Paulo Caruso: Um Bem-Humorado Incorrigível
Paulo Caruso: Um Bem-Humorado Incorrigível
Um dos maiores cartunistas brasileiros e colunista na revista IMPRENSA, Caruso fala sobre suas paixões: desenho, música e humor
Como você descobriu que queria ser desenhista?
Desde os dois anos de idade desenhava e o processo do cartunista é que ele não pára de desenhar. Enquanto todo mundo cresce e vai fazer coisas mais sérias, vamos fazendo aquilo que era brincadeira e daí acabamos extraindo uma profissão. Então comecei com 4 anos, tem uns desenhos guardados até hoje carinhosamente pela minha avó, era essa a linguagem narrativa dos quadrinhos. Então é isso, sempre fui aficionado por desenho, por caricatura.
O seu irmão gêmeo, Chico Caruso, disse que você gosta de desenhar mais no sentido físico, de compor um cenário e ele de desenhar o mocinho e bandido. Qual a diferença entre vocês dois?
As diferenças estão todas dentro das semelhanças. Para quem nos conhece fica fácil distinguir, para quem não conhece é praticamente impossível, porque o meu temperamento, nível de voz, o estilo de desenho é muito próximo. Mas tem essas diferenças mais marcadas: eu sou um cara mais prolixo, ele é mais conciso, eu sou mais envolvente, ele é mais seco.
Como foi o início da sua carreira?
Eu comecei a fazer free-lance com 16 anos para uma revista de economia chamada "Mundo Econômico". Depois em 1969 comecei a trabalhar no "Diário Popular". O Chico trabalhava na "Folha da Tarde", soube de uma vaga e acabou me levando para lá. A partir daí comecei a publicar nos jornais e na "IstoÉ" entrei em 1981 quando o Tarso de Castro me chamou para fazer a revista "Careta".
Como é o seu processo de criação? Tem um horário melhor para trabalhar?
Para cada veículo você tem uma personalidade, tem uma maneira e um processo de fazer o seu trabalho, no caso do jornal diário eu tenho um deadline que é até às sete horas da noite eu tenho de mandar um desenho, a partir das 4 horas ter um desenho definido para começar a finalizar. Na "IstoÉ" eu fecho na segunda ou na terça-feira para sair no sábado. Eu trabalho com um tempo de duas semanas e essa piada tem de sobreviver e freqüentemente eu erro, mas depois de 25 anos você tem até uma prática premonitória do que vai acontecer. Eu deixei um desenho pronto, fui viajar e coincidiu com o escândalo de Waldomiro Diniz. Naquela semana tinha aparecido um jacaré que pintou no lago sul e eu fiz uma enchente na porta do Bar Brasil e coloquei: "Zé Dirceu, é para você, é seu amigo, e coloquei um jacaré enorme." Muitas vezes acabamos sendo beneficiados pela sorte. E pela sensibilidade.
Tem algum desenhista que foi inspiração para você?
Tem vários, quando éramos crianças, com 4 anos, via muito gibis e quadrinhos, Walt Disney, Bolinha e Luluzinha, desenhos da televisão e do cinema, Hannah Barbera, seriados de domingo como Tom & Jerry, aí depois quando ficamos mais adolescentes começou a pintar o "MAD" que fazia as sátiras do cinema com caricaturas parodiando os roteiros e enredos com personagens. Essa linha marcou muito o meu trabalho e do Chico. Ficamos encantados com isso e imitávamos. Quando éramos jovens, na faixa dos 20 anos de idade foi quando "O Pasquim" começou a ser o grande paradigma do humor no Brasil e no mundo. E o meu ídolo passou a ser o Ziraldo, eu o imitava desesperadamente e de tanto imitá-lo, acabei virando eu mesmo.
Surgiu uma boa safra dos salões de Piracicaba?
Os salões acabaram sendo bons para o país porque a imprensa entrou em uma crise terrível, o mercado de trabalho era restrito e representam não só os artistas nacionais, mas os internacionais também, uma visibilidade e uma projeção que todo mundo vai atrás. Eu participei de vários salões, em Portugal, na França, nos salões do Brasil e vejo que isso é um mercado alternativo de trabalho, ganhou um peso que transcende o papel do humor que praticamos na imprensa. Os salões servem para isso: dão mais prestígio e visibilidade para os artistas.
Como você vê o humor em outros países?
Eu acho que o Salão de Porto, em que 80 artistas brasileiros estavam competindo, era maior a participação estrangeira de artistas brasileiros prestigiados e ganharam muitos prêmios lá fora. Os artistas internacionais que competem nos salões em geral são os mesmos: tem russo, ucraniano, é uma coisa curiosa que tem poucos dos Estados Unidos, da França, que é algo paradoxal, poucas revelações de artistas nessa atividade onde a imprensa é mais forte. Tem a correlação, quando a imprensa é fraca, os salões de humor são uma alternativa.
Como vê o cartum brasileiro em relação ao dos outros países?
O humor brasileiro é mais bem-humorado. Os cartunistas do Leste Europeu tem um humor patético, com tom de tristeza, de ternura, contra a violência e a impotência. Agora o nosso humor é o que visa a risada, se divertir, tanto os artistas que fazem, quanto os espectadores que vêem o trabalho. Acho que é um traço nosso de personalidade. Não nos levamos muito a sério, por isso podemos rir das nossas mazelas e influenciamos muito essa visão crítica do que seja certo, como Adão Iturrusgarai, que fez um desenho que era uma paródia, que "Só Cristo Salva" como salva-vidas em uma praia, então é essa coisa mais aberta e maliciosa, que é uma característica do nosso humor.
Você acha que toda forma de humor é transgressiva e provocativa?
Eu acho que é você não se conformar com a situação dada, é superação, transformação da realidade, não sei se é transgressivo ou transcendente. Rir da sua condição você acaba superando ela nem que seja por um breve instante. A minha geração foi formada em uma época da contra-cultura norte-americana que era contra o estabelecimento do modo de vida americano, impregnado pela Guerra do Vietnã, tendo o nacionalismo como bandeira. Foi uma geração crítica, que acabou sendo uma influência grande no nosso trabalho, como Robert Crumb, que fazia uma revista que era o "Zap Comics". Eles mesmo distribuíam, contra o Marcathismo, os desenhos que passassem pelo código de ética. Eram completamente livres.
O seu trabalho e do Chico tem influência de política, de comportamento, qual a sua preocupação?
Cada lugar que eu trabalho você tem uma personalidade. Eu trabalhei há pouco tempo no "Pasquim21", standard tamanho grande, que eu podia falar de qualquer coisa, a política, o comportamento, o esporte e coisas do gênero. Esse trabalho que você me trouxe é uma tira que eu publicava com outros artistas, fui fazer um trabalho de comportamento. O meu trabalho na "IstoÉ" é de política, mas também quando ocorre o Zeca Pagodinho, a briga das cervejas eu tenho como rebater isso, estar aberto para o comportamento. Então acho que para cada veículo tem um enfoque.
Como surgiu a idéia de fazer a Avenida Brasil?
Bom, começou com o Bar Brasil, na verdade que eu me inspirei no Amigo da Onça e que era um ponto fixo na revista "O Cruzeiro". Aí tinha uma reunião de pauta na revista "Careta", com Tarso de Castro, Mário Prata e João Paulo Ribeiro, em um boteco e éramos todos alcoólatras ou pré-alcoólatras e a reunião de pauta era uma farra. E era um boteco infecto, que na porta era um x-burguer com "xis" e eu comecei a rebater e disse nós precisamos fazer um lugar desse, um bar como esse, em que a oposição se encontra, que é um pouco o reflexo da realidade que a gente estava vivendo, né? Estávamos confinados a esse espaço de liberdade que era o boteco da esquina. Aí como tem esse apelo, a política ser uma cachaça e as pessoas procurarem muito o bar como local de descontração, o Bar Brasil pegou. Eu fazia esse rebatimento da política para um botequim e na medida que chegou a abertura eu percebi que esse botequim era do passado, era uma espécie de quitanda, fazia parte de uma rua do interior, não era de Brasília, dos palácios, é um rebatimento da política que se pratica nos palácios de Brasília para uma cidadezinha do interior em que a gente sofre a política que se pratica em Brasília. Na verdade é um exercício metafórico com essa ambientação.
Como foi a experiência com "O Pasquim 21". De trazer "O Pasquim" a referência dos anos 1960, de lutar contra a ditadura para o século 21?
A primeira tentativa de reedição daquele espírito foi a revista "Bundas" e que se juntaram o Ziraldo, o Zélio, o Jaguar, o Millôr, que acreditaram no projeto e fomos fazer o lançamento no Jô Soares, foi todo mundo, todos os artistas novos, só não foi o Millôr, que é um cara mais avesso a badalação, foi uma tentativa de reaproximar esse pessoal em outro contexto, de liberdade, já não havia a censura. Isso durou um tempo aí teve uma briga, um racha, a "Bundas" rachou em duas nádegas: uma delas ficou de fora que foi o Millôr, o Jaguar, o Miguel Paiva, que entraram no projeto de " O Pasquim 21". Aí o Ziraldo com o rapaz que fazia " O Pasquim 21" começou a fazer a revista. O Jaguar, que participava de "O Pasquim", foi contra o uso do nome, não tinha porque repetir a experiência do passado. O Ziraldo se sentiu no direito de usar o nome, pois era um prestígio que ele tinha, não sei baseado em quê, mas ele teve de usar o uso da marca e em outro formato, o jornal standard. Aí eu aproveitei muito esse espaço porque foi onde eu publiquei os maiores desenhos da minha vida em qualquer jornal e vai ser difícil publicar isso em outro veículo, pois nenhum jornal vai me dar liberdade que eu tinha em "O Pasquim". Fazia páginas duplas gigantes com todo texto, fazia comentários de política e de cultura , então foi uma coisa muito interessante para mim, então essa geração brilhante dos 70, dos anos 70, que já está com 72 anos, o Millôr tem 80 anos, já deu a sua contribuição, agora é preciso que a nossa geração dê a sua contribuição, acho que a gente tem de propor novos veículos. O Ziraldo ainda está se recuperando de um cateterismo, mas já está pensando em fazer mais coisa daqui para a frente. Foi uma geração brilhante que transformou o país. Ajudou a transformar o país.
Como vocês tiveram a idéia de fazer o Conjunto Nacional?
Isso foi em 1985, no Salão de Piracicaba e o Miguel Paiva era presidente e ele convidou o pessoal que gostava de música para se apresentar. Lá fizemos o Muda Brasil Tancredo Jazz Band, logo depois da morte do Tancredo, pois o lema dele no Colégio Eleitoral era Muda Brasil Tancredo Já e fizemos Muda Brasil Tancredo Jazz. Eu pensava muito nesse grupo como criação coletiva, que acabou não ocorrendo, ficou muito nas minhas costas de fazer os arranjos, fazer os projetos e depois o Chico foi entrando e criando eu também tenho esse trabalho na crítica musical. Nós também fazemos a apresentação como As Torres Gêmeas, quando as torres caem, eu saio de Tim Sam e ele de Bin Laden e nós fazemos um comentário do que ocorre hoje no mundo.
Qual é a sua música preferida?
Eu gosto muito de jazz, bossa-nova e MPB, a minha formação é muito essa, as nossas composições têm muito isso, têm espaço para o improviso, para o instrumental.
Qual a canção preferido do Conjunto Nacional?
São sucessos que infelizmente apenas não ocorreram. Mas tem uma que é o 500 anos de corrupção, que é atualíssima até hoje, fiz uma música do Lula com o jornalista, "Deu no New York Times ", que é o comentário sobre essa situação e a comparação da boemia do Lula com a abstinência do Bush. Quem faz mais estrago no mundo? Temos em torno de 100 canções.
Queria saber, vocês estão com um novo CD?
Tem o "La Nave Va" e esse: "Pra seu Governo". Agora estamos com um material para um terceiro CD, mas não tem nada ainda previsto não, até o fim do ano.
O que você acha particularmente do governo Lula?
Eu acho que ele está nessa camisa de força que o PSDB construiu e está pagando esse preço, se eles não derem essa virada logo, vão ser sacrificados com a volta do Fernando Henrique, que pelo jeito vai voltar com tudo aí.
Qual o período que você considerou mais fértil: o dos militares, de Collor, de Fernando Henrique ou de Lula para o cartum?
São momentos diferentes. O período do Figueiredo que foi da abertura e da pré-abertura praticamente foi muito rico porque a gente acreditava que a transformação estava próxima, do ponto de vista do crescimento do país, foi nesse momento que eu comecei a desenhar, a compor, a fazer tudo, nessa abertura. Depois teve a frustração com Tancredo que nem tomou posse, faleceu, a aliança do Tancredo com Sarney, aquela passagem interminável que nunca teve mudança e com Collor, outra frustração que tivemos. Mas foi um período muito rico, porque foi uma crise tamanha, ele se devastando publicamente, abrindo flancos, não fazendo alianças, o impeachment, foi uma história riquíssima. A história brasileira mostrou que com a abertura sempre foi muito prolixa, não houve essa harmonia que se esperava antes do golpe militar. Antes já era uma bagunça, teve Jânio, várias tentativas de golpe. O processo da democracia é instável. Estamos vivendo um período rico de total liberdade com essa situação econômica, a violência nas cidades, falta de distribuição de renda, mas em um contexto de total liberdade, que é muito rico para a gente. Não é essa mentalidade de quanto pior melhor. Gostamos de praticar e viver a liberdade.
As épocas que tiveram mais crise e sofreram com a ditadura foram aquelas em que os artistas tinham mais componentes para criar?
O sucesso de "O Pasquim" se deve a ele ser uma bandeira de liberdade no meio da opressão toda. Todos os grandes jornais estavam censurados e isso fez com que ele crescesse muito, mas não quer dizer que o humor precisa disso para crescer. A imprensa cresceu muito nesse período de conscientização política, depois houve uma crise econômica que sacrificou, as pessoas não têm dinheiro para comprar jornal, os salários não estão sendo pagos, os jornais e revistas estão atrasando os pagamentos, está uma crise brava mesmo e isso nos afeta muito. Hoje não temos a mesma visibilidade que tem o Casseta & Planeta, são os caras que estão falando para o Brasil, estão fazendo o humor no momento. O Chico, meu irmão na Globo, fazendo as charges para o "Jornal Nacional", tem um alcance, que a imprensa não ousa se aproximar disso. Somos um país de 180 milhões de pessoas com tiragem de 150 mil exemplares, então tem um fosso profundo entre o país e a imprensa.
O que você atribui a perda do poder de fogo da mídia impressa?
Bem, primeiro os donos de jornal começaram a editar jornal e eles não são bons nisso. Isso acaba tornando a imprensa desinteressante, pouco crítica, combativa e atraente, marcada em um contexto econômico. Hoje não existe a ditadura política e ideológica, mas a ditadura do poder econômico e do politicamente correto que vai cerceando o poder que a imprensa teria normalmente. Depois essa questão da crise, toda a imprensa e os jornais se endividaram em dólar, para montar seus parques gráficos e fazer essa passagem para a informatização, para a técnica de reprodução digital, se investiu muito nos parques gráficos. Agora está tendo a abertura do capital estrangeiro para ver se acaba tendo uma recuperação. É uma crise de proporções nunca experimentadas antes, até porque a agilidade da informação está trazendo isso, a velocidade que as pessoas não estavam habituadas.
Como foi a idéia de fazer um livro em homenagem a São Paulo, "São Paulo por Paulo Caruso"?
O meu pai nasceu em 25 de janeiro e era um dia que era o aniversário dele e eu saía para comemorar, era feriado e eu sentia que a cidade era nossa nesse período, minha e dele. Depois que ele faleceu eu comecei a fazer eventos nesse dia para lembrar dele, então no dia 25 de janeiro de 2003 eu estava tocando em um Bar, o Piratininga, onde toquei durante 26 anos e resolvi fazer uma exposição minha com desenhos sobre a cidade e como tinha a véspera de 2004 e eu pensei: agora dá para fazer alguma coisa especificamente sobre São Paulo e aí comecei a pensar e um amigo que é irmão do Tarso de Castro lançou um desafio de eu fazer um livro sobre São Paulo e o Chico sobre o Rio e eu topei, comecei a fazer os esboços, fazer os desenhos e aí para mim foi uma surpresa porque eu me revelei um autor de texto, além de desenho, crônicas da cidade, a minha vida pessoal, minha vida afetiva, sobre meu pai, minha mãe e meu avô. Fui então fazendo um resgate da cidade do ponto de vista afetivo. Que é uma novidade, porque as pessoas sempre vêem São Paulo como uma cidade desumana, cinzenta. Mas para quem vive e gosta da cidade, tem outra visão.
Quais são os seus projetos para 2004?
Eu lancei o livro de 30 anos do Salão de Piracicaba no Memorial da América Latina, em uma grande mostra com vários debates, fazer um encontro, como eu fiz em 1989, que poderia ser uma Bienal de Humor Latino-Americana, pois acho que o humor tem muito nesse contexto que estamos vivendo, de violência, de tráfico de drogas. Tem um salão de humor na Colômbia, no México, em Cuba, vários salões de humor no Brasil, poderíamos trazer aqui para trocar experiência. Uma das saídas da América Latina é a integração como a oposição da integração européia. Eu acho que é o meu projeto de longo prazo que eu tenho de tocar daqui para frente. Quero fazer uma coletânea dos meus trabalhos da "IstoÉ", de política, livros de viagens que eu quero reeditar e lançar o terceiro disco. Não estamos com apresentação marcada, mas queremos ver se podemos fazer uma temporada para gravação ao vivo, porque não tem marcado ainda, a Dabliú discos, quem sabe faça por esse selo.
O que representa o humor para você?
O humor representa a válvula de escape, a maneira de driblar a realidade, escapar do trágico por meio de outra maneira de ver, é um mecanismo de descompressão.






