SJPSP: Sindicato manifesta-se sobre caso do repórter Rodrigo Vianna
SJPSP: Sindicato manifesta-se sobre caso do repórter Rodrigo Vianna
SJPSP: Sindicato manifesta-se sobre caso do repórter Rodrigo Vianna A Rede Globo, por seu peso político e econômico, pode ser vista como um paradigma para o setor de comunicação e suas ações como prática e padrão de atuação junto ao mercado. Por este motivo, a atitude da emissora na demissão do repórter Rodrigo Vianna, ocorrida em 19 de dezembro, não é um fato isolado, mas sim o modelo que determina o comportamento da maioria das empresas frente a seus contratados.
A cobertura sensacionalista, a prática da construção de manchetes acusatórias e o direcionamento político das reportagens foram adotadas por alguns veículos de comunicação durante o ano de 2006. A abordagem da crise política do "mensalão" e seus derivados, tanto no período pré-eleitoral quanto durante a campanha, foi conduzida de modo parcial por alguns jornais, fato que já foi duramente criticado por diversos analistas, jornalistas e leitores mais perspicazes. Esses acontecimentos marcaram negativamente o ano e trouxeram preocupação àqueles que querem fazer da imprensa um exercício de liberdade e cidadania.
Marcados pela atitude arrogante das empresas de comunicação que se acham no direito de conduzir a realidade segundo seus interesses, os jornalistas estão submetidos ao autoritarismo no interior das redações. É assustador imaginar que não apenas a cobertura dos fatos passa a ser sutilmente manipulada como também a própria consciência e a individualidade dos jornalistas são objeto de controle por parte das empresas.
A forma como Rodrigo Vianna foi despedido ( ) e a resposta da emissora, na voz do seu chefe de jornalismo, Luiz Cláudio Latgé ( publicada na Agência Carta Maior) servem de motivo para uma reflexão bastante interessante sobre os caminhos da profissão e a forma subordinada e mesmo desrespeitosa como os jornalistas são incluídos na "indústria do jornalismo"
Durante o período eleitoral, Rodrigo Vianna e outros colegas manifestaram diversas vezes o inconformismo diante da linha editorial adotada e passaram a sofrer retaliações. A carta com a qual o jornalista se despediu de seus colegas da Rede Globo de São Paulo faz alusão a estes fatos: a cobertura tendenciosa que teria sido feita pela emissora nas últimas eleições e a um abaixo-assinado de apoio à política editorial da casa que percorreu a redação e teve a adesão "espontânea" de 172 jornalistas (entre estes não estava o nome de Rodrigo Vianna, o que pode ter sido o estopim para que a emissora não renovasse seu contrato de trabalho).
A "demissão", ou, como prefere o chefe de jornalismo da Globo, Luiz Cláudio Latgé, a não renovação do contrato já é, por si só, surrealista. O jornalista, apesar de trabalhar há 11 onze anos na emissora, não era empregado da empresa: mensalmente ele fornecia uma nota fiscal por serviços prestados como PJ (pessoa jurídica). Esta situação contratual oculta uma relação que na verdade é trabalhista e demonstra o descaso com que os profissionais são tratados pelas empresas de comunicação.
Cinicamente, o chefe de jornalismo em sua carta resposta sobre o assunto, questiona por que o de Rodrigo Vianna não havia se demitido antes, já que discordava da linha editorial adotada pela empresa na eleição. Um fato que não foi tornado público nesta questão é que "o contrato de trabalho" do jornalista com a Globo previa multa de aproximadamente 800 mil reais, caso ele resolvesse romper a "relação de trabalho". Na verdade, Vianna estava "amarrado" à empresa. Poucos jornalistas podem se dar ao luxo de entregar 800 mil reais para uma corporação como a Globo.
A utilização do PJ - prática comum a várias organizações - além do não recolhimento dos impostos trabalhistas, é usada por algumas empresas para retirar do trabalhador direitos básicos como férias remuneradas, 13º salário e as vantagens da convenção coletiva.
Some-se a isto os salários achatados, as longas jornadas de trabalho, os plantões noturnos e aos fins de semana, as relações autoritárias entre chefias e subordinados, teremos um quadro de como as relações humanas e as condições de trabalho têm sido aviltadas nos últimos anos nas empresas de comunicação.
Algumas atitudes empresariais beiram a irresponsabilidade; como a ocorrida ainda em dezembro (16), quando outro jornalista da Globo, no Rio de Janeiro, José Messias Xavier, após ser acusado de prática criminosa pelo Ministério Público Federal (MPF), foi objeto de uma nota oficial da empresa que declarou: "A TV Globo confia em todos os seus funcionários e só se manifestará sobre o caso após o desenrolar das investigações. O jornalista José Messias Xavier vinha, de fato, trabalhando em reportagens sobre a ação da máfia dos caça-níqueis. Depois das denúncias, José Messias pediu licença de suas funções para se dedicar a sua defesa e provar sua inocência, decisão com a qual a TV Globo concordou". Depois, a opinião da empresa mudou e o jornalista foi despedido em cadeia nacional sob a alegação de que a direção concluiu que ele fazia sim parte do esquema criminoso.
Assim como os que se envolvem com o crime organizado precisam ser punidos, qualquer empresário tem o direito legal de despedir seus funcionários pelo motivo que achar pertinente, desde que pague todos os direitos trabalhistas e o faça com civilidade e sem expô-lo a situações constrangedoras. Mas não cabe a empresa, em hipótese alguma, o direito de exigir que um profissional abdique de seus princípios nem de substituir o Judiciário no processo de julgamento e condenação de um suspeito.
Rodrigo Vianna, ainda "funcionário" da Globo até 31 de janeiro, tem que resolver questões jurídicas sobre seu "contrato de trabalho". E José Messias Xavier, caso seja declarado inocente, vai ter de reconstruir sua reputação achincalhada no horário nobre em cadeia nacional.
Apesar disso, os diretores da Globo e de outras empresas vão continuar tentando manipular, controlar e adaptar as notícias e os jornalistas aos seus interesses? Se isto realmente ocorrer, a democracia será a maior vítima. É preciso aprender com a história, esclarecer os fatos e impedir que eles se repitam. 





