Os eternos lábios de mel de Iracema / Por Danilo Amaral - FANOR (CE)
Os eternos lábios de mel de Iracema / Por Danilo Amaral - FANOR (CE)
Atualizado em 13/07/2005 às 16:07, por
Danilo Amaral e estudante de jornalismo da Faculdade Nordeste.
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Neste ano, comemoram-se os 140 anos da obra mais famosa do escritor cearense José de Alencar, Iracema - a virgem dos lábios de mel
Os lábios da índia Iracema parecem que não perderam o seu brilho e o sabor do mel. Já se passou 140 anos da mais famosa criação do cearense José Martiniano de Alencar (1829-1877) e ela permanece no imaginário do povo cearense mais do que nunca.
As várias estátuas em homenagem a índia espalhadas pela cidade de Fortaleza, sendo a da lagoa de Messejana - considerada por muitos, a mais bela de todas - não deixa que a indígena da tribo dos tabajaras, caia em esquecimento. Seja pela obra literária propriamente dita, seja pela mídia de massa que cria personalidades repentinas - caso da cearense big brother Natália Nara, que emprestou seu corpo para modelo da estátua que enfeita a já citada lagoa -, a índia dos cabelos mais negros que as asas da graúna, como metaforiza o escritor, vai permanecer como um dos mais fortes símbolos das terras alencarinas.
"Eu lembro bem dela. Para falar a verdade, até minha professora de literatura falar que aquilo tudo do livro era uma ficção, eu achava que a estória era verdadeira. Na época eu tinha uns 14 ou 15 anos", declara a vendedora Ana Lúcia Paiva, 29, ex-moradora de Messejana, terra de nascimento de José de Alencar e também de Iracema. "Lembro também que a minha professora dizia que a índia Iracema possuía pernas grossas, porque ia de Messejana para banhar-se na Bica do Ipú. Ora, essa bica ficava lá na praia", admira-se Ana.
"Sem dúvida alguma é uma imagem que cresceu e permanece. Essa permanência se deve pela multiplicidade de sentidos que a imagem tem", analisa Régis Lopes, professor do Departamento de História da Universidade Federal do Ceará (UFC) e diretor do Museu do Ceará, local, aliás, para encontrar várias representações da índia. "Essa presença - a da índia Iracema - têm vários significados. A(estória já foi transformada em cordel e isso mostra exatamente que nós estamos diante de um romance que é também uma poesia. Não é a toa que o João Martins de Atayde (poeta e editor pernambucano, morto em 1959), fez uma versão em cordel. A imagem que permanece não é uma imagem única", ressalta o professor.
O autor e o livro, lançado em 1865, foram merecedores de críticas positivas. Dentre elas está a que Machado de Assis faz a Alencar: "nenhum escritor teve em mais alto grau a alma brasileira". (veja também o Box)
Alencar e a sociologia de um povo
O romance de José de Alencar pode mostrar mais que o belo e terno, porém sofrido e tenso romance da bela índia e o conquistador português Martim. Pode-se ler também a idéia do autor em criar as fundações de uma nação. "É importante salientar que o Alencar quer criar para nós o mito-fundador. Esse mito-fundador romântico não é um mito pacífico", diz Régis Lopes. "A Iracema sofre e 'morre' de saudades. O seu leite materno, por exemplo, em certa ocasião, se transforma em sangue. O que ele está querendo é criar esse mito trágico. Está claro que não foi uma coisa pacífica. Você lembra o que a Iracema fez com o futuro esposo? Ela atira uma flecha que é inserida no rosto dele! Isso é um detalhe fundamental para dizer que o primeiro contato foi extremamente tenso e essa tensão continua", enfatiza Lopes.
Talvez, a tensão retratada no livro quando do contato da índia com o português, que de forma geral aconteceu entre o europeu e o nativo, durante os primeiros séculos da história brasileira, perpetua-se hoje em nossa sociedade. "Eu acredito que o grande preconceito que existe hoje, é em relação ao pobre; seja ele branco, índio ou negro. A questão central é a de classe e não mais a de raça. Quem é assassinado no Brasil, não é o índio, não é o brando e nem o negro. É o pobre. O pobre índio, o pobre branco e o pobre negro.", sentencia o historiador.
Veja algumas críticas sobre a obra 'Iracema'
de Machado de Assis: "O espírito de Alencar percorreu as diversas partes de nossa terra, o Norte e o Sul, a cidade e o sertão, a mata e o pampa, fixando-as em suas páginas, compondo assim com as diferenças da vida, das zonas e dos tempos a unidade nacional da sua obra".
de Rachel de Queiróz: "Peri, Ceci, Iracema, são parentes, são amigos, são figuras vivas. Com toda a falsidade do seu indianismo romântico, o fato é que o povo não as acha falsas, ama-as e as aceita como perfeitas. Aparecem nas toadas sertanejas, nas canções de carnaval, nas anedotas, na coreografia, estão definitivamente incorporadas ao folclore, são fantasmas permanentes nos sítios onde passaram a suposta vida. Mormente Iracema. Porangaba ainda é hoje a "lagoa onde Iracema se banhava"; e a praia onde a tabajara penou e morreu é a "praia de Iracema". Ninguém fala nas praias do Ceará sem citar os "verdes mares bravios"...."Rápida como a ema selvagem"... "cabelo negro como a asa da graúna... Não, não há que negar a imortalidade dos tipos que Alencar inventou."
Neste ano, comemoram-se os 140 anos da obra mais famosa do escritor cearense José de Alencar, Iracema - a virgem dos lábios de mel
Os lábios da índia Iracema parecem que não perderam o seu brilho e o sabor do mel. Já se passou 140 anos da mais famosa criação do cearense José Martiniano de Alencar (1829-1877) e ela permanece no imaginário do povo cearense mais do que nunca.
As várias estátuas em homenagem a índia espalhadas pela cidade de Fortaleza, sendo a da lagoa de Messejana - considerada por muitos, a mais bela de todas - não deixa que a indígena da tribo dos tabajaras, caia em esquecimento. Seja pela obra literária propriamente dita, seja pela mídia de massa que cria personalidades repentinas - caso da cearense big brother Natália Nara, que emprestou seu corpo para modelo da estátua que enfeita a já citada lagoa -, a índia dos cabelos mais negros que as asas da graúna, como metaforiza o escritor, vai permanecer como um dos mais fortes símbolos das terras alencarinas.
"Eu lembro bem dela. Para falar a verdade, até minha professora de literatura falar que aquilo tudo do livro era uma ficção, eu achava que a estória era verdadeira. Na época eu tinha uns 14 ou 15 anos", declara a vendedora Ana Lúcia Paiva, 29, ex-moradora de Messejana, terra de nascimento de José de Alencar e também de Iracema. "Lembro também que a minha professora dizia que a índia Iracema possuía pernas grossas, porque ia de Messejana para banhar-se na Bica do Ipú. Ora, essa bica ficava lá na praia", admira-se Ana.
"Sem dúvida alguma é uma imagem que cresceu e permanece. Essa permanência se deve pela multiplicidade de sentidos que a imagem tem", analisa Régis Lopes, professor do Departamento de História da Universidade Federal do Ceará (UFC) e diretor do Museu do Ceará, local, aliás, para encontrar várias representações da índia. "Essa presença - a da índia Iracema - têm vários significados. A(estória já foi transformada em cordel e isso mostra exatamente que nós estamos diante de um romance que é também uma poesia. Não é a toa que o João Martins de Atayde (poeta e editor pernambucano, morto em 1959), fez uma versão em cordel. A imagem que permanece não é uma imagem única", ressalta o professor.
O autor e o livro, lançado em 1865, foram merecedores de críticas positivas. Dentre elas está a que Machado de Assis faz a Alencar: "nenhum escritor teve em mais alto grau a alma brasileira". (veja também o Box)
Alencar e a sociologia de um povo
O romance de José de Alencar pode mostrar mais que o belo e terno, porém sofrido e tenso romance da bela índia e o conquistador português Martim. Pode-se ler também a idéia do autor em criar as fundações de uma nação. "É importante salientar que o Alencar quer criar para nós o mito-fundador. Esse mito-fundador romântico não é um mito pacífico", diz Régis Lopes. "A Iracema sofre e 'morre' de saudades. O seu leite materno, por exemplo, em certa ocasião, se transforma em sangue. O que ele está querendo é criar esse mito trágico. Está claro que não foi uma coisa pacífica. Você lembra o que a Iracema fez com o futuro esposo? Ela atira uma flecha que é inserida no rosto dele! Isso é um detalhe fundamental para dizer que o primeiro contato foi extremamente tenso e essa tensão continua", enfatiza Lopes.
Talvez, a tensão retratada no livro quando do contato da índia com o português, que de forma geral aconteceu entre o europeu e o nativo, durante os primeiros séculos da história brasileira, perpetua-se hoje em nossa sociedade. "Eu acredito que o grande preconceito que existe hoje, é em relação ao pobre; seja ele branco, índio ou negro. A questão central é a de classe e não mais a de raça. Quem é assassinado no Brasil, não é o índio, não é o brando e nem o negro. É o pobre. O pobre índio, o pobre branco e o pobre negro.", sentencia o historiador.
Veja algumas críticas sobre a obra 'Iracema'
de Machado de Assis: "O espírito de Alencar percorreu as diversas partes de nossa terra, o Norte e o Sul, a cidade e o sertão, a mata e o pampa, fixando-as em suas páginas, compondo assim com as diferenças da vida, das zonas e dos tempos a unidade nacional da sua obra".
de Rachel de Queiróz: "Peri, Ceci, Iracema, são parentes, são amigos, são figuras vivas. Com toda a falsidade do seu indianismo romântico, o fato é que o povo não as acha falsas, ama-as e as aceita como perfeitas. Aparecem nas toadas sertanejas, nas canções de carnaval, nas anedotas, na coreografia, estão definitivamente incorporadas ao folclore, são fantasmas permanentes nos sítios onde passaram a suposta vida. Mormente Iracema. Porangaba ainda é hoje a "lagoa onde Iracema se banhava"; e a praia onde a tabajara penou e morreu é a "praia de Iracema". Ninguém fala nas praias do Ceará sem citar os "verdes mares bravios"...."Rápida como a ema selvagem"... "cabelo negro como a asa da graúna... Não, não há que negar a imortalidade dos tipos que Alencar inventou."






