Paulo Henrique Amorim: o que é isso, companheiro?

Paulo Henrique Amorim: o que é isso, companheiro?

Atualizado em 20/02/2008 às 13:02, por Pedro Venceslau.

Desde domingo não me sai da cabeça a célebre máxima do pensador espanhol Ortega Y Gasset: "um homem é a sua circunstância". Difícil entender qual foi a circunstância que levou Paulo Henrique Amorim a emprestar seu prestígio e credibilidade para a Igreja Universal na apresentação do último "Domingo Espetacular", na Record. Coube a ele o papel de dar o clima e introduzir a matéria, apoiado por uma trilha sonora no melhor estilo "Aqui e Agora". O experiente repórter Afonso Mônaco (ex - Band) cuidou do resto. Foi ele quem produziu e apresentou a interminável "reportagem" de 14 minutos. Um verdadeiro clássico do jornalismo marrom. Foi especialmente chocante o momento em que uma advogada da IURD (Igreja Universal do Reino de Deus) afirmou que, com base na Lei de Imprensa (esse entulho), a jornalista Elvira Lobato, autora da reportagem da Folha que despertou a ira de Edir Macedo, podia pegar "de 3 a 6 meses de prisão".

Na tarde desta terça-feira (19), estive com Elvira Lobato na sede da Folha , em São Paulo, onde conversamos longamente sobre o episódio. Ela aceitou falar, mas não quis ser fotografada. Teme que a exposição da sua imagem estimule retaliações violentas dos fiéis da IURD. Quando perguntei sobre a reação dela quando viu Paulo Henrique Amorim apresentando a reportagem, a resposta foi dura: "Olha, isso é uma coisa mais emocional minha. Há momentos na vida de uma pessoa em que ela faz coisas que não concorda. Pode ser por necessidade de dinheiro, para pagar o tratamento de um filho que está no hospital. Existem coisas que justificam... Enfim, o tom da matéria não está à altura daqueles profissionais. O que aconteceu? Eles é que têm que explicar. Se fizeram isso por uma questão de sobrevivência, durmam tranqüilos porque eu os perdôo. Mas se não for isso, não consigo perdoar. Colocar meu rosto daquela maneira... Quem trabalha em jornalismo sabe quem eu sou. Tenho 35 anos de trabalho como repórter".

Desde que saiu da Globo, Paulo Henrique Amorim se converteu em um cristão novo da esquerda brasileira. Nos últimos tempos, seu esporte predileto tem sido bater na Globo, defender o governo e detonar o PIG (Partido da Imprensa Golpista), sempre através de seu blog, o "Conversa Afiada", hospedado no IG. Amorim sempre foi um jornalista acessível, destes que mantêm o celular ligado. Nos últimos dias, porém, só caixa postal. Em seu blog, não encontrei uma citação, justificativa ou explicação sobre a violenta reportagem da Record contra a Folha e O Globo , que expôs Elvira Lobato à execração pública dos fiéis e estimulou o tsunami jurídico para intimidar o jornal.

Dia desses, li um artigo do Nelson Motta na Folha em que coloca a blogosfera brasileira no divã: "Quanto mais diferentes querem ser (os blogs), mais parecidos se tornam em sua intolerância, ignorância e má - fé. (...). Ninguém defende as suas causas, programas e ideologias, parece que o mundo da política está dividido entre petistas e tucanos".

Na mosca. Chega a ser constrangedor o silêncio da neo - esquerda blogosférica e dos vestais da ética em relação aos ataques frontais da Universal contra a imprensa, em especial contra Elvira Lobato. É como se todos os velhos clichês fossem tirados dos baús ao mesmo tempo: "os fins justificam os meios", "os inimigos dos meus inimigos são meus amigos", "olho por olho, dente por dente", "vale tudo contra a imprensa burguesa".

Por fim, chama atenção o aparelhamento cada vez mais escancarado da Record pela IURD. Esse movimento começou discreto, no final de 2005, quando os bispos despacharam Boris Casoy, Luiz Gonzaga Mineiro e Salete Lemos, e colocaram no lugar uma turma de globais comandada pelo jovem e desconhecido Douglas Tavolaro.

Ano passado, esta IMPRENSA foi a única publicação brasileira que noticiou o proselitismo da emissora durante as reportagens que condenaram a introdução do ensino religioso obrigatório na grade curricular das escolas brasileiras. Onde? No mesmo "Domingo Espetacular". Especulo que a IURD sente-se segura, hoje, em termos de audiência e influência, para agira desta maneira. Trata-se de uma aposta arriscada. Não foi fácil para Record quebrar o ranço do mercado e convencer os anunciantes de que a emissora é independente, e não um púlpito eletrônico.