"Os jornalistas esportivos estão mais críticos que os veículos", diz Celso Unzelte
Louco por futebol, o jornalista e historiador Celso Unzelte é autor de 12 obras sobre o esporte.
Atualizado em 30/06/2014 às 11:06, por
Alana Rodrigues*.
Louco por futebol, o jornalista e historiador Celso Unzelte é autor de 12 obras sobre o esporte, entre as quais se destacam o “Almanaque do Timão” e “Santos: 100 anos, 100 jogos, 100 ídolos”. Com passagens pelas revistas Placar , Quatro Rodas e o jornal Notícias Populares, atualmente, é comentarista dos canais ESPN Brasil e apresentador do "Cartão Verde", na TV Cultura.
Sobre o jornalismo esportivo, Unzelte acredita que os profissionais estão mais críticos que os veículos. “Passamos por uma crise do modo como se enxerga o jornalista esportivo no país. Ele está muito voltado para o entretenimento”, explica. Em entrevista à IMPRENSA, ele falou sobre a cobertura esportiva, como avalia as manifestações pautadas contra a Copa e sobre novos projetos preparados especialmente para o megaevento.
Crédito:Adriana Vichi Para jornalista, legado da Copa serão as dívidas para o povo
IMPRENSA - Como você enxerga o jornalismo esportivo hoje? Celso Unzelte - Os jornalistas esportivos estão mais críticos que os veículos. Basta você ver que as denúncias mais recentes não foram feitas por veículos. Quem falou de escândalos de arbitragem em 2005 foi a Veja, quem fez uma entrevista com o Ricardo Teixeira foi a Brasileiros. O Lúcio de Castro também. Fez um documentário sobre a ditadura e o futebol, denunciou falcatruas no vôlei. Isso tudo é exceção.
O Lance! também tem uma postura crítica, mas editorialmente tem um espaço muito restrito para denúncia. A revista Placar historicamente foi uma revista de denúncia, não o é mais. Infelizmente, como a Globo também é sócia do negócio futebol, os jornalistas ficam mais amarrados para serem críticos.
Passamos por uma crise do modo como se enxerga o jornalismo esportivo no país. Ele está muito voltado para o entretenimento. Tivemos uma evolução no ponto de vista crítico do jornalista, mas perdemos muito espaço que, antigamente, tínhamos para expressar esse tipo de opinião.
Você acredita que há um noticiário na grande imprensa muito negativo sobre a Copa? Acho que é um noticiário realista quando ele tem espaço. Na verdade, essa cobertura não tem meio termo, as pessoas vão ter que optar. Quem quiser encarar o evento como entretenimento tem uma oferta muito maior, principalmente por parte da TV aberta. Quem quiser uma postura mais crítica, acaba apelando para TV por assinatura ou por veículos que não são necessariamente esportivos, ou espaços, como por exemplo, cadernos da Folha de S.Paulo , que são de análise da conjuntura política envolvendo o esporte.
Não tem um meio termo nessa história. Não é um tipo de cobertura exageradamente negativa. Ou não há essa cobertura, ou se omitem todos problemas. Às vezes, podemos ser até antipáticos para aqueles que gostam do futebol, como nós gostamos, mas é uma abordagem necessária e, antes de tudo, jornalisticamente, é preciso colocar a frente porque ninguém está inventando as coisas, elas existem.
Qual foi a Copa mais surpreendente para você? A Copa da minha vida é a de 1982. Eu tinha 14 anos. O Brasil montou sua grande seleção e acompanhava como torcedor. Essa é a Copa que eu vou morrer achando que devia ter ganhado. Eu nunca pude cobrir uma copa in loco porque está sempre na contramão dos meus destinos profissionais. Em 1990, eu era estagiário na revista Placar . Em 1994, fui para Quatro Rodas , então estava fora do futebol. Já em 1998, voltei para a Placar , mas aí já havia sido montado todo o esquema da Copa do Mundo que a revista fez de Paris e eu retornei para tomar conta da redação no Brasil. Em 2002, 2006 e 2010, fiz a cobertura na retaguarda, por sites, mas não diretamente.
Este ano você fará comentários? O “Cartão Verde” vai ter edições especiais depois de cada jogo do Brasil – é o que eu vou fazer de mais próximo em relação à cobertura efetiva dos jogos, embora tenha feito muitos projetos paralelos. Eu organizei, para a Editora Abril, um álbum de figurinhas envolvendo os personagens Disney para contar a história da Copa. Agora, será inaugurada a exposição “Futebol: Ufanismo e Resistência”, no Sesc Ipiranga, que fala da Copa de 1950, do período do golpe de 1964.
Como você avalia as manifestações pautadas contra a Copa? Se eu tivesse que definir uma palavra, eu chamaria de tardia. Não que elas não sejam válidas agora, mas para o efeito de não ter Copa ou um evento mais decente, pelo menos essas manifestações deveriam ter ocorrido há sete anos. Em 2007, quando houve uma caravana envolvendo governadores, cujo os estados nem foram escolhidos, estava todo mundo em Genebra, no dia em que foi anunciado que o Brasil seria sede da Copa do Mundo e infelizmente, quando o Ricardo Teixeira falou de parcerias público privadas e não se concretizaram, acabou se colocando muito dinheiro público nessa história e pouco dinheiro privado para obras privadas, então era naquele momento que a população deveria ter se manifestado.
Eu sou a favor das manifestações, não faço essa dicotomia, não demonizo o futebol, até porque por que adoro futebol, é meu ganha pão, acho que as duas coisa podem conviver. Como cidadão brasileiro, vou participar de manifestação e assistir jogo ao mesmo tempo. Acredito que as duas coisas não são excludentes. Até porque, é um momento em que o mundo inteiro está olhando para o país e nós temos que mostrar essa indignação.
Qual legado que a Copa vai deixar para o Brasil? Do ponto de vista prático, infelizmente, nenhum. Eu, como cidadão brasileiro, esperava mais estações de metrô, melhor acesso, no caso específico do estádio de Itaquera, no entorno um desenvolvimento mais rápido, mais imediato da zona leste. Isso tudo pode acontecer a médio e longo prazo, mas a Copa do Mundo vai começar com o estádio envolvido por um grande canteiro de obra. O legado na prática, vai ser de uma grande dívida pública, uma vez, que nós iremos pagar essa conta.
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*Com supervisão de Vanessa Gonçalves





