Para diretor da Turner, lei de cotas da TV paga é radical e exige “o que o mercado já sabe”
Desde setembro, as emissoras de TV paga disponíveis no mercado nacional cumprem a segunda fase da chamada lei de cotas – que exige, entre ou
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Anthony Doyle, da Turner Brasil
tros pontos, que canais estrangeiros transmitam no mínimo 2 horas e 20 minutos semanais de conteúdo nacional no horário nobre, sendo ao menos metade produzida por empresas nacionais. A partir de setembro de 2013, serão 3 horas e 30 minutos.
Ao mesmo tempo em que tem motivado esforços de adequação pelo mercado, a lei, regulada pela Agência Nacional de Cinema (Ancine), ainda está longe de ser unanimidade. Matéria do caderno CDM da revista IMPRENSA deste mês de novembro mostra a discussão entre os players do setor.
Responsável por gerenciar no Brasil os canais TNT, Space, TCM, Cartoon Network, CNN, Woohoo, entre outros, o vice-presidente regional e diretor executivo de conteúdo local da Turner International do Brasil, Anthony Doyle, falou à IMPRENSA sobre os desafios do grupo para adequação à lei, que ele chama de uma das “mais radicais do mundo”. Confira a entrevista na íntegra:
IMPRENSA - Como a Turner tem visto as exigências das novas regras?
Anthony Doyle - Deixamos de fazer algo que é interessante para gente, para o anunciante, para o assinante e para a própria Ancine. Para um programa servir para as cotas, a lei exige que mais de 50% dos direitos desse programa sejam de uma produtora independente. Por exemplo, programas com formatos mundiais, adaptados ao público brasileiro, não servem. O grupo Turner já praticava um conteúdo de interesse do público brasileiro e, por esses motivos, não pode usá-los para cumprir a cota.
Há o argumento de que com a chegada da nova classe C ao mercado da TV paga o brasileiro quer cada vez mais "se ver" nela. Como vê isso?
Se a gente olhar para a TV aberta, talvez veremos cerca de 95% ou mais de conteúdo feito no Brasil. O povo se vê na TV aberta - parece uma frase de uma emissora. A TV por assinatura tem 20% de penetração e, para crescer, é claro que não queremos alienar nosso assinante, que também quer se ver na TV fechada. Ele paga por isso. Mas, não precisa de uma lei para nos dizer isso. A gente já sabe.
Há canais mais e menos propícios para o conteúdo nacional?
Honestamente, alguns canais não precisam de conteúdo nacional e quem liga neles não espera ver conteúdo nacional. É evidente que isso mexe com a identidade do canal. Um canal nosso, o TCM, passa os clássicos favoritos de Hollywood. Se o telespectador liga ali é porque ele quer ver aquilo, não quer ver conteúdo nacional. Por causa da lei, a gente está com alguns filmes clássicos do cinema nacional. A Ancine trata todos os canais iguais, e nenhum canal é igual ao outro.
A seu ver, que tipo de canais mais sofrem ou sofrerão com a lei?
O lançamento de canais de esporte ou de notícia fica mais difícil, pois não têm nenhum valor para as cotas. Será um desestímulo a essas categorias.
O mercado produtor de conteúdo no Brasil está maduro para abastecer as demandas de conteúdo nacional?
De uma forma geral, não está maduro. Tem um monte de gente surgindo do nada, alguns profissionais são ótimos, mas alguns não. Se a produtora fizer, mesmo valendo cotas, um conteúdo ruim, o canal prefere não comprar esse conteúdo. A produtora precisa trabalhar em conjunto com a emissora.
Você tem conhecimento de como os outros países têm lidado com esse tipo de lei?
Há algum tempo, li um documento que listava os regimes de cotas pelo mundo. Acho que são uns 18 países. Sem dúvida alguma, o mais radical ou mais engessado é o Brasil. Sempre argumentei que se uma coisa funciona no Canadá ou EUA, isso não quer dizer que vai se adequar aqui. No Brasil, a língua e a cultura são muitos específicos. O Brasil tem muita dificuldade de vender conteúdo para fora. Mas, nesse aspecto, de venda de conteúdo para fora, as cotas também não ajudarão em nada.






