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Bruno Dallari: "Programas edificantes não têm audiência".

Bruno Dallari: "Programas edificantes não têm audiência".

Atualizado em 25/10/2005 às 13:10, por Redação Portal IMPRENSA.

Bruno Dallari: "Programas edificantes não têm audiência".

O excesso do uso dos palavrões nas rádios e TVs norte-americanas fez com que o Senado Federal do país discutisse regras mais rígidas, como forma de inibir a prática. Além das regras, está em discussão a aplicação de uma salgada multa para quem infringir a lei.
Para analisar o tema e avaliar se existe excesso de palavrões na mídia brasileira, IMPRENSA ouviu Bruno Dallari, professor de Lingüística da PUC - SP. Confira.

IMPRENSA - Há exagero no uso do palavrão na mídia brasileira?
Dallari -
Não. O uso do palavrão na mídia - nas telenovelas, por exemplo - ainda é muitas vezes inferior ao seu emprego na linguagem coloquial. A sua exclusão fazia com que as falas dos personagens soassem artificiais, aos ouvidos do espectador. Além disso, muito do que era considerado como palavrão já está trivializado. Nos diálogos entre pais e filhos são usados normalmente termos como "merda" ou "estou de saco cheio" e mesmo "tô fudido!" ou "filha da puta!", como interjeição. Isso seria impensável há 30 anos, quando as crianças eram severamente admoestadas se falassem palavrões e os adultos evitavam usá-los fora de contextos muito específicos. O palavrão perdeu, em larga medida, a conotação pesada que tinha e se incorporou ao léxico regular da maior parte dos falantes da nossa língua.

IMPRENSA - O que acha da censura às palavras consideradas de baixo calão?
Dallari -
Não faz o menor sentido. Há muitos usos de mau gosto ou apelativos do palavrão na mídia, mas daí a censurar vai uma longa distância. A censura se justificaria se alguém pudesse apontar um efeito realmente pernicioso do uso do palavrão sobre a sociedade, o que não é o caso. De qualquer forma, a censura não teria nenhum efeito sobre o uso do palavrão pelas pessoas - ninguém vai deixar de usar o palavrão só porque ele não aparece na mídia. Como eu apontei, a mídia está atrasada em relação ao uso real que as pessoas fazem do palavrão.

IMPRENSA - Este tipo de restrição pode oferecer perigo para a produção nas artes em geral?
Dallari -
As premissas ingênuas deste tipo de intervenção são as de que a mídia tem um papel decisivo na formação da consciência das pessoas e por isso, é preciso direcionar e formatar a produção midiática para formar o melhor cidadão possível. Ambas são equivocadas: as pessoas formam suas consciências antes e independentemente da mídia e fazem as escolhas dos programas a que assistem e dos jornais e revistas a que lêem a partir desta formação. Programas edificantes não tem audiência, a não ser que haja uma adesão prévia do público a eles. A história mostra a inevitável derrota destas abordagens. Ninguém pauta a sociedade.

IMPRENSA - Existe preconceito na sociedade quanto ao uso do palavrão?
Dallari -
Como eu disse antes, cada vez menos. Você não pode, por exemplo, falar "vá tomar no cu!", na maior parte dos contextos, mas já pode falar essa frase fraternalmente, entre amigos homens. A mudança lingüística absorveu a conotação pesada que os palavrões tinham, quando seu uso consistia numa grave ofensa.

IMPRENSA - Restringir o uso e disseminar multas e punições para os infratores seria a solução para evitar o excesso, como pretende o Senado americano?
Dallari -
Bem, eu não acredito em "excesso" e é realmente cômico imaginar um senador americano fazendo a tabela dos palavrões e de quantos usos configuram uma infração, com penalidades crescentes estabelecidas em dólares. Os EUA padecem de um enorme complexo pela diferença entre o que eles realmente são e um certo ideal que eles fazem de si próprios. Daí os surtos esporádicos de moralismo, visando suprimir esta diferença, o que, além de não funcionar, faz ainda mais mal a seu amor próprio. O Brasil é um país melhor resolvido a esse respeito.