Para José Nêumanne Pinto, o jornalismo dá disciplina para escrever textos literários, mas deixa vícios
Para José Nêumanne Pinto, o jornalismo dá disciplina para escrever textos literários, mas deixa vícios
Mais novo integrante da Academia Paraibana de Letras - com posse marcada para o dia 8 de setembro - o jornalista José Nêumanne Pinto começou sua carreira em 1968, e já passou por veículos como Folha de S.Paulo , Jornal do Brasil , The Miami Herald , SBT e O Estado de S. Paulo , onde é articulista até hoje.
Além disso, foi crítico de cinema e já escreveu onze livros de romance e poesia. Vencedor em 1975 do Prêmio Esso de Jornalismo Econômico pela série "Perfil do Operário Hoje", e do Troféu Imprensa de Reportagem Esportiva, pela reportagem "Éder Jofre e o Boxe Brasileiro", (ambas para o Jornal do Brasil) , Nêumanne acredita que ser escritor e jornalista traz uma dicotomia: "Ernest Hemingway dizia que todo escritor deve passar por uma redação de jornal; a atividade jornalística te disciplina para o texto literário, mas também te deixa vícios", diz.
Redação Portal IMPRENSA - O que significa para o senhor neste momento da sua carreira como escritor e jornalista se tornar membro da Academia Paraibana de Letras, na cadeira que tem como patrono o poeta Augusto dos Anjos?
José Nêumanne Pinto - A Paraíba é meu estado de origem. Participar da Academia sempre me dará possibilidade de voltar às minhas raízes e trazer a cultura paraibana para o Sul e para o Sudeste. E a literatura paraibana sempre deu uma enorme contribuição para o Brasil, com nomes como o escritor José Lins do Rego e o poeta Augusto dos Anjos, e entre os 38 menros da Academia há figuras como Ariano Suassuna. Fazer parte é uma coisa muito honrosa e prazerosa, porque é um reconhecimento da nossa terra, da minha origem, é uma conexão com meu umbigo, enterrado em um curral lá no interior da Paraíba, em Uiraúna. E ser na cadeira de Augusto dos Anjos é uma honra, tenho veneração por ele desde a infância. E seus últimos ocupantes foram Waldemar Bispo Duarte e Altimar de Alencar Pimentel, teatrólogo estudioso do folclore. Quando anunciei a porposta de me candidatar, Flávio Tavares, grande pintor, e Pedro Sabino de Farias Neto também anunciaram. A minha eleição foi por 29 votos a 3, mais importante que ter sido unânime, porque houve uma disputa. A posse será no dia 8 de setembro.
Portal IMPRENSA - Muitos repórteres do dia-a-dia tornaram-se depois escritores consagrados, como o colombiano Gabriel García Márquez. O senhor acha que a atividade jornalística diária lapida o escritor?
Nêumanne - Um escritor que admiro muito, o norte-americano Ernest Hemingway, dizia que todo escritor deve passar por uma redação de jornal. Mas para mim há uma contradição, uma dicotomia: a atividade jornalística te disciplina para o texto literário, mas também te deixa vícios. Meu amigo Luis Fabiano diz que meu livro "Veneno na Veia" foi prejudicado pela força que o texto do jornal tem em meu estilo literário.
Portal IMPRENSA - O senhor recebeu o prêmio Esso de Jornalismo Econômico, o Troféu Imprensa de Reportagem Esportiva, além de escrever romances e já ter sido crítico de cinema. Para um jornalista ser bom, é preciso ser um profissional completo e saber passar por todos os assuntos?
Nêumanne - Acho que depende de cada um. É o meu temperamento, minha formação, minha cultura que permitiu isso. Eu tenho a minha visão de mundo, e sou muito inquieto. As pessoas se espantam muito com minha capacidade de produção, mas não creio que seja fundamental. Mas sou assim, faço de tudo, e não vivo sem poesia. Uma vez fiz um discurso dizendo que o legado da Paraíba para o Brasil são os bons escritores, porque lá é muito pobre, e para a palavra só é necessário lápis e papel.
Portal IMPRENSA - O senhor tem saudades da época de repórter?
Nêumanne - Eu acho que cada fase da sua vida é uma fase. Virei comentarista e gosto dessa fase, gosto da minha atividade de articulista no jornal. E ser articulista não é dar a sua opinião, o que vale é o que você pode contribuir no momento que descobre que a população precisa de um porta-voz. Não sou um cara de ficar dando palpite, tenho a pretensão de expressar não uma opinião, mas um movimento.
Portal IMPRENSA - Conte um pouco das suas funções frente a Editora Girafa.
Nêumanne - A Girafa é uma sociedade em que a família Veronezi é a sócia capitalista e eu sou um proprietário editorial. Não entramos nessa coisa de burocracia de editoras, porque em livraria hoje não se vende livro; vende computador, jogos. Hoje você encomenda livros, virou um posto de encomenda. Nós encontramos uma saída que é o livro infantil, e eles se impõem muito pela qualidade. Eu gostaria de ter esse talento de escrever para criança. Vivo uma fase muito bonita com meu neto de seis anos, que me estimula muito a fazer esse trabalho.






