"Para mim, não tem cabimento ouvir rádio no computador", afirma a jornalista Vera Lúcia Gertel

"Para mim, não tem cabimento ouvir rádio no computador", afirma a jornalista Vera Lúcia Gertel

Atualizado em 07/07/2008 às 14:07, por Érika Valois/Redação Portal IMPRENSA.

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Jornalista especializada em rádio, Vera Lúcia Gertel, 58, atuou como repórter de 1973 a 2004 nas rádios Jovem Pan, Bandeirantes e Eldorado. Vencedora de prêmios como Vladimir Herzog e Libero Badaró, ela vivenciou de perto momentos históricos do país como o ressurgimento do sindicalismo no ABC paulista, a campanha pelas Diretas e a Copa do Mundo de 1994.

Jornalista à moda antiga, Vera afirma não ser fã do universo online e diz que, se for para escutar rádio, ela usa o aparelho de som pois, para ela, não faz sentido ouvir rádio na internet. Mesmo distante do mundo virtual, ela reconhece as vantagens da web como a interatividade que permite, por exemplo, o debate em tempo real, o que ela considera "maravilhoso".

Depois de quase trinta anos de reportagens em rádio, a jornalista deixou as grandes emissoras e hoje repassa seus conhecimentos aos alunos de radiojornalismo da Faculdade Cásper Líbero, além de atuar em uma empresa que presta serviços de comunicação.

Portal IMPRENSA - Que reportagem de rádio você destacaria em sua carreira?

Vera Lúcia - Foram tantas as reportagens...séries especiais sobre crianças que vivem nas ruas, a Copa do Mundo de 94, entrevistas com personalidades como Jorge Amado, Érico Veríssimo e Chico Buarque. Todas foram marcantes por um ou outro motivo. Conhecer as maravilhas do Rio São Francisco, por exemplo, foi mágico. Povo simples, mas rico em sabedoria. Lá, conheci uma figura interessante: um homem que criava poesias. Como ele era analfabeto, pedia para alguém da família escrever os textos na parede da sala da casa dele. Uma casa, humilde, um cômodo vazio, mas com poesia na parede.

Portal IMPRENSA - Como você avalia o fazer jornalístico em rádio hoje em dia? É mais fácil ou mais difícil do que antigamente?

Vera Lúcia - Certamente fazer jornalismo em rádio hoje está muito mais fácil. O telefone celular revolucionou a reportagem em rádio. Com o surgimento do sindicalismo do Lula, um líder super carismático, tivemos muito trabalho para acompanhá-lo. Durante a Assembléia dos Metarlúgicos, no início da década de 80, o Lula estava discursando para centenas de pessoa quando, de repente, o exército começou a sobrevoar a assembléia em helicópteros com as metralhadoras apontadas - era proibido fazer manifestações desse tipo durante a ditadura - o Lula pedia calma e dizia que nada iria acontecer. Se eu estivesse com um celular, entrava ao vivo na hora. Mas era uma dificuldade... a única coisa que eu tinha era um gravador, o que já era muito. Corri pro sindicato e só consegui entrar ao vivo do telefone de lá. Nessa época era bem mais complicado; tínhamos que correr atrás de orelhões ou sair na cara de pau pedindo para usar o telefone da casa dos outros. Eu já fiz isso inúmeras vezes.

Portal IMPRENSA - Em maio deste ano, a Globo News deu a notícia equivocada de que um avião teria caído na Zona Sul de São Paulo, o que deixou a imprensa paulista numa situação delicada já que vários sites copiaram a informação e divulgaram o acidente que não existiu. Se essa mesma notícia tivesse sido veiculada apenas pelas rádios você acha que teria tido a mesma repercussão?

Vera Lúcia - Não sei se teria o mesmo impacto porque a notícia foi dada pela Globo, além do mais, ainda estávamos abalados pelo último acidente de avião. Acho que se o fato fosse noticiado apenas pelas rádios acredito que não causaria tanto impacto, mas sim um frisson. Milhares de pessoas escutam rádio, mas logo o equívoco seria esclarecido, como aconteceu com a TV. Hoje em dia, com a diversidade dos meios de comunicação, notícias como essa caem por terra rapidinho.

Portal IMPRENSA - Com o advento da tv e da internet muitos acharam que o rádio "morreria". Como você enxerga isso?

Vera Lúcia - Na minha avaliação o rádio não morre tão cedo. É só acompanhar os investimentos no setor; sinto o rádio sempre muito forte, perdeu espaço publicitário para a TV, principlamente, mas ainda tem seu espaço. É só fazer bem feito que tem lugar para todos.

Portal IMPRENSA - Você é professora universitária de radiojornalismo. O que diferencia uma rádio universitária das demais rádios?

Vera Lúcia - A Rádio Universitária permite experimentos que uma emissora comercial não permite, mas tentamos ensinar os alunos dentro dos parâmetros de uma emissora normal, já que é lá que eles vão eventualmente trabalhar. A diferença é que damos um pouco mais de liberdade, deixamos brincar, fluir a imaginação.

Portal IMPRENSA - Qual é a definição do rádio como veículo, na sua opinião? A quem ele atende? Proriza alguma classe social?

Vera Lúcia - Nunca imaginei o rádio com esse foco. Sempre imaginei o veículo como uma coisa mais universal, atendendo a vários públicos. Talvez uma emissora jornalística mais sofisticada da região sudeste, por exemplo, não alcance o público da floresta no interior do Acre. Mas a emissora local vai falar direto com esse público. E eu acredito muito nessa regionalização da informação.

Portal IMPRENSA - Como você avalia o surgimento do webrádio?

Vera Lúcia - Acho que a webrádio é mais um segmento. Da mesma forma que a emissora de uma cidade do interior fala diretamente para aquela população, a webrádio fala para o consumidor que fica mais ligado na internet. Eu, por exemplo,em situações normais vou ouvir rádio no aparelho de rádio, não no computador.

Portal IMPRENSA - Você não é muito adepta à internet, mas você acha que a web trouxe vantagens para o rádio?

Vera Lúcia - Não sou muito fã mesmo não. Uso internet para trabalhar. Para mim, não tem cabimento ouvir rádio no computador, eu uso sempre o meu som; no carro, por exemplo, ouço rádio direto. Mas é claro que a rede trouxe vantagens para o rádio. Hoje um comentarista da Itália pode debater um assunto (em tempo real) com um comentarista do Brasil. Isso é maravilhoso!

Portal IMPRENSA - Apesar de ter trabalhado quase três décadas em rádio hoje você trabalha numa empresa que presta serviços de comunicação. O que causou essa mudança?

Vera - Há quatro anos trabalho com auditoria de imagem. A mudança foi casual, nada programado e aconteceu sem traumas, como se naturalmente a vida caminhasse para essa "virada de página". Do tempo de reportagens sinto saudade principalmente de viajar por esse Brasil afora me encantando com os vários cantos desconhecidos "deste país", conhecendo pessoas simples e adoráveis, sempre com boas histórias para contar.

Crédito da foto: Tereza Maciel