Os metais como progresso, artigo de Bruno Lara de Castro Manso*

Os metais como progresso, artigo de Bruno Lara de Castro Manso*

Atualizado em 23/07/2007 às 19:07, por Bruno Lara de Castro Manso e  estudante de jornalismo da Universidade de Sá/RJ*.

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"Sou brasileiro com muito orgulho, com muito amor". Foi comovente ver o entusiasmo e o patriotismo do público no Maracanã. É hora de esquecer o Renan, o escândalo na Petrobrás, o caos aéreo, a descrença nas instituições públicas e vibrar com o Pan-Americano. Como diz o comercial de um banco do Brasil, somos todos um só sentimento, uma só voz. Fizemos feio em 2006, depois da derrota para a França, mas chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar o seu valor.

Afinal, em um país onde um jogador de futebol é mito intocável, exemplo a ser seguido, nada mais justo do que depositar o status de herói aos atletas. Mesmo muitos deles preocupados unicamente com a própria ascensão, com a fama e o retorno financeiro, são estes quem devem representar o espírito Verde-Amarelo. Embora muitos deles tenham pouco estudo (às vezes contra a própria vontade), são os esportistas quem devem externar a essência brasileira.

Onde não há educação, o intelectual pouco representa, uma vez que o caminho do conhecimento é extremamente mal recompensado, haja vista o salário desses em comparação com alguns jogadores e técnicos de futebol. Quando penso na Noruega, logo me vêm à cabeça o filósofo Jostein Gaarder. Agora, aposto a minha coleção de latinhas que o primeiro pensamento de um norueguês ao lembrar do Brasil não será Zuenir Ventura ou Machado de Assis. O mundo inteiro nos conhece pelo Carnaval e pelos Ronaldos, do Milan e do Barcelona.

Há alguns dias, assisti ao programa Passagem Para, que contou sobre a vida de Cingapura. Quando o jornalista Luiz Nachbin perguntou à algumas crianças o que conheciam do Brasil, praticamente todas disseram: Ronaldo e Roberto Carlos (não o cantor, mas o lateral- esquerdo). Alguém imaginaria um grupo de garotos cingapurianos (com aproximadamente 5 anos) dizer: Érico ou Fernando Veríssimo? Nem as nossas crianças os conhecem muito bem!

Voltando para o Pan-Americano, se a imprensa outorga o título de salvador da pátria aos atletas, o nosso dever é concordar, ir aos jogos ou assistir em casa, vibrando como fez a multidão de 90 mil pessoas no Maracanã, em plena sexta-feira à tarde. Os salvadores merecem o nosso apoio, a nossa confiança para conquistar medalhas. É isso. Só queremos medalhas. Medalhas nos faz feliz. Medalhas são a nossa válvula de escape, mesmo que elas não fiquem expostas na nossa estante e não seja conquistada com o nosso suor. E olha que a gente não luta pelo primeiro lugar, porque este deve ficar com os EUA. O nosso desafio é contra o Canadá pelo terceiro lugar no quadro de medalhas.

Portanto, esqueçamos que o Senado anunciou a compra de treze televisores de plasma pelo valor de quase R$ 100 mil; que a Casa gasta mais de R$ 1 milhão com a segurança e moradia dos parlamentares, segundo pesquisa realizada pela ONG Contas Abertas; e que quase meio milhão será gasto nos próximos seis meses com o gramado e jardins do Senado. Esqueçamos tudo isso, porque quem almeja sediar uma Copa do Mundo e uma Olimpíada, precisa, pelo menos, fingir que a casa está organizada.

O jornal britânico The Times publicou, no último fim de semana, reportagem criticando a administração do Pan-Americano, denunciando a violência no Rio e a corrupção em geral no país. Se quisermos mais medalhas, vamos fazer vista grossa.

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Bruno Lara de Castro Manso
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