Os tristes efeitos do empobrecimento cultural

Os tristes efeitos do empobrecimento cultural

Atualizado em 18/11/2010 às 17:11, por Lucia Faria.

Educação e cultura são coisas distintas. Estamos cansados de conhecer pessoas muito bem formadas, com profundo conhecimento acadêmico e do seu campo profissional, mas que são absolutamente nulas no aspecto cultural. Tecnicamente impecáveis, porém, só isso. Para quem atua em comunicação, tal postura é completamente inaceitável. No entanto, é fácil perceber um empobrecimento cultural, principalmente entre os brasileiros mais jovens.
Claro que os motivos são diversos. E começa com o descaso dos governos com a educação básica. Que me perdoem os que concordam com tal política, mas acho um despropósito a "progressão continuada" que começou com o governo Covas em São Paulo e permanece até hoje. Conheço uma pessoa que, mesmo cabulando (que termo antigo!) 30 aulas de Português, passou de ano sem problemas no Ensino Médio. Hoje cursa faculdade, que também entrou sem problemas no vestibular e à qual paga as prestações religiosamente em dia. A quem estamos enganando? Certamente, a nós mesmos.
Cultura é um bem que se conquista e que nos liberta da mesmice. Pensei nisso tudo após assistir a duas apresentações recentes e muito peculiares da Banda Sinfônica do Estado, formação erudita importante em São Paulo, com 20 anos de existência e com raras autoridades na plateia em toda sua história (sim, eles têm diploma, não cultura).
A pequena Luiza, de nove anos, pela primeira vez conseguiu permanecer atenta até o fim de um concerto, ouvindo a narração de Sherazade e suas Mil e Uma Noites junto com a orquestra. Dias depois, o mesmo grupo se apresentou na incrível Sala São Paulo, no deplorável Centro da cidade, com a banda de rock Dr. Sin. Muitas daquelas pessoas nunca tinham entrado numa sala de concertos, sequer tinham visto uma orquestra na vida. Este, no entanto, pode ter sido o primeiro de vários contatos. A descoberta do prazer de uma boa música. A sensação de pertencimento a um mundo novo, antes considerado tão distante. E não é. Apenas falta o hábito.
Amigo meu critica, com certo grau de razão, livretos romanceados vendidos nas bancas com títulos melados e cheios de intrigas de amor. Eu não. Prefiro que as jovens sonhadoras leiam isso do que nada. Quem sabe depois de algum tempo elas comprem o primeiro livro, o segundo, o terceiro....e por aí vai. Alguém tem de acreditar!