Mayre Anne Brito, de Berlim: Quem não quer um milagre? 

Mayre Anne Brito, de Berlim: Quem não quer um milagre? 

Atualizado em 16/11/2005 às 15:11, por Mayre Anne Brito e  de Berlim.

: Quem não quer um milagre?
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18 de setembro. Domingo, 20h. Dia de eleição na Alemanha. O povo cumpriu a sua parte, votou, mas o resultado era inesperado. No placar, 35% dos votos para a direita da inexpressiva Angela Merkel e 34% para a esquerda do exibicionista Schröder, até então atual chanceler do país. Deu zebra. Ninguém alcançou os 50% exigidos para assumir o poder. Uma partida sem vencedores. Um time com dois goleiros principais ou com dois supostos líderes que agora travam uma luta de egos em nome de uma nação. Enquanto o jogo político decepciona, os alemães, parafraseando o Brasil, tentam direcionar a sua atenção para o futebol.

Para a Alemanha, a Copa do Mundo de 2006 não traz apenas a possibilidade de vencer um campeonato, mas a chance de aproveitar os olhos do mundo para atenuar a fama de ser um povo frio, rígido, filhos de Hitler. Com o tema "É tempo de fazer amigos", a organização do evento pretende, muito mais do que vender uma imagem, preparar os alemães para receber com um sorriso no rosto os mais de três milhões de visitantes que virão de toda a parte do globo terrestre. A Copa do Mundo é encarada como a salvação da pátria. Uma pátria que, apesar de ter a terceira economia mais forte do planeta, não sabe o que fazer com cinco milhões de desempregados e sofre ao testemunhar a pobreza crescer com mendigos perambulando pelas ruas.

Como alemão não acredita em milagre, muito dinheiro está sendo investido nos preparativos do campeonato mundial. Além de planejamentos e reformas por todos os lados para garantir a segurança dos turistas, há alguns projetos que chamam a atenção como a construção de um miniestádio em Berlim, onde quatro milhões de pessoas poderão assistir aos jogos em telões. O patrocinador é uma grande companhia telefônica da Alemanha. Isso, claro, à primeira vista, pode não parecer notícia de interesse, no entanto, é curioso como patrocinadores se misturam com acontecimentos e vendem seus produtos através de notícias propagandísticas.

Mas o leitor deve pensar inconformado: "estamos aqui para falar de negócios ou de futebol?".

Bem, o fato é que mesmo com a decisão da Liga Alemã de Futebol de contratar um novo treinador, com o objetivo de solucionar os problemas de ataque da seleção alemã, Jung Klinsmann, outrora padeiro, ainda não conseguiu grandes resultados em campo. Em entrevistas aos jornais locais, Klinsmann afirma que vai vencer o mundial e que "não teria nada contra se ganhasse do Brasil". O treinador alemão está realmente apostando todas as fichas no estímulo da autoconfiança, da motivação e da criatividade dos seus jogadores; atributos naturalmente do povo verde e amarelo. Essa fixação dos germânicos pelo jeitinho brasileiro começa nas ruas, com a popularidade da caipirinha, cujo valor da dose é de 21 reais, passa pela moda (é possível conferir com freqüência jovens usando blusas com a palavra Brasil estampada) e termina na mulher que, trigueira, enfeitiça os homens e inicia uma colonização às avessas.

Talvez, o ex-padeiro não esteja errado em se inspirar em um país que enfrenta mazelas há séculos e ainda acredita no futuro. Contudo, terá de se esforçar muito para modificar uma cultura, um modo milenar pessimista de ser. Que os alemães fazem os mais variados e deliciosos pães não se pode negar. Vamos aguardar o campeonato mundial e descobrir se conseguem fazer milagre. Porque estratégia, tática, conhecimento e esperança eles têm. Agora, fé é uma característica mais fácil de ser encontrada na América do Sul, mais precisamente no Brasil.