Passado em branco

Passado em branco

Atualizado em 07/03/2008 às 13:03, por Marlon Maciel / Redação Revista IMPRENSA.

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Fórum promovido por ex-presos políticos de São Paulo para marcar os 39 anos do AI-5 passou em branco na grande imprensa

No dia 13 de dezembro de 2007, data que marcou os 39 anos da instituição do AI-5 - em 13 de dezembro de 1968 -, três mil ex-presos políticos e perseguidos pelo regime militar no Estado de São Paulo estiveram reunidos pela primeira vez por dois dias, na capital paulista, a fim de organizar o movimento pela busca da reparação contra os abusos cometidos à época pelo Estado. No dia seguinte, a imprensa praticamente ignorou o fórum: uma fotolegenda ocupando duas colunas no pé da página A-11, do jornal Folha de S.Paulo, foi uma das poucas, se não a única, referência ao assunto encontrada nos jornalões.

"O que a imprensa deu? Nada. Só uma foto na Folha . Queremos historicamente mostrar o que se passou, inclusive, as críticas e traições que ocorreram também no nosso meio. Criamos o fórum para unir os companheiros e colocar a história da ditadura nas mãos dos mais jovens, porque ela está escondida. No Brasil, com a abertura dos arquivos militares, vamos clarear muita coisa do movimento revolucionário e dos ditadores. Mas a classe civil não tem interesse nisso", diz o presidente do Fórum Permanente dos Ex-Presos Políticos, Raphael Martinelli, de 83 anos.

IMPRENSA teve acesso ao levantamento feito pela Ricardo Viveiros Oficina de Comunicação, responsável pela divulgação do fórum, em caráter colaborativo, sobre as informações veiculadas sobre o evento na imprensa. "O trabalho de divulgação foi feito do ponto de vista técnico, com bastante cuidado e amplitude. O resultado nos leva a entender que a Anistia acabou virando uma referência meramente histórica, o que é um grande perigo. É um engano da mídia achar que não há mais interesse no assunto", avalia o jornalista, ex-preso, exilado e torturado pelo antigo regime, Ricardo Viveiros.

Para o ex-preso político Maurice Politi, há uma forte tendência na imprensa em considerar irregular o processo que resultou na indenização às vitimas da repressão. "É tendencioso achar que anistiados são milionários, que recebem fortunas do Estado. A grande imprensa não gosta e não tem interesse em debater o assunto. Não falam e ponto." Essa opinião é compartilhada por Idibal Pivetta, advogado que ficou conhecido por defender presos políticos durante a ditadura militar: "A constatação é que toda a grande imprensa trata com descaso o assunto, como se quisesse empurrar a sujeira para debaixo do tapete e deixar um buraco negro ao longo de 20 anos na história".

Na opinião do blogueiro e jornalista Reinaldo Azevedo, têm direito às indenizações pessoas que permaneceram sob a guarda do Estado e foram maltratadas. Já quem pegou em armas contra a ditadura, sabia o peso das conseqüências e, para ele, não têm direito à nada - posicionamento defendido várias vezes em seu blog.

Um episódio recente contribuiu para macular a imagem dos ex-presos políticos que receberam indenização do Estado. Em 2007, três filhos do dramaturgo e também jornalista Nelson Rodrigues (1912-1980) - Paulo César Santos Rodrigues, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio, Maria Lúcia Rodrigues Muller e Sônia Maria Rodrigues Mota - foram condenados pela Justiça Federal no Rio de Janeiro por fraudar documentos para receber pensão do governo.

Historiador especialista em atuação militar na ditadura, o diretor em Brasília da IstoÉ, Hugo Studart, diz que o que há é um moralismo sobre o bom e o mau uso do dinheiro público. "É um ranço da UDN herdado pelo petismo. O bom jornalista vê quando há indenizações milionárias a pessoas que não levaram nem um peteleco na orelha da ditadura, o que é um absurdo. Não acredito em viés preconceituoso contra a esquerda. Pelo contrário. Quando o coronel do Exército [Carlos Alberto Brilhante] Ulstra lançou seu livro ["A Verdade Sufocada"] a imprensa boicotou. Quando o araponga uruguaio disse que participou de complô contra Jango, a imprensa deu destaque sem checar", avalia o autor de "A Lei da Selva".

Ex-militante da Ação Libertadora Nacional, o economista Paulo de Tarso Venceslau acrescenta que as notícias na imprensa sobre abusos do Estado são antigas. "Isso levou a ditadura a assumir o controle da imprensa a ponto do Estadão publicar receitas e sonetos. O Estado passa a ser considerado culpado num primeiro momento com a anistia. E algumas pessoas se beneficiaram disso. O Paulo Rodrigues, por exemplo, filho de Nelson Rodrigues, não sofreu e recebeu indenização altíssima, alegando ter perdido o emprego por causa de perseguições. Argumento imbecil que foi acatado, e virou um paradigma absurdo. Isso desperta a critica exacerbada".