"Os jovens que cobrem cultura estão menos preparados do que deveriam", diz Clara Arreguy, editora do "Caderno C" do Correio Braziliense
"Os jovens que cobrem cultura estão menos preparados do que deveriam", diz Clara Arreguy, editora do "Caderno C" do Correio Braziliense
"Os jovens que cobrem cultura estão menos preparados do que deveriam", diz Clara Arreguy, editora do "Caderno C" do Correio Braziliense
PorMaria Clara Arreguy Maia é mineira, torcedora do Atlético Mineiro, atriz amadora e escritora. No entanto, não foi por sua atuação dos palcos ou pelo amor ao clube de Belo Horizonte que Clara ficou conhecida. Ela foi, por 16 anos, jornalista e editora no jornal O Estado de Minas e, há três, comanda a parte cultural do Correio Braziliense .
Em entrevista ao Portal IMPRENSA, Clara Arreguy conta como passou dos palcos às redações, quais são os desafios impostos pela mediação tecnológica na cobertura da área cultural, o trabalho com uma redação formada majoritariamente por jovens e como é estar à frente do caderno de cultura do diário da capital do país. Confira.
IMPRENSA - Você poderia nos contar um pouco de sua história?
Arreguy - Trabalhei por 16 anos e meio no Estado de Minas e lá eu ocupava a função de editora assistente de cultura. Nos dois primeiros anos eu trabalhei na área econômica e 14 na área cultural. Fui repórter, editora, editora assistente, crítica de teatro, cinema, editei cinema, editei o caderno "Pensar". Então, ao abrir uma vaga de cultura no Correio Braziliense , o diretor de redação me convidou para vir pra Brasília.
IMPRENSA - Quantos anos você tem de carreira?
Arreguy - Estou completando 20 de redação. De formada eu tenho 22. Me formei na Universidade Federal de Minas Gerais.
IMPRENSA -Quantas pessoas você comanda hoje?
Arreguy - Tenho uma equipe de nove repórteres e cinco subeditores.
IMPRENSA - Sei que você é bem envolvida com teatro...
Arreguy -Em Minas Gerais eu exerci a função de crítica de teatro durante 18 anos.
IMPRENSA - Isso faz com que você tenha uma certa propensão a cobrir esta área no caderno de cultura do Correio Braziliense ?
Arreguy - Pelo fato de conhecer teatro, talvez eu dê um pouco mais de espaço que um editor que conhecesse menos, mas não puxo a brasa para a sardinha do teatro. Na função aqui, a gente tem que equilibrar as áreas de cobertura. Procurar ser equânime na hora de distribuir a pauta entre cinema, teatro, televisão, música, literatura. Então, não dá para privilegiar uma área sobre outra, embora tenha áreas que são mais demandadas pelo leitor.
IMPRENSA - Como é a rotina do caderno?
Arreguy - A gente trabalha com vários cadernos. Temos o "Caderno C", que é um caderno diário que fecha às 20h. Exceto na quarta-feira, porque a edição de quinta fecha às 15h, e nas edições de domingo e segunda, que são antecipadas, o fechamento não é às 20h. A gente, além disso, edita um caderno que chama "Fim de Semana", que circula às sextas-feiras, com a programação, o roteiro do fim de semana, gastronomia, teatro. A gente também trabalha com o caderno de TV que circula aos domingos.
IMPRENSA - E como é a definição das pautas? Vocês têm um pauteiro? O repórter tem liberdade para se pautar?
Arreguy - Temos uma reunião semanal de pauta às segundas-feiras, em que todos apresentam sugestões e, nesse sentido, eles se pautam, mas não à revelia de uma definição conjunta. A gente ali propõe quais serão as matérias da semana, o que vai ser matéria de capa, distribui tudo e eventualmente as pessoas chegam... Claro que tudo é muito dinâmico, porque as coisas mudam do meio do caminho também, não é inflexível. Os repórteres falam: 'Ah, Clara, tem isso, me chegou aquilo, posso fazer?' Então, é tudo muito conversado. Claro que eu não tenho a pretensão de querer saber tudo sozinha. Ouço todo mundo. Mesmo porque não sou da cidade, estou aqui há três anos, então tenho uma necessidade de que as pessoas da cidade me tragam isso. Também as coisas que não estão acontecendo necessariamente no Plano Piloto, porque é muito grande, a coisa é muito mais que o Plano Piloto.
IMPRENSA -Como foi o processo quando você foi pra Brasília? Você teve que fazer alguma reciclagem para se adaptar à vida cultural local?
Arreguy -Esse processo foi natural. À medida que eu vim pra cá eu comecei a freqüentar as coisas aqui, a descentralizar. Procurei ir, ver, ouvir as coisas. É isso que eu procuro praticar na minha carreira e que eu demando dos meus repórteres, que vão nas cosias, que assistam as peças, as exposições, que vão ver os filmes, que leiam os livros, que se interem.
IMPRENSA -Você consegue ser ativa culturalmente falando?
Arreguy - Menos do que eu queria. A gente acaba ficando muito tempo dentro do jornal e não tem tanto tempo para ir [aos eventos e atividades culturais]. Procuro ao máximo ir. Não a badalação, as coisas que nos chamam, porque tem uma demanda muito grande por almoços, jantares, coquetéis. Mas o produto cultural mesmo.
IMPRENSA -Hoje, com a mediação tecnológica, a realidade é que se sai pouco da redação para a apuração. Como funciona isso no jornal?
Arreguy - É verdade. Eu acho que está cada dia mais preocupante. A gente faz muita coisa por telefone, muita coisa por Internet e perde-se um pouco o contato com a realidade lá fora. Um dos cuidados que a gente precisa ter é não se ater à pauta dada pela agenda, que é uma pauta que iguala todos os cadernos de cultura do Brasil, porque todos são o lançamento disso, daquilo. A gente procura ter, cotidianamente, uma pauta diferenciada com tendências locais, porque somos um jornal local e a gente não perde isso de vista. O que se está fazendo em Sobradinho, em Taguatinga, fora aqui do eixo central da cidade. Saindo da agenda, indo para a rua, indo aos locais, à produção nascente, efervescente, você sai dessa agenda unificada e vai conhecer a realidade. É inevitável, no entanto, que a gente atenda essa demanda da agenda. Por exemplo, ontem à noite, o Caetano Veloso deu uma coletiva pra lançar o seu CD. Como a gente vai fugir disso? A gente tenta também equilibrar isso, o nacional com o local.
IMPRENSA - Uma das coisas que se discute também nos cadernos de cultura é que eles têm de sair um pouco da agenda cultural para cobrir mais a área da política cultural...
Arreguy - Isso. Temos também essa busca de uma abordagem crítica, não só do produto cultural, mas a gente também procura aliar uma linguagem crítica à política cultural. Não ver a cultura só como produto e não só como política. A gente consegue menos do que gostaria, porque o espaço é limitado e o pessoal é limitado, numericamente falando. Eu gostaria de ter pelo menos um repórter pra tomar conta disso, então a gente corre um pouco atrás de assuntos como leis de incentivo, patrocínio cultural, a intervenção das estatais no patrocínio dos produtos culturais. O ideal seria a gente emanar essa discussão, e não ir atrás dela.
IMPRENSA - Mesmo porque vocês estão aí em Brasília...
Arreguy - É...mas isso, hoje, a questão das políticas de incentivo, do investimento das empresas estatais particulares, é isso que viabiliza a produção no Brasil inteiro. Em Brasília a gente está mais perto do Ministério, mas isso é no Brasil inteiro.
IMPRENSA - A sua redação é predominantemente formada por jovens? E se é, você acha que eles estão preparados para cobrir a área? Os jovens sabem falar de cultura?
Arreguy - Sim, é formada predominantemente por jovens. Eles estão preparados sim, se não, não estavam fazendo, mas menos do que deveriam. Porque hoje em dia não se tem tanta cultura de leitura, a formação é menos exigente. Mas o pessoal corre muito atrás. Eu faço questão de puxar eles também nisso, dar leitura, dar matérias de literatura, cortar um pouco a tendência à especialização. Essa é uma tendência que eu encontrei aqui muito forte, então, tem o rapaz que só faz música, o repórter que só faz rock, o que só faz samba, a que só faz artes plásticas. Eu venho de uma cultura mais generalista. Eu tinha um gosto pelo teatro, mas eu sempre fiz literatura, teatro, cinema, outras linguagens, até mesmo para não ficar uma pessoa limitada.
Encontrei aqui em Brasília um pouco essa tendência e venho tentando quebrá-la, não apenas junto aos repórteres que eu encontrei aqui, que tinham essa tendência, mas também na hora de ir substituindo a minha equipe eu busquei trazer pessoas mais generalistas e menos especialistas. Eu acho que essa questão da preparação é uma constante. Não existe uma pessoa que está pronta e a que não está pronta, você vai crescendo. Eu sinto isso na minha própria história, vim aprendendo, no convívio, nas matérias, nas leituras... uma matéria puxa uma coisa, você vai entrevistar uma filósofo, aí você busca ler um pouco de filosofia. É importante você não ficar parado na sua formação lá atrás na escola.
IMPRENSA - Você encenou algumas peças de teatro. Ainda desenvolve atividades nesta área?
Arreguy - Não. De jeito nenhum. Fiz teatro inicialmente na universidade, quando era estudante. Então era uma forma de militância política que a gente tinha na época, no final dos anos 70, nos tempos ainda da Ditadura Militar. Depois, fui estudar teatro e, ao fazer um ano de curso, de encenar uma peça como atriz amadora, aí constatei a completa inaptidão pro teatro (risos). Larguei depressa e voltei para a minha linguagem que é o texto escrito.
IMPRENSA - Quais são seus planos para o futuro?
Arreguy - Você lembrou do meu passado como atriz, mas não citou que também sou escritora. Então, no momento, eu tenho investido no texto escrito. Pretendo, no ano que vem, lançar dois novos livros. Já lancei dois em 2005...
IMPRENSA - O "Segunda Divisão" e "Fafich"...
Arreguy - Isso. E no ano que vem estou preparando mais dois. Novamente mais um sobre memórias e um de ficção...
IMPRENSA - O "Tempo Seco" e "Memórias para Esquecer"...
Arreguy - Exatamente! Então, invisto na minha carreira de jornalista. Como eu te disse, estou fazendo 20 anos de redação. Então, no plano pessoal, para eu manter o pique, não me cansar muito, porque a redação cotidiana é muito pesada, aquela história de matar um leão por dia é verdade. Às vezes, dois leões...Quarta-feira a gente mata um leãozinho e um leãozão, um de oito e um de 40 páginas. Isso é muito cansativo, então, o que faço para dar conta de manter meu vigor, meu entusiasmo pela função, é continuar sempre mesclando minha atividade como editora e como crítica e, como repórter, produzir também. Não ficar só na parte burocrática da função, que é trabalhar o texto alheio, mas também produzir meu próprio texto, estar sempre presente. Isso nos renova, nos dá mais gás para manter o trabalho mais burocrático. Então, invisto nisso e na minha expressão pessoal através da literatura.
IMPRENSA - Em seu site há várias menções ao futebol. Você é torcedora de qual time?
Arreguy - Do Atlético Mineiro. Gosto muito de futebol e o fato de um dos meus livros ser de futebol não é à toa. Aqui no jornal, uma atividade que mantenho sempre é, nos finais de semana, fazer plantão no esporte. Na copa do Mundo, no ano passado, eu fiquei cedida ao esporte, e na Copa do Mundo de 2002, fiquei cedida ao esporte no Estado de Minas . Então, tenho essa ligação com o esporte que é muito por paixão, mas também profissionalmente acaba que me envolvo.
IMPRENSA -Mas mais cultura do que esporte
Arreguy -Ahh, a Cultura em primeiro lugar.
Foto: Paulo de Araújo






