Os desafios do  Jornalismo Ambiental no Brasil

Os desafios do  Jornalismo Ambiental no Brasil

Atualizado em 24/08/2006 às 18:08, por Wilson da Costa Bueno*.

Os desafios do Jornalismo Ambiental no Brasil

O Jornalismo Ambiental em nosso país enfrenta inúmeros desafios. Eles se iniciam no processo de capacitação do jornalista que irá trabalhar na área, se multiplicam nos veículos da grande imprensa e estão associados, inclusive, à própria percepção de seu papel por determinados segmentos da sociedade.

O primeiro desafio está relacionado com o conceito mesmo de jornalismo ambiental, que obviamente deriva do conceito de meio ambiente que circula por aí. A maioria das pessoas (inclusive boa parte da imprensa) ainda assume que meio ambiente é algo distante e que está "lá fora": são as florestas, os animais em extinção, a marcha dos pingüins etc. A cobertura da mídia reflete este conceito equivocado e, muitas vezes, opta por pautar temas descolados da nossa realidade concreta, como se o meio ambiente não incluísse cada um de nós e como se cada um de nós não impactasse o meio ambiente em todo lugar e a todo momento.

A cobertura da mídia incorpora, portanto, um conceito cosmético, reducionista, positivista de meio ambiente, desvinculando-o do que ocorre ao nosso redor. Ela é insípida, insossa e inodora.

O segundo desafio diz respeito à tentativa deliberada de despolitizar o debate das questões ambientais. Ignorando que se trata de uma atividade jornalística e, portanto, focada no interesse público, o jornalismo ambiental que aí está descontextualiza os fatos e não consegue, quase sempre, contemplar os interesses que rondam esta atividade. Não percebe as conexões entre os problemas ambientais, o modelo de desenvolvimento econômico, o processo acelerado de globalização e o consumo desenfreado, estimulado, inclusive e principalmente, pelos meios de comunicação. Assume, assim, uma visão reformista e não revolucionária e tem escrúpulo em "colocar o dedo na ferida", não se indigna com a injustiça social, tolera a ausência de políticas públicas (para o tratamento e o destino do lixo, para o saneamento básico em geral, para a gestão dos recursos hídricos etc). Não estabelece vínculo entre a temática ambiental e a posse da terra, a insegurança alimentar e a cumplicidade entre o saber técnico e o poder econômico e político que mantêm os monopólios e os privilégios de determinados grupos na sociedade.

O jornalismo ambiental de" fachada" repete a mesma hipocrisia observada na divulgação das ações pontuais de responsabilidade social, rotulando como sustentáveis práticas condenáveis, como as que estão relacionadas com o uso intensivo de agrotóxicos na agricultura. Imagina que será possível, como apregoam os arautos da biotecnologia (certamente a serviço das multinacionais das sementes) matar a fome do mundo com os transgênicos, não percebendo que o compromisso maior (único?) destas corporações é com os acionistas e com o aumento dos lucros. Gostam de "royalties", não da vida.

Outro desafio do jornalismo ambiental está no sistema de produção jornalística, fragmentado em editorias (economia, ciência e tecnologia,) e que , por isso, enxerga a questão ambiental a partir de um olhar não abrangente. Esse fato explica a visão estreita dos editores de economia que confundem sustentabilidade com crescimento econômico e imaginam que o mundo, cada vez mais ameaçado, poderá ser salvo com soluções químicas, os transgênicos , a plantação de eucaliptos ou as hidroelétricas na Amazônia. São eles que, em função desta visão equivocada, denominam plantação de eucaliptos de florestas, sem se darem conta de que floresta é outra coisa , que tem valor em função de sua biodiversidade e pelo fato de permanecer em pé, portanto viva. Confundem floresta com um monte de árvores cujo objetivo final é a morte rápida transformadas em papel ou madeira para fins industriais. Da mesma forma, as editorias de ciência reduzem o jornalismo ambiental a uma instância técnica, privativa dos doutores e catedráticos da academia, muitos dos quais absolutamente comprometidos com a indústria química , a indústria da biotecnologia, os monopólios das sementes e da mecanização agrícola.

As questões ambientais, para esses segmentos da mídia, só podem (e devem) ser resolvidas por uma elite, os especialistas, com a exclusão correspondente dos menos favorecidos, os que não têm voz, como os povos da floresta, os agricultores familiares, os atingidos pelas barragens, os pescadores, os mateiros e todos aqueles que não dominam o discurso competente dos que se encastelam em ambientes refrigerados e vêem apenas, em seu egoísmo intelectual, o seu próprio umbigo , sua carreira, sua promoção pessoal,

Para a mídia de massa, o debate ambiental deve ser neutro, objetivo, como se aqueles que produziram, em tempo não distante, o agente laranja (que penalizou o povo do Vietnã), não hesitaram em praticar o suborno (vide o caso ocorrido na Indonésia) ou que vendem por aqui agrotóxicos proibidos em outros países fossem neutros e imparciais. Os mesmos que envenenam a mídia com publicidade enganosa, agem sempre nos bastidores, no "escurinho do cinema", visando criar uma imagem de defensores da natureza.

A cobertura do meio ambiente no Brasil sofre, finalmente, de duas síndromes importantes: a da "branca de neve" e a da "erva daninha". A primeira diz respeito à necessidade que a mídia tem de um beijo de príncipe (um crime ambiental de porte) para acordar de sua omissão recorrente com a problemática ambiental. A segunda tem a ver com a adesão ao argumento da indústria de insumos que estimagtiza como praga tudo aquilo que não tem valor comercial. Na prática, a imprensa brasileira, com as exceções de praxe, tem uma mentalidade "round-up", "transgênica", "celulósica", "mineradora", que joga contra a diversidade, as culturas locais, o saber tradicional e desqualifica as soluções simples.

As mídias ambientais legítimas (não aquelas que pregam o marketing verde e vêem o meio ambiente apenas como oportunidade de negócio) têm sido a saída para a democratização do debate das questões ambientais. O jornalismo ambiental brasileiro autêntico assume compromissos, é civicamente militante, não prega a neutralidade, é sempre vigilante. Cultiva a utopia e, como preconizava Paulo Freire, sabe que mudar é difícil, mas é possível.

* Wilson da Costa Bueno é jornalista, editor do site Agricoma - Comunicação em Agribusiness e Meio Ambiente, professor da UMESP e da USP. Diretor da Comtexto Comunicação e Pesquisa