Para Marcelo PPanighél, caricaturistas são reconhecidos, porém não são respeitados

Para Marcelo PPanighél, caricaturistas são reconhecidos, porém não são respeitados

Atualizado em 14/11/2008 às 18:11, por Érika Valois/ Redação Portal IMPRENSA.

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A paixão de Marcelo PPanighél pelo desenho se confunde com sua própria história de vida, por isso, ele considera desenhar tão natural quanto falar. Aliás, diferentemente de qualquer criança, cujas primeiras palavras pronunciadas são "papai" ou "mamãe", os primeiros dizeres dele foram os nomes das cores "zul" e "arelo".

Os pais de Marcelo sempre o incentivaram a rabiscar. O fato de ser o filho mais velho e de não precisar dividir a atenção dos pais com ninguém, também colaborou para que ele desenvolvesse seu talento desde cedo. "Meus pais, sem dúvida, me estimularam. Não tinha amigos ou irmãos. Gostava de desenhar. Lembro-me na infância, com muitos lápis de cores e canetinhas, desenhos em guardanapos, agenda de telefone, livros revistas, parede, cadernos...".

Apesar de detestar competições, o caricaturista contou que, no ano de 1983, os pais "o enfiaram" no concurso de desenho livre do CERET (Centro Educativo, Recreativo e Esportivo do Trabalhador), competição da qual saiu vitorioso aos três anos de idade. "A idade para participar era de até dez anos. Lembro que fiz o palhaço Bozo. Após uma semana chegou uma carta em minha casa pedindo que meus pais me levassem até o Centro. Chegando lá, para a surpresa deles, viram que eu tinha apenas três anos. Tive que redesenhar na frente do júri para provar que eu que tinha feito aquilo... acabei ganhando e o desenho ficou exposto por lá até 2002", recorda Marcelo, divertindo-se.

Apesar do talento para o traço, o caricaturista só decidiu escolher o desenho como profissão depois de um mal entendido na empresa bancária em que trabalhava, a "Caos Center", como ele chama. "Depois de três anos por lá, fiz a caricatura de uma supervisora. Após muitas gargalhadas dos amigos de trabalho, fui chamado pelo meu supervisor, que me repreendeu querendo que eu fosse pedir desculpas para a 'vitima', que em meu ponto de vista era a 'homenageada'". Marcelo se recusou a fazer a retratação e perguntou ao supervisor como seria se "todo caricaturista de jornal tivesse que mandar um e-mail de desculpas para os seus modelos?".

Depois de ouvir "ai é que está, você não é um caricaturista, você é um atendente!", ele resolveu mudar de vida. "Aquilo doeu. Passou um filme na minha cabeça e retruquei: 'Não amigo, eu não sou atendente, eu sou um caricaturista!'". Depois disso, Marcelo foi demitido.

Fora do Banco, ele passou a se dedicar àquilo que realmente gostava de fazer: desenhar. Com o aumento da demanda de clientes, ele se viu impossibilitado de atender a todos os eventos e encomendas e criou o projeto , que além de atender em dois kioskes de shoppings na capital paulista, oferece serviço de caricaturas online.

Neste ano, para a surpresa dele, sem saber, a mesma instituição financeira contratou sua empresa para fazer alguns eventos. "Foi muito bom ver a cara de todos que me conheceram. Depois de cinco anos, o supervisor me perguntou o que eu estava fazendo por lá...aí pude responder com muita alegria e orgulho: 'Vim terminar o que deixei pela metade...desenhar o departamento inteiro!'". Segundo o caricaturista, o reencontro rendeu boas risadas e ano que vem mais um encontro está garantido.

Apesar de não gostar de salões de humor por considerar premiações "fúteis e levianas", pois, para ele, "é como decidir quem é o melhor cantor, depende de quem ouve", Marcelo é a favor das exposições que permitem "divulgar, fazer amigos, estudar e absorver referencias para crescimento e maturação profissional".

O desenhista acredita que as caricaturas são tão requisitadas por serem inusitadas e exclusivas visto que "cada caricaturista tem um traço e uma percepção ou maneira de ver as pessoas de um modo diferente".

Para ele, trabalhos nessa área costumam ser reconhecidos, porém "não muito respeitados". "Já vi caricaturistas fazendo eventos de 8h ou até mais, sem comer e desenhando em pé! Jamais submeto qualquer desenhista da equipe a esta situações". Ele acredita que o mais importante é dar ao artista o merecido respeito.