Os jornais carnavalescos
Os jornais carnavalescos
O Carnaval sempre foi um bom negócio para o comércio, mas também para a mídia que cedo descobriu o seu potencial mercadológico, ainda no século XIX , desde o lançamento do "Facho da Civilização" (1871) na capital do país, a primeira de centenas de publicações impressas e veiculadas no período das festas consagradas ao Rei Momo. Não apenas no Rio de Janeiro, mas também na Bahia, no Recife, Fortaleza , Belem e Santa Catarina... O carnaval era nas suas origens manifestação espontânea com o lundú como gênero musical preponderante. Mas logo achamos de adotar um modelo similar ao de Veneza com seus foliões mascarados e o desfile pelas ruas da cidade em carros alegóricos. Em nosso caso, adaptados em pranchas de bonde que era esse o único veículo de grande porte existente na época.
Nesse contexto o comércio logo desenvolveu uma gama de produtos específica para o Carnaval: confetes e serpentinas, máscaras e adereços, fantasias, sapatos e sapatilhas, sombrinhas, chicotinhos e abanos... mais tarde veio a indústria com seus lança-perfumes de cheiro semelhante ao "L' air du temps" de Nina Ricci, a matéria prima era o cloreto de etila e uma base de violeta sintética. Produtos estes fabricados pela Rhodia e pela Bayer. A mídia popularizou marcas como Alice, Rodo, Flirt, Rigoletto, dentre outras. O lança perfume cumpria o papel de preliminar da paquera, o flerte embalado numa fragrância que narinas mais sensíveis um dia acharam de cheirar e deu no que deu. Nos anos vinte a indústria de bebidas alcoólicas descobre o filão e com ela a indústria do fumo e o Carnaval que era uma brincadeira torna-se "bussines" e daí por diante um commodite midiático, a partir da década de 80 exportado para o mundo.
Fenômeno brasileiro
O fato é que o nosso país foi o único no mundo a desenvolver uma mídia específica para as festas de momo. , segundo José Ramos Tinhorão que catalogou 176 títulos no seu livro " A imprensa carnavalesca no Brasil", é um fenômeno exclusivamente brasileiro; o pesquisador faz a ressalva em relação a Portugal onde encontrou entremeses editados em linguagem e folhas de cordel durante o século XVIII, com o entrudo como tema. Muito distantes, contudo, quanto à forma, conteúdo e intenção da imprensa periódica tupininquim, caracterizada justamente pela variedade temática. Na Bahia, onde resido, tive a oportunidade de pesquisar em torno de vinte periódicos do gênero, chama a atenção o seu apelo mercadológico muito forte, alguns assumidamente comerciais, ostentando o título da casa comercial patrocinadora. Tiragens, reais ou superdimensionadas, de até 100 mil exemplares, segundo informa o expediente.
Essa imprensa carnavalesca em formato de jornal ou revista, ou mesmo folha avulsa semelhante ao panfleto, tinha periodicidade condicionada à festa. Circulavam uma ou meia dúzia de edições, sempre no período momesco. Antes (a maioria)durante, e até depois. Mas, enquanto a mídia periódica específica (em sua maioria de distribuição gratuita) reinava soberana e tinha um foco comercial ou de entretenimento bem definido, a grande mídia aos poucos descobria que a festa poderia lhe render bons lucros. E esse lucro veio com a publicidade (anúncios de bazares, lojas de moda, cigarros, cerveja, vinhos, remédios para dor de cabeça, instrumentos musicais, rádios e radiolas e sua versão toca-discos ...) E a partir dos anos 70 com a formatação do próprio produto em formato de espetáculo para venda interna e externa.
No século XIX e inícios do século XX os títulos carnavalescos reportavam-se a blocos ou símbolos da festa que já era assumidamente pecado. Nomes como Farpas Fenianas, Deus Momo, Esmeralda, Diabo da Meia Noite, Azucrim, O Diabinho, Bocaccio, Chichisbeo, Echo da Tagarelas, Troça, Risada, Espirro, O Dedo, A Matraca, Casa da Sogra, O Liso, A Rosca, Mephisto, O Urubu, O Aranha, O Corta-Jaca, É Da Pontinha, O Amor Tem Fogo, Rabo Escondido...
Hoje o gênero não mais existe. O seu conteúdo foi incorporado por jornais, revistas e sites, num outro contexto, onde prevalece o culto à personalidade e o marketing de relacionamento como pilares da informação-entretenimento. E como no passado continuamos a ser um fenômeno midiático em relação ao tema: nenhum outro carnaval do mundo tem o generoso espaço na mídia que o Brasil disponibiliza a leitores, ouvintes e telespectadores.






