Os telegramas são só um ponto de partida, diz Natalia Viana, colaboradora do WikiLeaks
Os telegramas são só um ponto de partida, diz Natalia Viana, colaboradora do WikiLeaks
Atualizado em 14/01/2011 às 14:01, por
Ana Ignacio/Da Redação.
Pela primeira vez, além dos cinco grandes veículos internacionais que já são parceiros do WikiLeaks ( The New York Times , The Guardian , El Pais , Der Spiegel e Le Monde ), dois jornais brasileiros também estão com a entidade. Folha de S.Paulo e O Globo tiveram acesso aos cerca de 3 mil telegramas com conteúdo referente ao Brasil.
Natalia também comenta qual é a estratégia do WikiLeaks no lançamento das informações contidas nos telegramas, o que a entidade pensa sobre a editorialização dos conteúdos, qual a estrutura da organização e os motivos para o destaque do Brasil. Leia a seguir os destaques da entrevista:
Contato com WikiLeaks
Eu já tinha ouvido falar antes do lançamento dos documentos do Afeganistão. Já estavam fazendo um certo barulho, revelando documentos importantes e eu estava colaborando para o Center for Investigative Journalism, de Londres, e eles são próximos do WikiLeaks. Comecei a ver como eles funcionam. Fui conhecer mais proximamente, quando me fizeram o convite. Sou parceira deles, jornalista independente, ou seja, escrevo para vários veículos diferentes em vários países e parceira nesse lançamento, não faço parte da organização.
Jornalismo
Não é só colocar documentos no site. Mesmo que fosse, seria extremamente válido, mas não é só isso. A checagem dos documentos é parte fundamental desse trabalho, a proteção das fontes, que é a base de qualquer bom jornalista, e a estratégia de divulgação. Acho que, mesmo que fosse só divulgar os dados, o argumento de quem diz que não é jornalismo é muito fraco. É uma organização que checa os documentos, que tem critérios jornalísticos, ou seja, discute o que é importante ser trazido a público, o que as pessoas merecem saber ou não. Não é que qualquer documento que vai ser publicado. São só os documentos que mostram más condutas sérias de grupos, de empresas, de organizações criminosas. Já era jornalístico na sua essência, e agora está havendo o trabalho de escrever, que é o trabalho de reportar sobre esses documentos.
Divulgação e cooperação dos veículos
O sistema de divulgação é o seguinte. O WikiLeaks fez parceria com cinco grandes veículos do mundo e eles ficaram com todo o material [dos telegramas] - não cabe ao WikiLeaks definir o que vai ser pauta. Os outros lançamentos aconteceram da mesma forma, mas eles [veículos] definiram a pauta deles e o WikiLeaks colocou tudo no ar. Dessa vez não. Tudo está sendo colocado aos poucos também. Tudo que sai nos jornais está saindo ao mesmo tempo no site do WikiLeaks. É um acordo que exige seriedade profunda de todos os veículos porque eles podem querer desobedecer ou vender pra alguém porque eles têm acesso a tudo. Então o acordo é esse. Eles definem o que querem dar, mas não vão dar tudo de uma vez. Agora, dessa vez, é feito de uma maneira organizada, coordenada. É a coisa mais legal do mundo a cooperação de jornais rivais. Eu estou achando incrível. Folha e O Globo estão sendo cavalheiros. É uma indústria em que a competitividade é gigantesca, que a procura pelo furo é gigantesca, então é muito legal.
Pautas
O pessoal que pertence a organização que define, mas qualquer jornalista sabe o que é importante e o que não é, o que deve ser denunciado. A ordem das coisas também é discutida. Essa foi a única vez em que resolveram fazer uma estratégia de lançar aos poucos. O que eles definiram foi essa estratégia. Essa decisão foi tomada porque quando lançaram os documentos do Iraque eles lançaram muitos documentos, houve um boom e deu duas semanas e acabou. As pessoas pararam de olhar. Agora as pessoas perguntam por que aos poucos, por que esses veículos tiveram acesso. Mas tem um monte de coisa no site, vai olhar. É só investigar. É matéria básica do jornalismo, é só pegar e fazer reportagem. É ponto de partida. Isso tudo que está saindo, e da maneira que está sendo feito, não está tendo reportagem. Estão falando "documento diz isso. Tal pessoa nega, tal pessoa nega". Não estou falando que isso é ruim, mas ainda há um grande trabalho de reportagem pra ser feito depois disso. Todas as coisas que saíram, pelo menos a maioria, rende uma investigação. Falar que falaram é a notícia, agora não está havendo a reportagem que é o que eu faço. A reportagem não está sendo feita. Tem muito material pra fazer. A partir de agora, as matérias do WikiLeaks vão ficar cada vez mais diferentes das dos veículos. O WikiLeaks se interessa editorialmente por temas que tenham importância e relevância internacional. São perspectivas diferentes, cobrimos de maneiras diferentes, a tradição é diferente.
Inversão de papéis
Podia ser um grupo de pessoas muito malucas que roubam documentos e postam na web. Não é isso. É uma instituição organizada, as pessoas dão a cara pra bater, passa por um processo de checagem, está entregando seu material para veículos grandes, é um site com estratégia, é um site que entra em contato com o governo. O WikiLeaks não é irresponsável como as pessoas podem pensar que ele é. As pessoas usam um pouco o fato de não ser uma instituição tradicional de jornalismo como uma desculpa para perseguir. A organização conseguiu o capital simbólico para ser um sustentáculo confiável dessas informações. E uma das diferenças entre o site e as instituições é que, a gente sabe, elas têm um perfil político, relação com patrocinadores e o WikiLeaks não tem nada disso. É mais livre em vários outros sentidos. Não tem esse peso institucional que garante algumas coisas, mas tem mais liberdade também. É um momento de inversão da lógica. Porque os jornais estão dando, estão saindo na frente, mas não é exclusividade. Quem deu o furo é o WikiLeaks e não tem como fugir disso. O que os jornais tem é que eles conseguem ler com exclusividade.
Brasil em destaque
A estratégia era reunir jornalistas de várias partes do mundo. Só que eu fui chamada e uma das primeiras coisas que falei é que nosso cenário político vai mudar em 2011, apesar de ser um governo de continuidade, mudam ministros, senadores, deputados, governadores. Então há coisas que valeria a pena dar agora. O Brasil está despontando internacionalmente como um país importante, o Brasil tem um grande movimento de liberdade pela internet, o Brasil é um dos países com a história de software livre, tá no top de consumo de internet, tem muito hacker aqui e hacker não é um criminoso. É um país progressista no seu regime de internet, parece que agora há um projeto de lei que tenta reverter isso pra não ser tão progressista, mas pelo menos as pessoas envolvidas são progressistas. E tem uma outra coisa que o Julian falou pra mim que é o português. Ele queria matérias em português. Estou achando ótimo porque uma das coisas que eu faço é tentar melhorar o fluxo de informações que existe entre os nossos jornalistas e os jornalistas de outros países. O Brasil se tornando um país mais atuante, e ele esta com uma estratégia muito forte de internacionalizar suas empresas. As empresas estão ficando mais internacionais e o jornalismo não está acompanhando e precisa acompanhar.





