Palavras em vinhas d'alho
Palavras em vinhas d'alho
Recém-lançado, livro revela novos talentos no jornalismo literário e confirma crescente interesse pelo estilo, mas não consegue ser nem jornalismo nem literatura
Entendam a analogia: o jornalismo dito moderno - que inaugurou o uso dos leads, da informação objetiva, a economia vocabular e a recusa aos adjetivos desnecessários - está para a nouvelle cuisine assim como o antigo modo de fazer jornalismo e o "jornalismo literário" estão para o que os franceses chamam de cuisine classique . A diferença nos modos de cozinhar das tradições "nova" e "clássica" francesas, ensinam as enciclopédias de gastronomia, é basicamente a eliminação dos excessos: sai a manteiga, entra o limão; saem os cozidos que levam horas, entram os alimentos quase crus; saem as marinadas, entram os levemente salteados; saem os molhos à base de leite e farinha, entram ingredientes mais magros. A partir dos anos 1970, a nouvelle cuisine trouxe às mesas dos restaurantes na França e em todo o mundo uma culinária mais enxuta, assim como o jornalismo objetivo de orientação norte-americana - ao reduzir drasticamente o uso de adjetivos, uma espécie de manteiga estilística - permitiu que um jornal pudesse ser consumido rapidamente, sem o risco de congestão.
Vê-se, hoje, um retorno ao jornalismo mais interpretativo, ao cuidado maior com a qualidade do texto e a permissão para o aparecimento do repórter como um ser que não se julga mais invisível. Particularmente, o interesse por esse tipo de jornalismo - que por aqui temos chamado de "jornalismo literário", expressão que mereceria algumas ressalvas, diga-se - deve-se, em grande parte, à queda na circulação de jornais e revistas, o que, invariavelmente, leva ao questionamento do modelo de jornalismo puramente informativo.
Recém-lançado, o livro "Jornalistas Literários" recupera a cuisine classique do jornalismo e apresenta 16 textos escritos por jovens autoresrepórteres, sob o comando do talentoso Sérgio Vilas Boas, da Academia Brasileira de Jornalismo Literário (entidade que promove a discussão sobre o tema e forma novos talentos). A leitura do livro é arrastada, os textos longos e muito parecidos entre si e, onde deveriam revelar-se os estilos individuais do jornalismo autoral, vê-se um modelo básico de escrita, cheio de lugares-comuns ("contagiante disposição", "calor escaldante" e "universo à parte", são alguns de dezenas), além de uma completa falta de compromisso com a apuração, como se um texto narrativo substituísse a necessidade de apurar e apurar com cuidado. É claro que isso não invalida o esforço na procura de um novo modo de fazer jornalismo, nem a qualidade dos autores que nos precederam, aqui e no exterior. Ainda estamos tateando no escuro, à procura das interfaces entre jornalismo e literatura. Mas não foi dessa vez. Infelizmente, as palavras ficaram excessivamente marinadas nas vinhas d'alho. "Jornalistas Literários" Diversos autores. Sérgio Vilas Boas (org.) Summus Editorial, 320 páginas, R$ 53,90
Leia a matéria completa na edição 231 de IMPRENSA






