Para Ana Elisa Granziera, empresas precisam aprimorar relacionamento com ilustradores

Para Ana Elisa Granziera, empresas precisam aprimorar relacionamento com ilustradores

Atualizado em 18/07/2008 às 18:07, por Érika Valois/Redação Portal IMPRENSA.

Por

A ilustradora e designer Ana Elisa Granziera, 29, é formada em Comunicação Social, com ênfase em Propaganda e Marketing e especializada em Criação, pela ESPM de São Paulo. Apaixonada pela arte de ilustrar, ela conta que sempre esteve ligada à área. "Eu desenho desde que consigo segurar um lápis. Costumava sentar na cama e passar o dia inteiro desenhando no quarto. Só não imaginava que isso poderia virar profissão", conta.

Ela diz que, quando pensava em ser ilustradora, era "desencorajada" de seguir a carreira na escola, tanto pelos colegas de classe, quanto pelos professores e pais de alunos. "Eles diziam que eu precisava de uma profissão de 'verdade'".

Apesar de sempre ter tido o apoio dos pais, ela resolveu cursar publicidade mas, no último ano da faculdade, percebeu que não era aquilo o que ela realmente buscava. "Nessa época, fiz um estágio que durou dois ou três meses, o suficiente pra eu saber que não era da parte publicitária que eu gostava mesmo, preferia ficar só com a parte gráfica e artística".

Foi também durante o último ano da faculdade, em 2002, através da indicação de um amigo, que ela conseguiu entrar numa empresa como ilustradora. "Lá entrei em contato com outros profissionais da área, eles me contavam como era trabalhar com isso e percebi que não precisava ser ilustradora e mais alguma coisa, dava pra viver disso".

Ana Elisa Granziera

Ela conta que os pais adoraram sua escolha profissional. "Meus pais deram graças a Deus. Eles ficaram mais preocupados na época em que cursei filosofia na USP. Minha mãe então, achou ótimo e disse que eu tinha que arranjar um estágio com o Maurício de Sousa", diverte-se.

Hoje Ana trabalha, principalmente, com projetos empresarias, nos quais não tem tanta liberdade para criar, pois deve fazer o que o cliente deseja. "Ele pode chegar e dizer que quer uma meninha vestida de rosa, jogando uma bola pro lado direito. Temos que fazer isso". Ana ressalta, no entanto, que algumas empresas dão mais liberdade. "Algumas editoras, por exemplo, dão o livro pra eu ler e dizem que tal espaço é destinado à ilustração. Dentro disso, eu crio. Claro que depois eles avaliam e editam da maneira que acham mais adequada".

Já no processo de criação de projetos pessoais, ela diz ser mais livre e conta que faz de cenas do cotidiano verdadeiras fontes de inspiração. "Às vezes estou andando na rua vejo uma pessoa muito caricata e penso em como ela ficaria bem no papel... Chego em casa com vontade de desenhar!".

Ana Elisa Granziera

Boa de traço, ela diz ter muitas caricaturas de amigos, mas que procura fugir do que ela chama de "caricaturas tradicionais", que evidenciam os defeitos das pessoas. "Gosto de pegar os trejeitos; um sorriso meio torto ou algo do tipo, que faça com que as pessoas próximas reconheçam quem foi desenhado. Prefiro trabalhar a caricatura como uma homenagem e não usar isso para destacar defeitos", afirma.

Segundo Ana, os amigos aprovam a brincadeira. "Eles adoram e se aproveitam de mim. É o terceiro casamento que faço caricaturas para o convite", diz.

Ana Elisa Granziera

Entre os trabalhos que mais marcaram a carreira, ela destaca a ilustração que fez para participar da primeira competição de sua vida: um concurso de humor sobre AIDS do Ministério da Saúde. Apesar de não ter vencido, sua criação ficou entre as 300 primeiras e participou da exposição itinerante do projeto. "Certo dia, estava fuçando na internet, e achei uma matéria sobre o concurso e a ilustração que estava na matéria era a minha. Fiquei toda boba", emociona-se.

Outro trabalho que marcou foi a criação de quatro embalagens para um pão. "Quando vi no supermercado, quis comprar todas! Fico muito feliz com essas coisas, ainda mais quando é assim, algo mais palpável. Sei que tenho meu trabalho exposto na internet, mas pegar um produto que está à venda é diferente", reitera.

É o reconhecimento uma das coisas que mais a motiva. "Adorei quando fiz uma ilustração para um livro e todos os amigos adquiriram, mesmo sendo uma publicação infantil".

A ilustradora, que se diz satisfeita com o trabalho reclama do mercado brasileiro, por considerá-lo saturado. "Tem muito ilustrador no mercado, e pior que trabalhando a preço de banana. Isso denigre a imagem do profissional; com isso os clientes não conseguem ver que ali tem todo um trabalho que deve ser valorizado".

Ana Elisa Granziera

Quanto às empresas, ela diz que ainda falta "know how" e que ainda não se sabe lidar com esse tipo de profissional. Para ela, a maior polêmica está ligada à questão do direito patrimonial. "O direito autoral é intransferível. Se eu criei, é meu. Já o direito patrimonial é outra coisa, se eu vender o direito patrimonial, o cliente pode usar minha ilustração da forma que lhe convir, mas, geralmente, não é isso que ocorre com minhas obras. Não vendo o direito patrimonial. Quando assino contrato com uma empresa, explicito, em uma cláusula, que estou vendendo aquela imagem para ser usada num determinado segmento - na internet, por exemplo, o preço varia de acordo com o tipo de mídia - durante um determinado tempo. Mas os empresários não entendem, acham que podem usar minha ilustração em apresentação de power point, na camiseta do filho ou no boné de final de ano da empresa e não é assim", explica.

Ana mantém a empresa fundada por ela, onde oferece serviços de ilustração e design, para os diversos tipos de empresas, a não ser para indústrias tabagistas ou ligadas a esse mercado para as quais se recusa a trabalhar por ser "totalmente contra o cigarro" e "absolutamente defensora" de coisas naturais e socialmente responsáveis.