Os jornalistas e o japonês da quitanda

Os jornalistas e o japonês da quitanda

Atualizado em 06/06/2008 às 18:06, por Rodrigo Manzano.

Eu sempre me pergunto por que não há japoneses nas redações. Tudo bem, se lembrarão da Thais Oyama, da Veja , do Régis Andaku, do UOL (os dois de Tupã, onde cresci) e do Matinas Suzuki Jr. Eu mesmo não tenho muitos amigos jornalistas, mas, dentre eles, há duas descendentes: a Thais Kato e a Suzana Sakai. Vez ou outra, esbarramos com algum sobrenome com ípsilons e dáblius nas assinaturas das matérias. Se as estranhas letras (agora incorporadas ao nosso alfabeto, segundo a reforma ortográfica) não garantem as ancestralidades dos repórteres, pelo menos sinalizam as possibilidades.

Tom Zé - que não tem olho puxado - reconhece sua face japonesa. Ele vive dizendo, em entrevistas, que não é gênio, ao contrário do que afirmam por aí, mas japonês. Ele explicou a frase no bate-papo com convidados do UOL em novembro do ano passado: "sou daqueles que precisa estudar muito para passar no vestibular. Caetano e Gil são gênios e fazem canções com uma facilidade incrível. Para que eu componha seis compassos, sofro muito e preciso de bastante disciplina". O Tom Zé, baiano de Irará, é tão japonês quanto o imperador Akihito.

Muito se discute sobre as deficiências do nosso jornalismo, sobre a qualidade do noticiário, cada vez mais decadente, sobre a falta de invenção e de criatividade, sobre a preguiça de apuração. Já tentei várias teses para traçar diagnósticos da nossa imprensa. Com meus alunos, inclusive, chegamos até a sofisticadas teorias da conspiração que nos ajudassem a entender a falência dos jornais. Pois bem, essa é minha última tentativa, a hipótese derradeira: o jornalismo vai mal porque faltam japoneses nas redações. Eu sugiro uma política de povoamento das equipes de trabalho, uma espécie de lei de cotas nipônica: um japonês por redação, pelo menos.

Explico: você já viu o japonês que trabalha na quitanda? Não me refiro a um japonês em particular, mas a todo e qualquer japonês que seja proprietário de uma pequena quitanda. Pode também ser uma pastelaria, ou tinturaria, não importa. O comércio do japonês sempre se reveste de uma aura sacrossanta, um selo invisível de eficiência, de disciplina, de fidelidade ao pacto inicial. Vá à feira e faça um teste: as barracas de pastel dos japoneses sempre são mais cheias que as de não-descendentes. Sempre. Se eu tivesse uma barraca de pastel, contrataria um japonês como atendente, porque só assim ela seria bem-sucedida. De preferência, que ainda falasse com o carregado sotaque ancestral. Lá em Tupã, onde eu passei minha infância e juventude, há muitos japoneses. Eu mesmo fui amigo de vários na minha adolescência, mas de repente, perto dos 18 ou 19 anos, os japoneses sumiam. Era como se fossem abduzidos, seqüestrados, ou tivessem morrido de mal súbito. Simplesmente desapareciam. Era um mistério. Até que descobríamos: todos eles tinham passado no vestibular e se mudado para outra cidade, numa universidade pública super concorrida. O meu maior medo na época das provas de vestibular não era as perguntas de Química Orgânica. Eram os japoneses. Quando fiz o vestibular, perguntava para os japoneses que eu encontrava se por um acaso eles iriam prestar a prova para Jornalismo. Nenhum faria. Acho que, apenas por isso, eu passei numa universidade pública. Por falta de concorrência com os japoneses.

Eu fico imaginando se as redações fossem invadidas por japoneses ou descendentes. Vários deles espalhados, trabalhando silenciosamente como o japonês da quitanda. Tenho certeza que eles chegariam muito mais cedo que nós. Às 5h00 da manhã, pelo menos. Não, não é uma piada. Estou falando a sério. O jornalismo precisa de uma revolução dessa categoria. Profissionais mais detalhistas, chegando mais cedo, mais disciplinados, mais pontuais e menos vaidosos. Só assim a imprensa recuperaria o mesmo prestígio que tem a barraca de pastel da dona Matiko.

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Ninguém pode reclamar que faltam efemérides em junho. Pelo menos duas delas têm movimentado nossa capacidade de lembrar do passado, de prestar homenagens, de contar histórias. No dia 02, comemoramos os 200 anos da imprensa no país. E, no dia 18, todos os olhos vão se voltar aos 100 anos de imigração japonesa no país. Vejam só se não é conjunção astral.

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N.A .: Além da editora executiva do Portal, Thaís Naldoni, outros dois leitores da minha coluna semanal (os únicos, imagino) perguntam por que eu demoro tanto a escrevê-las. Não sei.