Para Adriano de Faria, enquanto a matéria jornalística informa, a charge questiona
Para Adriano de Faria, enquanto a matéria jornalística informa, a charge questiona
Quando garoto, no Rio de Janeiro, o cartunista Adriano de Faria admirava o seu avô - químico do Jóquei Clube e um leitor ávido de jornais - que todo dia, sentado à mesa, lia a publicação diária após o café da manhã. Assim que seu avô saía do trabalho, ele corria para sua cadeira e fingia estar lendo o jornal, acreditando que aprendia a ler sozinho.
Certa vez, rabiscou em algumas folhas de rascunho na mesa de seu avô, e quando mostrou o que tinha "escrito" para sua avó, ela lhe explicou que na verdade aquilo eram desenhos seus, rabiscos no papel.
| Adriano de Faria |
| Conflito de identidades |
Em outro momento de sua infância, na cidade de Cataguases, Adriano observava as obras de Niemeyer e as pinturas de Portinari que existem na cidade em passeios de bicicleta. "Eu saía para pedalar de bicicleta e levava comigo um bloco de papel e lápis, sentava-me em frente aos desenhos e os copiava", conta o cartunista.
Esses fatos marcaram sua decisão por seguir a carreira de ilustrador. Além disso, morando em Belo Horizonte, o acervo do Museu de Arte da Pampulha e a Universidade Federal de Minas Gerais, (UFMG) serviram como incentivadores.
Ele conta que "eu ia para a Escola de Belas Artes e costumava ir para assistir as aulas, como aluno ouvinte. Pela manhã, eu estudava o ensino regular; durante as tarde freqüentava as aulas de desenho. Foi na Belas Artes que conheci a professora Sandra Bianchi, uma excelente desenhista e aquarelista - minha professora de desenho por mais de dez anos".
| Adriano de Faria |
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| Jornal |
Adriano usa uma frase do escultor Amilcar de Castro para definir seu trabalho: "arte não é adorno, arte é fundamento". Ele diz que, num primeiro momento, para o leitor de seus desenhos de humor, "talvez o traço e o tema pareçam frutos de uma expiração. Mas não, meu desenho é raciocínio, é fundamento. O meu trabalho é bastante sintético, até geométrico. Talvez eu busque quando desenho a mesma síntese de quem escreve. Hoje talvez eu desenhe querendo escrever".
Suas maiores inspirações para fazer um desenho são a música, a literatura e a observação. "Ouço música o dia inteiro, todos os dias. Ao escutar um instrumento deixo-me imaginar a linha que o som desenha em seus fraseados. E, ao ler, percorro com os olhos as palavras até que delas brote uma imagem que depois vira desenho. Uma também vez li que Flaubert dizia a Guy de Maupassant que para uma boa literatura é preciso 'observar, observar bem e observar novamente'. Acredito nisso", explica o cartunista.
| Adriano de Faria |
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| Prancheta |
Para ele, o reconhecimento de cartunistas no Brasil vem do meio do desenho de humor (salões de humor, publicações especializadas, portais de humor, sites sobre o tema). Entretanto, a grande imprensa não valoriza como deveria os cartunistas e ilustradores, que a cada dia têm menos espaço para publicar seu trabalho e ser remunerado por isso.
Sobre o lugar dos cartuns no jornalismo, ele acredita "que a charge é tão importante, dentro de um jornal, quanto a coluna jornalística". "A função da matéria jornalística é informar; já a charge e a coluna formulam pensamentos, questionam. E esse questionamento é fundamental para o exercício da democracia. É uma pena que hoje os jornais tenham estrangulando os espaços destinados as charges".
Mais sobre o trabalho de Adriano de Faria pode ser vito em seu blog:






