Para jornalista, mídia tradicional apoiou o golpe por medo de “novo Getúlio”
A indecisão marcava as semanas antecedentes ao golpe civil-militar que jogaria o Brasil às catacumbas da falta de liberdade por 21 anos. Nas ruas, todos questionavam: "o que está acontecendo?
Atualizado em 01/04/2014 às 16:04, por
Christh Lopes*.
". Sem perceber, a sociedade foi atingida pelo facão da ditadura. Neste contexto, o jovem jornalista Tão Gomes Pinto observava atentamente todos os passos que resultaram na tomada de poder pelas Forças Armadas.
A segunda reportagem especial sobre o envolvimento dos meios de comunicação no regime, que teve a primeira matéria veiculada (31/3), coloca em perspectiva a rotina de um repórter que iniciava sua carreira no jornalismo esportivo no Última Hora , um dos únicos veículos que defendiam o governo de João Goulart, mas acabou participando da cobertura dos fatos daquele 1º de abril no seu principal concorrente popular, o Notícias Populares.
Crédito:Alf Ribeiro Tão Gomes era repórter do "Notícias Populares" no dia do golpe
Golpe articulado
Segundo Gomes, o NP foi projetado, ainda em 1963, para ajudar na implantação da chamada "revolução" encabeçada pelos militares. Sob as mãos do deputado Herbert Levy, dono da Gazeta Mercantil, “jornal que não poderia faltar na mesa de qualquer empresário de porte de São Paulo”, nascia o Notícias Populares , cujo comando foi entregue ao romeno Jean Melle, “jornalista que tinha ódio e pavor de comunista e sabia conduzir um diário para a massa”.
Sem equipe, Melle foi buscar profissionais justamente no rival. “Trouxe Narciso Kalili, que foi redator-chefe do jornal; Sérgio Pompeu, que era assistente do redator-chefe; e Celso Brandão, responsável por esportes e que me levou para o NP ”, conta Tão Gomes.
O jornalista relata que a redação do diário ficou abalada quando foi veiculada a notícia de que o general Olímpio Mourão estava mobilizando suas tropas em Juiz de Fora (MG) rumo ao Rio de Janeiro no fatídico 31 de março de 1964. “Nós, da redação, soubemos da notícia pelo rádio e Melle ouvia atento a informação em sua sala. Foi então que ele e Herbert Levy saíram abraçados comemorando o início de 64”.
Com o sucesso dos militares na derrubada do governo, Kalili convocou todos para uma reunião e disse "a partir de agora todo mundo está cobrindo o golpe". "Na divisão de tarefas, me coube cobrir a área sindical”, conta.
Olho do furacão
Sem conhecer o tema a fundo, Tão Gomes pegou uma das peruas do diário e foi até o sindicato dos gráficos. Chegando lá, foi surpreendido por dois policiais do DOPS. “Um deles me perguntou o que eu estava fazendo ali. Então, expliquei que era repórter e que estava fazendo a cobertura da área sindical. Em seguida, ele me disse: ‘jornalismo não está com nada, passa lá no DOPS que eu te arrumo um emprego’. Ele me deu a única informação que pudera no momento: ‘No sindicato não vai acontecer nada, se você quiser ver alguma coisa, algum movimento, está acontecendo na telefônica”.
Quando chegou ao local, o repórter encontrou o fotógrafo do Diário da Noite , Nelson Gatto, e outros profissionais de imprensa que tomaram o prédio para resistir ao golpe. Na ocasião, cerca de quatro mil oficiais cercavam as proximidades. Para se proteger, ele teve de ficar na rua Marconi, em frente ao chaveiro do Ralf Zumbano, lutador de boxe e campeão brasileiro no esporte.
Nestes encontros e desencontros, o jornalista seguiu sua jornada para fazer a matéria solicitada pelo chefe. Foi até a UNE e depois até a Lapa, em um hospital militar. “Estava tudo cercado por soldados. Dentro do pátio do hospital tinha uma fila de ônibus vazios, uns trinta, quarenta ônibus da Breda Turismo. Era uma revolução feita de ônibus”.
Sem conseguir finalizar a matéria, Tão Gomes foi para sua casa e reparou algo que o deixou estremecido. “Eu via as pessoas indo para o trabalho, subindo e descendo do ônibus tranquilos, como se nada tivesse acontecido”. Já no dia 1º de abril, teve um encontro inusitado com “um cidadão na Rua São Luis que ouvia um radinho de pilha. Me aproximei e perguntei: "o que você está ouvindo?" E ele me respondeu: "estou tentando pegar uma rádio gaúcha para ver se o Brizola (ex-governador do Rio Grande do Sul) está resistindo"”.
Resistência
Sobre a resistência, Tão Gomes comparou o presidente destituído a Getúlio Vargas ao afirmar que havia medo de que Goulart tornasse o país em uma república sindicalista, por sua aproximação com a força sindical. “A cúpula do Partidão (Partido Comunista Brasileiro) que controlava os sindicatos ficou retraída, escondida, pois temiam que Jango tivesse dando um contragolpe para instalar uma república sindicalista. Detalhe: ele não comunista”.
Se por um lado havia uma indecisão no campo político, no midiático já tinha um foco e um destino. De acordo com o jornalista, a grande imprensa era contra o governo de João Goulart. “O Estadão , por exemplo, conspirava há dois anos para a derrubada do Jango. Havia até um coronel que frequentava o chamado Aquário do Estadão , onde se reuniam os editores da publicação. O empresariado, em geral, temia o possível governo sindicalista e a mídia, naturalmente, tendia ser contra os movimentos ligados ao presidente”.
Com a estabilização da ditadura, logo os profissionais de imprensa foram afetados. “Os jornais são a favor do regime e o golpe tem que pegar alguém. Assim, o Serviço Nacional de Informação começou a investigar a vida de alguns jornalistas, cuja maioria era tinha formação de esquerda", conta. Tanto é que, em certa ocasião, Roberto Marinho soltou a frase: "Cuide de seus comunistas, que eu cuido dos meus".
Para Tão Gomes, a grande mídia também foi prejudicada por fazer parte da sociedade e classifica o dano ao setor em dois pontos: na censura, que era ostensiva ou disfarçada, e no prejuízo da formação da opinião pública, que impedia a possibilidade de se saber a verdade. "Não era permitido discutir se era bom ou ruim; sabíamos da notícia e não podíamos veiculá-la. Então, o jornalista era condicionado a ficar queto e colocar algo opcional no lugar”.
“Os jornalistas não são golpistas, eles são democráticos. São contra a qualquer tipo de golpe, têm que ser. Eles sabem que o golpe trouxe censura, tragédia, e consequências negativas que até hoje sofremos”, conclui Tão Gomes Pinto.
* Com supervisão de Vanessa Gonçalves
A segunda reportagem especial sobre o envolvimento dos meios de comunicação no regime, que teve a primeira matéria veiculada (31/3), coloca em perspectiva a rotina de um repórter que iniciava sua carreira no jornalismo esportivo no Última Hora , um dos únicos veículos que defendiam o governo de João Goulart, mas acabou participando da cobertura dos fatos daquele 1º de abril no seu principal concorrente popular, o Notícias Populares.
Crédito:Alf Ribeiro Tão Gomes era repórter do "Notícias Populares" no dia do golpe
Golpe articulado
Segundo Gomes, o NP foi projetado, ainda em 1963, para ajudar na implantação da chamada "revolução" encabeçada pelos militares. Sob as mãos do deputado Herbert Levy, dono da Gazeta Mercantil, “jornal que não poderia faltar na mesa de qualquer empresário de porte de São Paulo”, nascia o Notícias Populares , cujo comando foi entregue ao romeno Jean Melle, “jornalista que tinha ódio e pavor de comunista e sabia conduzir um diário para a massa”.
Sem equipe, Melle foi buscar profissionais justamente no rival. “Trouxe Narciso Kalili, que foi redator-chefe do jornal; Sérgio Pompeu, que era assistente do redator-chefe; e Celso Brandão, responsável por esportes e que me levou para o NP ”, conta Tão Gomes.
O jornalista relata que a redação do diário ficou abalada quando foi veiculada a notícia de que o general Olímpio Mourão estava mobilizando suas tropas em Juiz de Fora (MG) rumo ao Rio de Janeiro no fatídico 31 de março de 1964. “Nós, da redação, soubemos da notícia pelo rádio e Melle ouvia atento a informação em sua sala. Foi então que ele e Herbert Levy saíram abraçados comemorando o início de 64”.
Com o sucesso dos militares na derrubada do governo, Kalili convocou todos para uma reunião e disse "a partir de agora todo mundo está cobrindo o golpe". "Na divisão de tarefas, me coube cobrir a área sindical”, conta.
Olho do furacão
Sem conhecer o tema a fundo, Tão Gomes pegou uma das peruas do diário e foi até o sindicato dos gráficos. Chegando lá, foi surpreendido por dois policiais do DOPS. “Um deles me perguntou o que eu estava fazendo ali. Então, expliquei que era repórter e que estava fazendo a cobertura da área sindical. Em seguida, ele me disse: ‘jornalismo não está com nada, passa lá no DOPS que eu te arrumo um emprego’. Ele me deu a única informação que pudera no momento: ‘No sindicato não vai acontecer nada, se você quiser ver alguma coisa, algum movimento, está acontecendo na telefônica”.
Quando chegou ao local, o repórter encontrou o fotógrafo do Diário da Noite , Nelson Gatto, e outros profissionais de imprensa que tomaram o prédio para resistir ao golpe. Na ocasião, cerca de quatro mil oficiais cercavam as proximidades. Para se proteger, ele teve de ficar na rua Marconi, em frente ao chaveiro do Ralf Zumbano, lutador de boxe e campeão brasileiro no esporte.
Nestes encontros e desencontros, o jornalista seguiu sua jornada para fazer a matéria solicitada pelo chefe. Foi até a UNE e depois até a Lapa, em um hospital militar. “Estava tudo cercado por soldados. Dentro do pátio do hospital tinha uma fila de ônibus vazios, uns trinta, quarenta ônibus da Breda Turismo. Era uma revolução feita de ônibus”.
Sem conseguir finalizar a matéria, Tão Gomes foi para sua casa e reparou algo que o deixou estremecido. “Eu via as pessoas indo para o trabalho, subindo e descendo do ônibus tranquilos, como se nada tivesse acontecido”. Já no dia 1º de abril, teve um encontro inusitado com “um cidadão na Rua São Luis que ouvia um radinho de pilha. Me aproximei e perguntei: "o que você está ouvindo?" E ele me respondeu: "estou tentando pegar uma rádio gaúcha para ver se o Brizola (ex-governador do Rio Grande do Sul) está resistindo"”.
Resistência
Sobre a resistência, Tão Gomes comparou o presidente destituído a Getúlio Vargas ao afirmar que havia medo de que Goulart tornasse o país em uma república sindicalista, por sua aproximação com a força sindical. “A cúpula do Partidão (Partido Comunista Brasileiro) que controlava os sindicatos ficou retraída, escondida, pois temiam que Jango tivesse dando um contragolpe para instalar uma república sindicalista. Detalhe: ele não comunista”.
Se por um lado havia uma indecisão no campo político, no midiático já tinha um foco e um destino. De acordo com o jornalista, a grande imprensa era contra o governo de João Goulart. “O Estadão , por exemplo, conspirava há dois anos para a derrubada do Jango. Havia até um coronel que frequentava o chamado Aquário do Estadão , onde se reuniam os editores da publicação. O empresariado, em geral, temia o possível governo sindicalista e a mídia, naturalmente, tendia ser contra os movimentos ligados ao presidente”.
Com a estabilização da ditadura, logo os profissionais de imprensa foram afetados. “Os jornais são a favor do regime e o golpe tem que pegar alguém. Assim, o Serviço Nacional de Informação começou a investigar a vida de alguns jornalistas, cuja maioria era tinha formação de esquerda", conta. Tanto é que, em certa ocasião, Roberto Marinho soltou a frase: "Cuide de seus comunistas, que eu cuido dos meus".
Para Tão Gomes, a grande mídia também foi prejudicada por fazer parte da sociedade e classifica o dano ao setor em dois pontos: na censura, que era ostensiva ou disfarçada, e no prejuízo da formação da opinião pública, que impedia a possibilidade de se saber a verdade. "Não era permitido discutir se era bom ou ruim; sabíamos da notícia e não podíamos veiculá-la. Então, o jornalista era condicionado a ficar queto e colocar algo opcional no lugar”.
“Os jornalistas não são golpistas, eles são democráticos. São contra a qualquer tipo de golpe, têm que ser. Eles sabem que o golpe trouxe censura, tragédia, e consequências negativas que até hoje sofremos”, conclui Tão Gomes Pinto.
* Com supervisão de Vanessa Gonçalves





