Para jornalista argentino, regulação da mídia é necessária para romper monopólio do Clarín

Se a discussão no Brasil sobre uma possível lei que possa regular a mídia causa debates polêmicos e que remetem à censura, na Argentina o tema é tratado de forma diferente.

Atualizado em 12/09/2011 às 17:09, por Luiz Gustavo Pacete e  enviado a Porto Iguaçu.

Há pouco mais de um ano, a famosa "ley de médios", um dos marcos da gestão do governo de Cristina Kirchner, virou símbolo da luta entre o governo e o maior conglomerado de mídia do país, o Grupo Clarín.
O conglomerado acusa o governo de censura e perseguição política; já o governo de Cristina alega que o maior problema do Clarín é o monopólio e a gana de ocupar o espaço não ocupado pela oposição no país. Apesar de os rumores de censura e dos ataques do governo ao grupo, entre os jornalistas, a regulação parece ser bem-vinda, apesar de não ser unanimidade.

Luiz Gustavo Pacete Edgardo Bachurk O jornalista Edgardo Bachurk, apresentador da Rádio Cataratas e correspondente na cidade argentina de Porto Iguaçu do jornal Primera Edicion , falou à IMPRENSA e defendeu a regulação, alegando que ela substitui uma lei anterior criada na época da ditadura. Bachurk destaca que a nova lei tem contribuído para abrir postos de emprego, quebrar o monopólio e oferecer à população um jornalismo diversificado.
IMPRENSA - Quais os atuais problemas da imprensa argentina? Edgardo Bachurk - O primeiro problema que vivemos na Argentina são as más condições salariais dos jornalistas. Isso nos limita, sobretudo quando somos pagos por cotas de publicidade. Significa concentração de poder econômico, um grande problema para a liberdade de imprensa. Na verdade, não existe uma censura. O que temos é autocensura, para que o jornalista saiba do que deve ou não falar por questões comerciais que afetam o interesse do meio em que se trabalha.
IMPRENSA - Você aplica essa autocensura? Bachurk - Sim, diariamente penso até onde devo ir com questões relacionadas aos interesses dos meios em que trabalho.
IMPRENSA - Isso incomoda? Bachurk - Muitíssimo. Tanto que na rádio em que trabalho não existe isso, pois ela pertence a uma empresa que está a 1500 quilômetros daqui; as negociações comerciais são feitas lá. A rádio não depende do comércio local, então, não temos este temor; pelo contrário, tenho absoluta liberdade de contar o que passa aqui em Porto Iguaçu. Eu não me sinto censurado, mas admito que tento colocar limites de até onde ir.
IMPRENSA - Como vocês lidam com a regulação da imprensa na Argentina? Bachurk - A 'lei de meios' não nos incomoda. Ela vem para substituir uma lei que foi criada na ditadura militar. Estamos com pouco mais de 25 anos do fim da ditadura e não podemos continuar regulando os meios por meio de uma lei que já serviu para censurar a imprensa no passado. Qualquer lei que venha substituir essa é melhor. Eu acredito que não há porque temer; pelo contrário, a regulação nos serviu para abrir mais trabalho e diminuir o monopólio informativo.
IMPRENSA - E a briga entre a presidente é o grupo Clarín? Como ela reflete para a imprensa como um todo? Bachurk - O que passa é que o governo de Cristina Kirchner não aponta diretamente ao Clarín, mas sim contra os monopólios. Em qualquer área esse governo é contra os monopólios. Ela não é contra a concentração de poder da imprensa, mas de qualquer serviço. Essa é uma marca de Cristina: destruir os monopólios e gerar outros espaços onde possamos produzir outros produtos. Parece que, inicialmente, a lei de meios abriu essa possibilidade, para que tivéssemos outras opiniões e pontos de vista.
IMPRENSA - Mas e as acusações do grupo Clarín de que o governo persegue e censura? Bachurk - Eu não sei se isso é uma realidade. Cada um olha a sua própria realidade. Eu tenho entendido que o grupo Clarín tem muitos interesses econômicos. Devemos ressaltar que ele também é titular da empresa Papel Prensa, ou seja, todo o papel jornal da imprensa argentina esta nas mãos do Clarín. Além disso, eles são proprietários de uma cadeia de notícias em todo o pais. É um grupo que ocupou o papel da oposição e está indo contra o governo. Então, me parece que o caso do Clarín vai mais a fundo do que falar de regulação.

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