Crítica: Correspondente do SBT no Oriente Médio critica cobertura da mídia na guerra do Líbano
Crítica: Correspondente do SBT no Oriente Médio critica cobertura da mídia na guerra do Líbano
Crítica: Correspondente do SBT no Oriente Médio critica cobertura da mídia na guerra do Líbano Por Paula Schmitt, correspondente em Beirute do SBT, falou à IMPRENSA e criticou duramente a mídia em geral na cobertura da guerra do Líbano, acusando-a de ser pró-Israel, e afirma que os jornalistas deveriam questionar mais, ambos os lados, a fim de de fato informar por completo a respeito de um conflito. A seguir, principais trechos da entrevista.
Como você enxerga a cobertura da mídia em geral dessa guerra?
A cobertura da mídia em geral, fora do mundo árabe, é pró-Israel. Imagina, a CNN vinha se referindo a novos ataques israelenses como "FRESH atacks"... Imagina falar "fresh suicide bombing" in Tel-Aviv. Até isso tem uma conotação positiva, a escolha da palavra. Fresh é a palavra que eles escolheram para dizer NOVO. Em inglês, dá para falar fresh como algo novo, recém feito etc., mas não tem como negar que tem uma conotação positiva. Tanto tem que eu nunca ouvi a CNN dizer "fresh katiusha rockets" in Haifa.
Como cobrir com isenção uma guerra? Há uma tendência a se posicionar?
Numa guerra pode até ser que estejam todos errados, mas não igualmente errados. Eu estava agora mesmo conversando com um jornalista da BBC. Ele estava reclamando porque fez uma matéria sobre o efeito psicológico nas crianças que vivem nas áreas onde caem as bombas. E ele me disse que, assim que fez a matéria, o editor pediu que ele incluísse as crianças israelenses. Então ele disse que não tinha como comparar os efeitos psicológicos. Para começar, o estrondo de um míssil é muito maior do que o de um katiusha. Ele então entrou em contato com a Jane's Defense Weekly , uma revista sobre estratégia militar e armas, e perguntou ao editor a diferença entre os mísseis israelenses e os katiushas. E o editor começou a rir e falou que era uma pergunta muito absurda - "é como comparar uma pedra com uma bala de revolver". É claro que os dois lados sofrem, mas a mera idéia de se querer dividir o tempo de uma matéria igualmente entre os efeitos violentos da guerra em Israel e Líbano é falacioso. Pra começar, a razão entre os mortos é por enquanto de no mínimo 8 para 1. Está na hora de os jornalistas começarem a fazer perguntas a si mesmo, e destruírem preconceitos. Digamos, o conceito do "suicide bomber".
Como assim?
Por que é que não existe nenhum freio jornalístico em vangloriar um piloto de avião de caça, que de dentro do conforto do seu cockpit vai matando civis, e um suicide bomber é considerado um monstro? Qual a diferença entre os dois? A diferença, neste caso, é que Israel, com um exército e a maior ajuda econômica americana a um país, consegue ter um exército de alta tecnologia, super bem-equipado que, portanto, pode matar cirurgicamente. Os palestinos não têm esse luxo, são condenados a matar como monstros. E quando os palestinos agem de forma excepcionalmente militar, civilizada, capturando um soldado israelense que está em território ilegalmente ocupado por Israel, o que Israel faz? Dizima uma população. Vale a pena se perguntar por que é que Israel não reage desta forma quando um palestino sem futuro se explode em um mercado matando civis. Será por que é do interesse de Israel que os palestinos continuem agindo como monstros?
As reportagens ficam insistindo em que o Hezbollah é auxiliado economicamente pelo Irã e pela Síria. Pois bem, e por que não falam que Israel é auxiliado pelos Estados Unidos? Assim que a guerra começou a ficar mais séria, os Estados Unidos aceleraram um contrato de "transferência" de armas (eles chamam de transferência) para Israel. Tu sabias que o Hezbollah condenou o ataque ao World Trade Center?
Assim como os brasileiros reclamam dos estereótipos que tem da gente no exterior, está na hora também de a gente tentar ver as diferenças. Hezbollah e Al Qaeda, por exemplo, são inimigos. Tu sabias, por exemplo, que o Hamas condena ataques suicidas em qualquer lugar do mundo, com exceção dos territórios ocupados?
Onde nós, jornalistas, ficamos nisso tudo?
Olha, eu não estou aqui fazendo apologia do Hezbollah, mas por que é que os crimes israelenses são vistos como efeitos colaterais e as ações do Hezbollah são consideradas terrorismos? Por que é que um uniforme dá mais legitimidade à violência? Nós temos a obrigação de fazer essas perguntas.
Respondê-las também?
Temos a obrigação de toda vez que Israel falar que o Líbano precisa cumprir a resolução 1559 que pede o desarmamento do Hezbollah lembrar que Israel não cumpre mais de 60 resoluções da ONU. Não podemos deixar de questionar. Tanto de um lado como de outro. Não vale ficar dando o argumento israelense, mesmo quando falacioso, sem mostrar ao telespectador ou leitor a falácia de tal argumento. 





