Pagadores de promessas, por José Marques de Melo

Crédito:Léo Garbin O ex-voto é uma manifestação cultural enraizada na tradição greco-romana. Configura um “acerto de contas” de natureza mística.

Atualizado em 03/03/2015 às 14:03, por José Marques de Melo.

uma manifestação cultural enraizada na tradição greco-romana. Configura um “acerto de contas” de natureza mística.


Ao perder as esperanças na solução terrena de problemas do cotidiano, geralmente as pessoas recorrem diretamente às divindades. Pedido feito, elas aguardam a solução. Se o resultado satisfaz, o pedinte cumpre o prometido. Ninguém quer figurar na lista dos inadimplentes.


Daí, as demonstrações coletivas realizadas pelos “pagadores de promessas”, como bem espelhou Dias Gomes em sua dramaturgia multimidiática.


Apesar de amplamente difundidos no Brasil, os ex-votos nunca mereceram tratamento sistemático por parte da vanguarda eclesiológica. Como diriam os profetas afrodescendentes: aquela que “faz a cabeça” do nosso episcopado. E por tabela configura a “ideologia” que regula a conduta da intelectualidade brasileira.


O mais antigo registro desse fenômeno, na cartografia folkcomunicacional brasileira, foi feito pelo arquiteto Luis Saia (1944), que ousou identificar como obras de arte esculturas oriundas das “salas dos milagres”.


Depois disso, o silêncio em torno da questão foi quebrado, mas não interrompido. Luiz Beltrão publicou em 1965 seu histórico artigo – O ex-voto como veículo jornalístico –, suscitando controvérsia nacional.


Enquadrado pelos teólogos “politicamente corretos” na categoria dos exegetas das crendices populares, o patrono da folkcomunicação foi excluído a priori da ágora reservada aos militantes da “pedagogia dos oprimidos”.


Enquadrado como extensionista, populista ou desenvolvimentista, Beltrão foi automaticamente recusado na legião dos bem-aventurados que os purificadores do catolicismo latino-americano idealizaram como sua marca registrada. Mesmo assim, a corrente beltraniana manteve-se fiel às circunstâncias que determinam a opção dos marginalizados pela construção do reino aqui e agora.


Dessa maneira, temos assistido o descompasso que se estabeleceu entre as práticas de comunicação horizontal nutridas pela religiosidade popular e as expectativas de purificação vertical do catolicismo latino-americano.


É nesse cipoal cognitivo, repleto de simulações discursivas e dissimulações retóricas, que Luis Erlin Gomes Gordo finca os “pés na terra” para elucidar as circunstâncias determinantes da supressão do espaço que a centenária revista Ave Maria dedicou aos ex-votos no período 1898-1970.


Narrativa clara, bem documentada, comovente e edificante, o livro “Ex-votos, saga de uma comunicação perseguida” (São Paulo, Ave-Maria, 2015) prende a atenção do leitor, da primeira à última página. Qualquer tentativa de explicação complementar pareceria supérflua, pretensiosa, desnecessária.


Com elegância, Luis Erlin eclipsou as impertinências que constrangem os leitores das periferias acadêmicas. O lançamento desse livro será o ponto culminante do II Encontro Internacional de Folkcomunicação (São Paulo, Centro Cultural da INTERCOM, 19h, dia 28/Março/2015).


Jornalista, professor universitário, pesquisador científico, consultor acadêmico, autor de diversos livros, foi docente da ECA-USP e é atualmente o titular da Cátedra Unesco de Comunicação na Universidade Metodista de São Paulo (www.marquesdemelo.pro.br).