Para Gustavo Cerbasi, escolha de Henrique Meirelles foi primeira ação de responsabilidade de Lula

Para Gustavo Cerbasi, escolha de Henrique Meirelles foi primeira ação de responsabilidade de Lula

Atualizado em 29/10/2007 às 09:10, por Nathália Duarte/ Redação Portal IMPRENSA.

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Mestre em administração e Finanças pela FEA/USP, em Administração Pública pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), com especialização em Finanças pela Stern School of Business e pela Fundação Instituto de Administração (FIA), Gustavo Cerbasi é professor em cursos de pós-graduação e MBAs, sócio-diretor da Cerbasi & Associados Planejamento Financeiro e, não a toa, colunista da revista Você S/A , do jornal Gazeta Mercantil , da Rádio Transamérica e colaborador de diversos outros veículos de mídia impressa, televisiva e internet.

Em entrevista exclusiva ao Portal IMPRENSA, o autor dos livros "Dinheiro - os segredos de quem tem", "Casais inteligentes enriquecem juntos" e "Filhos inteligentes enriquecem sozinhos" comenta a cobertura da imprensa sobre o mercado financeiro e fala das perspectivas para o país em 2008.

IMPRENSA - Como comentarista em vários veículos, em diferentes mídias, como você avalia a cobertura da imprensa sobre o mercado financeiro?

Gustavo Cerbasi - Acho que boa parte do movimento financeiro funciona em função da imprensa e esse "boom" de informações sobre o mercado financeiro só funciona se as pessoas adotarem uma postura crítica diante do que está sendo dito. E acredito que essa postura crítica é o que pode favorecer o trabalho de consultores e especialistas.

Vejo que a imprensa hoje acaba assumindo um papel de educação, de descobrir um território muito timidamente coberto pelas escolas, que deveriam ter essa função. Por outro lado, são divulgadas muitas informações e o mercado de ações acaba sendo tratado como uma febre, com um certo tom de sensacionalismo que acaba, inclusive, assustando.

Quanto à exposição de serviços e os perigos do mercado financeiro, acho que a imprensa tem cumprido bem com seu papel, mas tratar de investimento exige um cuidado especial porque aponta oportunidades para as pessoas e o papel especulativo pode ser perigoso. Uma informação equivocada pode encadear comportamentos e um grau de insatisfação.

IMPRENSA - Recentemente a Comissão de Valores Mobiliários propôs uma intervenção na atuação dos jornalistas responsáveis pela cobertura econômica. Como você vê essa ação?

Cerbasi - Eu li matérias sobre o assunto, mas não acompanhei o caso de perto. Ainda assim, acho que essa cobrança já era esperada. Eu mesmo tenho que prestar contas para a CVM. Eles me questionam sobre onde e em que eu fundamento meus comentários.

Acredito que, na mídia impressa, os equívocos sejam fruto de informações mal interpretadas pelos jornalistas, já que nem sempre esse jornalista tem o preparo adequado para tratar do assunto com propriedade. O fato é que não se pode culpar simplesmente o jornalista, a interpretação às vezes errada pode ter sido gerada por uma informação mal explicada por parte do entrevistado, no caso.

IMPRENSA - Como você avalia o otimismo com que o Ministro da Fazenda Guido Mantega trata a atual situação da economia brasileira ?

Cerbasi - Acho um pouco exagerado esse otimismo. Sei que esse é o papel dele, assim como estão fazendo outros políticos e economistas e o próprio presidente Lula. Há a tentativa de construir um otimismo. Mas ainda acho que, como ministro, ele deveria ser mais cauteloso porque qualquer exagero nesse sentido pode levar ao descrédito.

IMPRENSA - A linguagem com que notícias de economia e finanças são tratadas, o conhecido "economês", está muito distante da grande massa brasileira. Você acha possível simplificar essa linguagem?

Cerbasi - É possível sim e acho que essa é a maior qualidade do meu trabalho enquanto autor. Minha formação não foi logo de cara financeira, então acabei aprendendo que o que falta é a empatia. Acho que o economista ou administrador que está dando uma entrevista, por exemplo, deve se colocar no lugar de quem vai receber a informação. E esse problema com a linguagem não é exclusivo da economia. O direito também tem esse problema e se torna difícil digerir alguns termos.

Acho que os economistas devem se preocupar mais em descer de seu pedestal e usar uma linguagem adequada à compreensão. Normalmente é preciso adotar o uso de exemplos, que funcionam como uma espécie de tradução. Contar histórias em vez de teorias.

A idéia dos meus livros era torná-los úteis tanto para um público simples, de baixa renda, quanto para quem tem um alto nível de educação financeira. Para isso, tive que apostar na didática sem banalizar o conteúdo. Acho que o especialista deve fundamentar menos e esclarecer mais, propor soluções práticas.

IMPRENSA - Henrique Meirelles foi considerado recentemente o "presidente do Banco Central do ano". O que você acha dessa escolha?

Cerbasi - Acho que a escolha foi ótima. É claro que para considerá-lo o melhor do mundo eu precisaria conhecer todos os outros, mas acho que o Meirelles tem muitos méritos no trabalho econômico e no desenvolvimento que se deu no Brasil.

Para mim, a escolha de Meirelles para o cargo no início do mandato de Lula foi a primeira ação de responsabilidade e eficiente porque, assim que Lula assumiu, todos temiam pelas medidas de esquerda que poderiam ser tomadas. E o Meirelles correspondeu às expectativas e respeitou a ideologia do governo. Acho que seu nome vai ficar marcado pela grande importância que teve ao país.

IMPRENSA - Qual a sua avaliação sobre 2007 e as perspectivas para 2008?

Cerbasi - Como avaliação, acho que 2007 foi um ano em que aprendemos muito. Felizmente a euforia nos trouxe crises que nos mostraram o que é o risco, a volatilidade, a renda variável. Foi importante ver a possibilidade de oscilações e acho que isso nos inspira para um 2008 positivo.

Não acho que os indicativos de maneira geral ou PIB de 2008 serão radiantes, mas a possibilidade do investment grade no Brasil deve representar um divisor de águas.

Acho que os investimentos hoje assumiram nova cara, a idéia de que era fácil ganhar dinheiro acabou e a bolsa hoje está no seu preço, portanto, será preciso que as pessoas elaborem seu Business Plan para preparar suas finanças para o próximo ano.

Acho que o divisor de águas que citei há pouco estará principalmente relacionado à divisão que, até então, era representada entre quem tem e quem não tem dinheiro, e que a partir de agora será entre quem tem e quem não tem o conhecimento sobre o mercado.