Papa da convergência de mídias fala sobre inovação no modelo de negócio jornalístico
Doutor em Direito e licenciado em Jornalismo, o espanhol Carlos Soria atuou durante dez anos como jornalista em veículos de comunicação na cidade de Madrid, Espanha.
Atualizado em 20/01/2015 às 09:01, por
Maria Elisabeth Antonioli.
Crédito:Divulgação Carlos Sória já atuou em mais de cem empresas jornalísticas como consultor Em 1986, criou a empresa Innovation International Media Consulting Group da qual é, atualmente, presidente do Conselho. Como consultor, Soria já trabalhou em mais de cem empresas jornalísticas na Europa, América Central e América Latina, inclusive o Brasil, e é considerado um “papa” no que diz respeito à convergência de mídia.
Em entrevista à IMPRENSA, o consultor fala sobre a diversificação dos negócios nas empresas jornalísticas e desestimula a prática se a ação fere a credibilidade, a maior pólice de um veículo de comunicação. Além disso, Sória define o que, para ele, é o jornalismo e afirma: “O bom jornalismo nunca vai desaparecer. Seu inimigo é somente e sempre será o mau jornalismo”. Confira.
IMPRENSA – Muitos veículos de comunicação, principalmente após a chegada da internet, têm diversificado seus negócios. Qual a sua opinião sobre isso? É necessário em um momento de crise? Carlos Soria - As empresas de comunicação, o que sabem fazer bem, ou pelo menos tentam, é jornalismo e comunicação. O mais prudente, portanto, é não fazer negócios fora dessas áreas. Também não podemos esquecer que a independência e a credibilidade de uma empresa de comunicação – com características absolutamente precisas - pode se comprometer, se a empresa ou os seus referentes acionistas têm interesses econômicos e comerciais fora do setor das comunicações.
Muito se fala em novos negócios no jornalismo, mas até o momento não se chegou a um consenso sobre o que seria “um bom negócio”. Os jornais e revistas ainda seguem sendo um bom negócio, às vezes, o único bom negócio no conjunto das empresas de multiproduto e multiplataforma das atuais empresas multimídia. É verdade que são menos rentáveis do que há alguns anos, mas se mantêm, estão bem posicionadas e com uma boa gestão, com uma rentabilidade normal, digamos assim. Mas os meios digitais ainda não são rentáveis...
Os meios digitais não têm, no momento, uma rentabilidade clara, normal, talvez porque se generalizou um clima de gratuidade suicida em seus serviços ou porque as empresas não sabem muito bem o que são essas mídias digitais e para que servem. Há casos que os meios digitais são pura extensão ou repetição dos conteúdos do impresso, ou subprodutos sem qualidade, pelos quais não vale a pena pagar. O público paga e pagará por bens informativos escassos que são necessários para o consumidor e tenham qualidade.
Como as empresas jornalísticas conseguirão superar a tal gratuidade, já que a produção de notícias é o seu negócio? A internet tem generalizado, como eu disse, um clima de gratuidade em muitos de seus conteúdos e parece quase impossível que essa tendência desapareça. As notícias, entendidas como a matéria-prima da informação, provavelmente seguirão sendo gratuitas. E a conclusão poderia ser esta: o público nunca pagará pelo que pode receber direta ou indiretamente de forma gratuita. Ou seja, rentabilizar as informações on-line significa fornecer notícias exclusivas, análises e interpretações fundamentadas e inteligentes, sempre, sempre, sempre, com a sua própria agenda e valor adicionado.
A internet mudou o modo de fazer jornalismo. Facilitou a apuração e proporcionou a veiculação de notícias em tempo real. Em contrapartida, as redações sofreram uma redução no número de jornalistas. O senhor vê chances de uma reversão desse quadro? O esquema não pode ser jornalismo em plataformas impressas contra jornalismo em plataformas digitais ou impresso versus digital. A linha do horizonte é que as redações, ao se constituírem verdadeiras turbinas informativas, como dizemos em inovação, tenham a mesma qualidade e sinais iguais de identidade jornalística, independentemente da plataforma na qual os conteúdos produzidos apareçam.
Os cidadãos também são produtores e, por meio da internet, conseguem emitir informações e opiniões. Como o jornalista se posiciona neste cenário? Esse novo fenômeno não significa que tenha desaparecido ou que irá desaparecer o jornalismo profissional e empresas jornalísticas. Há, com a entrada do público, uma nova riqueza de informações, mais fontes primárias de informação e de opinião, maior porosidade informativa transversal e um reforço do controle social da informação. Tudo isso é mais um avanço social muito importante, mas isso torna ainda mais necessário o jornalismo e a gestão de informação profissional.
Como o senhor definiria o jornalismo? O jornalismo é uma paixão para saber o que está acontecendo, porque acontece e o que vem a seguir. É a inteligência prática que ajuda a iluminar as sombras da vida pública. O jornalismo é uma tentativa de melhorar o mundo e não apenas de descrevê-lo, supõe a paixão de estabelecer convicções e defendê-las com liberdade, força e elegância. É ter olhos para ver a grama crescer ou descobrir o que está sob a ponta de um iceberg. É dar voz e olhos aos que não têm voz ou brilho no olhar. Jornalismo é acompanhar e entrar em quartos com vistas para a dor, o sofrimento e a carne humana queimada, e também fazer as pessoas rirem e sorrirem e manter iluminadas as paixões humanas nobres. O jornalista não é apenas um comerciante de notícias, não é um reciclador de lixo ou um firme homo economicus.
Como o senhor vislumbra o futuro da profissão? Por tudo isso que disse, o jornalismo, o bom jornalismo nunca vai desaparecer. O bom jornalismo sempre será o antídoto número um da corrupção pública, da tibieza, da conformidade ou de apatia social. O inimigo do bom jornalismo nunca será a tecnologia. Seu inimigo é somente e sempre será o mau jornalismo. As soluções que surgiram pela revolução digital contemporânea levam a passagem de uma estrutura paper centric para uma estrutura digital centric, ou seja, dotar - tanto os jornalistas quanto as empresas - de um coração digital e multiplicar o número de pulmões e plataformas de comunicação.
Quando o senhor criou a empresa Innovation International Media Consulting Group? Em 1986, Juan Antonio Giner, Francisco Gomez Anton e eu fundamos a empresa. Os três éramos, na ocasião, professores da Faculdade de Jornalismo da Universidade de Navarra.
Qual o motivo que o levou a deixar a academia para se dedicar a uma empresa de consultoria? Na verdade, eu nunca deixei de ser professor universitário e, pelo menos na forma de pensar e encarar a vida, acredito que eu nunca deixarei de ser. Outra coisa diferente tem sido a dedicação que tenho a cada momento na cadeira da universidade ou no trabalho de consultoria. Antes de ingressar na Universidade de Navarra eu havia trabalhado em Madrid por cerca de dez anos. Chegando à Universidade de Navarra, verifiquei que era preciso construir uma ponte entre o estudo científico do jornalismo e da comunicação e as empresas de mídia, que têm os seus problemas específicos e buscam encontrar soluções práticas para os seus problemas. E essa ponte foi a Innovation Media Consulting Group.






