, a crise hídrica na região Sudeste parece já estar mexendo com a cabeça da população. No começo de fevereiro, uma enfermeira de 40 anos, moradora de Araçatuba (SP), quase foi atropelada enquanto lavava a calçada de sua casa. A motorista alegou que ela estaria “acabando com a água do mundo”. Talvez um pote de ouro não causasse tal reação.


Crédito:Divulgação Claudia Dianni éassessora de comunicação social da Agência Nacional de Águas

Em setembro do ano passado, diversos veículos anunciavam que o Sistema Cantareira havia atingido 8,1%, menor índice já registrado em São Paulo. Foi apenas o estopim para uma “enxurrada” de números, previsões e análises. André Trigueiro, editor-chefe do programa “Cidades e Soluções”, da Globo News, acompanha o tema sustentabilidade há 23 anos. Uma série especial sobre água, gravada em 2003, já denunciava a escassez e os problemas enfrentados atualmente.

“A imprensa precisa cobrir o factual, somos um pouco reféns do que é notícia hoje. Quando a gente se restringe apenas ao factual, perdemos de vista assuntos que podem não ter apelo de notícia, mas que não deveriam estar ausentes do noticiário. Se não estivéssemos com os reservatórios vazios e sem chuva, o tema da água não seria considerado notícia? Não precisa ter falta de chuva ou reservatório vazio para entender isso”, opina Trigueiro.

Crédito:Arquivo Pessoal Fábio Leite é repórter de O Estado de S. Paulo
A média mensal de inserções em matérias citando a Agência Nacional de Águas (ANA) mostra que um reservatório vazio chama, sim, atenção da mídia. Esse número saltou de 43, em 2008, para 874, em 2014. Ao todo, foram 10.497 citações ao longo do ano. Em relação a demandas de jornalistas, saltou de 262, em 2013, para 1.424, em 2014.

“Nunca tivemos uma inserção muito forte na mídia, porque a ANA tem uma característica diferente das outras agências. Ela não regula um serviço, e, sim, um bem público. Com a crise, o Brasil ficou sabendo de sua existência. Ninguém queria que faltasse água, mas o ganho foi que as pessoas tiveram oportunidade de conhecer como é feita a gestão de recursos hídricos no país”, afirma Cláudia Dianni, assessora de comunicação social da ANA.


Segundo ela, por uma questão de tradição, a cobertura de meio ambiente deixou a água de escanteio, talvez pela falsa percepção de abundância. “Os veículos demitiram setoristas de meio ambiente e, quando havia, a água era o primo pobre. O foco era floresta, efeito estufa etc. Agora caímos na real, como sociedade, ao perceber que ela cai do céu, mas não cai igual em todo lugar”, destaca Cláudia.


Senhores águas

Ainda assim, alguns jornalistas mergulharam de cabeça, com o perdão do trocadilho, no assunto. Basta jogar o nome de Fábio Leite, do O Estado de S. Paulo, junto com a palavra “água” no Google que fica provado que o repórter é perito no assunto. Há pouco mais de um ano, o profissional se debruçou totalmente no tema. Aprendeu a ler relatórios, análises técnicas, decorou as agendas e se aproximou das fontes.


Crédito:Odervan Santiago André Trigueiro é editor-chefe do programa "Cidades e Soluções"

“Nem todo mundo teve o tempo que eu tive de cobrir, por um ano, o assunto diariamente. Vejo várias matérias de algo que parece uma baita novidade e foi anunciado três semanas antes. Não acumularam um conhecimento mínimo. É difícil entender o processo. Quando começamos a compreender como funciona, e desde quando tem o déficit, se desconstrói o discurso do governo”, diz Leite.

De acordo com o geólogo Pedro Luiz Côrtes, pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) e Universidade Nove de Julho (Uninove) na área de meio ambiente e sustentabilidade, o governo peca por falta de comunicação social para a população, deixando a imprensa como a única fonte de informação. Porém, segundo o especialista, as pessoas têm ouvido a mídia, mas ainda acreditam e seguem as declarações oficiais. Ou seja, se o governo diz: “Fiquem tranquilos, a população fica”.


“Eu vejo a cobertura de uma maneira muito positiva, não só de forma informativa, mas didática. O governo precisa vir a público, falar quais são seus planos, quais as alternativas. Não há uma clareza. Os diversos veículos têm se empenhado em explorar diferentes aspectos da crise hídrica, inclusive com matérias no sentido de propor simulações, consultando especialistas de várias áreas”, destaca.


O Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS) e o Programa de Ciência Ambiental do Instituto de Energia e Ambiente da USP (Procam- IEE/USP) coletaram, entre 31 de janeiro e 15 de outubro de 2014, informações de 196 matérias dos jornais Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo e O Globo. Os dados mostraram que o governo aparece como personagem central da crise, com 77% das menções, enquanto a estiagem aparece em 72% de citações.


Para Leite, a falta de transparência do governo e da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) é uma reclamação constante, vista principalmente ao longo do ano passado, devido ao período eleitoral. “É um serviço de proteção à imagem da companhia e de não fornecer dados que o jornalista demanda. Desde agosto, estou pedindo, por meio da Lei de Acesso à Informação, os contratos de empresas que mais consomem água. Não me responderam”, ressalta.


Choveu, passou

Mateus Parreiras, do Estado de Minas , acompanha o tema há mais de dez anos e desde que ingressou no veículo, há cinco anos, faz questão de não deixar a pautar morrer. De acordo com ele, o desafio é trazer o drama das pessoas o tempo inteiro e um modo de como resolvê-los. Segundo o jornalista, em Minas Gerais já tem racionamento oficialmente em sessenta cidades e problemas de abastecimento em 220.


Crédito:Arquivo Pessoal Pedro Luiz Côrtes é geólogo e pesquisador na área de meio ambiente

“Os veículos de imprensa dependem de ser variados na cobertura. Começou a chover, começou a pensar em outras coisas: carnaval, campeonatos regionais... De certa forma, o tema vai sumir do noticiário, mas muita gente vai absolver esse alerta. Eu não vejo como fugir disso. Vai piorar a situação. O ano de 2015 vai ser um divisor, não digo de águas”, afirma Parreiras.

Para Cláudia, da ANA, ainda há muito a ser explorado pela imprensa, como informações sobre a atual legislação da água (o que diz a lei; como é feita a gestão; tributação; forma de regular e modelos do exterior) e artigos sobre os planos de bacias hidrográficas. “Os veículos ficam na dependência do ‘declaratório’. E, às vezes, não ter uma informação já é notícia. Os jornalistas desistem rápido da pauta. Isso empobrece, os fatos são mais importantes do que a declaração. As matérias de fôlego vão desaparecendo”, opina Claudia.


Eduardo Geraque, repórter da Folha de S.Paulo, biólogo e doutor em jornalismo ambiental, afirma que os jornais estão cobrindo mais de perto a crise do que as TVs e as rádios. Segundo ele, nem sempre é viável, mas, na medida do possível, os principais veículos estão saindo das fontes oficiais e dos especialistas que também estão ligados a empresas como a Sabesp para tentar abordar o tópico com mais profundidade e de uma forma sistêmica.


“A novidade dessa cobertura é tentar mostrar que a política, a sociedade, a economia e a cultura estão interligadas com a questão ambiental. Os jornalistas precisam, antes de qualquer coisa, fiscalizar se todos os agentes responsáveis pelo gerenciamento da crise estão cumprindo o seu papel. E, segundo, mostrar os desdobramentos desse fato. Claro que reportagens que mostram como poupar e conservar água, em termos individuais, são bem-vindas, mas não é isso que vai resolver o problema.”


Em alguns momentos a imprensa foi acusada de ser exagerada e dramática ao reportar a crise. Mesmo antes da Copa do Mundo de 2014, Fabio Leite vinha noticiando, por meio da leitura de relatórios, que ia faltar água durante o evento esportivo. “Me acusaram de ser alarmista, de querer causar o pânico. Não deu outra: a água do volume útil acabou ainda quando estava rolando o Mundial. Sempre quiseram negar a dimensão da crise”, afirma. Em contrapartida, Trigueiro acredita que, assim como há setores da imprensa responsáveis e que fazem uma crítica embasada e calibrada, há outros que resvalam no sensacionalismo, quando tentam vender jornal, revista e ter audiência, veiculando ou transmitindo informações que causam pânico.


“Há uma ética jornalística que deveria nos colocar numa posição onde precisamos ser responsáveis, não só pelas informações, mas pelo modo como nós as transmitimos. Todos nós precisamos tomar providências e temos algo a mudar no dia a dia. Viver com menos água não é apenas possível, mas absolutamente necessário. E a gente pode dizer tudo isso sem incitar as pessoas a disputarem a tapa galões de água. É preciso ter muito discernimento, responsabilidade e cuidado no tom para reportar essa crise”, explica.


Em entrevista à IMPRENSA em 2014, Brandão disse que quando lançou “Não Verás País Nenhum”, pensou que ninguém leria a obra. Na época, início da década de 1980, lembra que não havia muita preocupação com questões ambientais e a discussão era restrita. Curiosamente, o livro acabou sendo o mais vendido, traduzido e premiado de sua carreira. “As pessoas perguntavam: ‘Como você foi profético?’. Eu não fui profético! Eu lia e olhava em volta e via as coisas acontecendo. A realidade foi a inspiração. Eu leio há anos. Sempre fui repórter, jornalista. Pensava: talvez o petróleo não falte, mas a água vai faltar.”