“Os cabeças do golpe não foram os militares, mas os empresários”, lembra Carlos Chagas
Na madrugada de 31 de março de 1964, o jornalista Carlos Chagas não dormiu. Ele passou a noite em O Globo, do qual era editor de "
Atualizado em 02/04/2014 às 17:04, por
Jéssica Oliveira.
Na madrugada de 31 de março de 1964, o jornalista Carlos Chagas não dormiu. Ele passou a noite em O Globo , do qual era editor de "Política". Por volta das 8 horas da manhã, viu quando o almirante Aragão, comandante dos fuzileiros navais, chegou com alguns oficiais e disse ao secretário de redação Lucílio de Castro: “ O Globo , hoje, não circula, e nem amanhã. Só vai circular se São Paulo vencer.” Em menos de 24 horas, os militares, não só os de São Paulo, venceram: o presidente João Goulart foi derrubado. Era o início da ditadura no Brasil.
A terceira reportagem especial sobre o envolvimento dos meios de comunicação no golpe coloca em perspectiva o olhar de um ex-editor do jornal O Globo , veículo que inicialmente apoiou os militares. Três anos após o golpe, Chagas foi trabalhar com Costa e Silva, presidente que ventilou a ideia da reabertura política, mas que foi interrompido por um AVC e pela Junta Militar.
Não havia comunismo O jornalista é categórico. "Não havia comunismo nem intenção de dar um golpe do gênero". Antes, ele afirma, havia a vontade profunda do Jango de fazer as reformas agrária, tributária e educacional. “O Jango nunca foi comunista, ele era o maior proprietário de terras do Brasil naquela época. Mas ele tinha concepção social como o Getúlio Vargas e achava que tinha que passar à história como aquele que avançou nas reformas sociais”, lembra Chagas.
No entanto, querer fazer todas as reformas de uma só vez foi seu grande erro, segundo o jornalista. “Com isso ele despertou os crocodilos, que eram os setores conservadores, muito mais afetos aos seus privilégios, aos seus favores do que hoje”, afirma.
O jornalista recorda como o País ficou dividido entre os que queriam avançar nas reformas e os que diziam que a "Constituição era intocável". "Mais da metade do corpo social aceitava o Jango, mas, ao mesmo tempo, esse corpo social, ou seja, a classe média e trabalhadores, que queriam reformas, não queriam mexer nas instituições. Ele era pressionado pelos dois extremos", explica. "O clima foi se deteriorando e, obviamente, a maioria da classe média ficou do lado conservador", lamenta.
Para Chagas, o golpe não foi pensado pelos militares, mas pelos empresários que não queriam perder suas vantagens. "Há muito tempo já havia aquela coisa de 'o comunismo está aí, a Rússia vai tomar conta do Brasil’. Era tudo da boca para fora. Na realidade, quem tinha o poder eram os empresários através da imprensa, que era dominada pelas elites", diz. "Então a maioria dos militares passa de impedir que o Jango desse um golpe — que ele não daria — a querer derrubá-lo", acrescenta.
Mais erros
Chagas aponta ainda outros erros de Jango, como um discurso realizado semanas antes do golpe, em comício na Central do Brasil, no Rio de Janeiro. "Os outro oradores exigiram dele: 'ande para frente, faça as reformas, transforme o Brasil num país socialista'. Na hora de discursar ele não podia falar menos do que isso", recorda sobre o dia 13 de março de 1964.
Para o jornalista, esse discurso deu pretexto para a extrema-direita aproximar-se dos militares e fortalecer a mensagem dos Estados Unidos, "aquela conversa mole de 'o comunismo está aí, o mundo está dividido em duas partes, pertencemos à metade americana, temos que lutar contra..."
Outros deslizes apontados pelo jornalista foram a crise não contornada na revolta dos marinheiros e a escolha do novo Ministro da Marinha, que havia sido demitido após o episódio. Em busca de melhores condições de trabalho e de vida, os marinheiros se rebelaram e foram protestar no Sindicato dos Metalúrgicos em São Cristóvão, também no Rio. Contrário àquilo, o Ministério da Marinha enviou fuzileiros para tirar os marinheiros do prédio e prendê-los. Mas a missão foi um fracasso: aos poucos, os marinheiros sensibilizaram os fuzileiros e estes foram um a um aderindo ao grupo. "Foi uma festa, um espetáculo muito bonito de se lembrar", conta Chagas.
Alertado, Jango, que estava no Rio Grande do Sul, voltou ao Rio de Janeiro e propôs um acordo aos marinheiros para contornar a crise: eles se entregariam, voltariam aos seus navios e quarteis para identificação e seriam libertados. "Assim o Jango conseguiu pacificar aqueles mais de 500 marinheiros, que saíram exultantes: 'ganhamos, não fomos presos, não houve sangue'", recorda.
Quando os marinheiros foram agradecer a Deus em uma igreja católica, os padres fecharam as portas, demonstrando, segundo o jornalista, que a maioria da igreja, assim como os empresários e a imprensa, já tinha tomado partido. "Todos estavam jogando na rebelião e na deposição contra o João Goulart", afirma Chagas.
Após o acordo, os almirantes se declaram contra o Jango e não quiseram assumir Marinha, obrigando o presidente a buscar um ministro do tribunal marítimo, já reformado. Este, em seu discurso de posse, disse algo que colocou mais lenha na fogueira de Jango: "quanto custa detonar o capitalismo empedernido". Crédito:Divulgação Carlos Chagas era editor de política de O Globo Conspiração, traição e exílio
Dias depois da crise na Marinha, o jornalista conta que o general Mourão, de Juiz de Fora (MG), se declarou contra o comunismo e reuniu suas tropas para depor Jango. Ao presidente, o ministro da Aeronáutica sugeriu enviar aviões e "queimar todo mundo", ideia logo descartada.
Em vez disso, Jango enviou sua tropa para enfrentá-los. "Só que essa tropa já estava toda minada, conspirando. E o próprio general, que a comanda, adere à rebelião do Mourão, que naquela hora também já estava estourando em São Paulo, com o general [Amaury] Kruel, compadre do Jango e que até batizou seu filho", afirma. "Em questão de 24 horas, de 31 de março até 1º de abril, o Exército inteiro adere ao golpe", resume Chagas
Novamente no Rio Grande do Sul, Jango constata que lá também não há tropas para reagir e vai embora para o Uruguai. Ele morreu de infarto, aos 47 anos de idade, em sua fazenda, na Argentina, 12 anos depois de ter deixado o Brasil para se asilar no Uruguai. "Ninguém lamentou a fuga dele, não houve movimento popular pela sua volta, ele foi para o esquecimento", lamenta.
Crédito:Divulgação Livro foi lançado recentemente
Golpes dentro do golpe
Essa é a visão do jornalista, que acabou de lançar o livro "A ditadura militar e os golpes dentro do golpe: 1964-1969" (Editora Record). "Todas vez que os presidentes militares viam que iam perder alguma batalha política, eles mudavam as regras do jogo, davam um golpe dentro do golpe", afirma.
Para ele, o mais duro de todos foi dado em Costa e Silva, que governou de 15 de março de 1967 a 31 de agosto de 1969. Chagas trabalhou cinco meses com o general. "Ele me conhecia como jornalista e me chamou para ser porta-voz das notícias de abertura política. 'Os políticos te conhecem, vamos fazer a abertura devagar, para não irritar os radicais", recorda, sobre o convite.
Segundo Chagas, o presidente que assinou o AI-5 decidiu constitucionalizar o país de novo, "para não passar a história como outro ditador". 'Mas quando faltava uma semana para isso, ele teve um AVC. Esperava-se que o vice, o liberal Pedro Aleixo, escolhido pelos militares, assumisse e cumprisse a promessa. No entanto, a junta militar prendeu o Aleixo, usurpou o poder, e mentiu ao país dizendo que o Costa e Silva, que estava em estado de coma, tinha concordado com isso", lembra
A "mentira danada", segundo o jornalista, quase levou o país a uma guerra civil. Em seguida, os militares elegeram um novo presidente numa eleição direta - sem o povo. "Só votaram os generais, almirantes e brigadeiros das forças armadas. E ganhou o mais obscuro deles, o [Emílio Garrastazu] Médici. Aí é que o país entrou realmente numa decadência institucional profunda", define.
O apoio existiu, sim
Cinquenta anos após o início da ditadura, Chagas diz que soa um pouco falso dizer que todo mundo foi contra o golpe. "Nos primeiros meses, a população apoiou porque estava inoculada com a história que o comunismo estava vencendo. O negócio degringolou tanto, a vitória das forças reacionárias foi tão grande no país, prendendo todos que eram contra, que dois dias depois do golpe O Globo circulou normal. E não foi só O Globo , não, exceto o Última Hora, todos os jornais, televisões, rádios, aderiram. Manchetes como 'vitoriosa revolução democrática'...", diz.
A mudança de pensamento só veio quando o marechal Castelo Branco, que assumiu o lugar de Jango, foi descumprindo suas promessas de manter a democracia. Ele prorrogou seu mandato, deixou que cassassem outros, permitiu perseguição e prisão de estudantes, censura à imprensa.
"O país foi se cansando. Os presidentes militares, principalmente a partir do Médici, fizeram tanta grosseria, tantas coisas execráveis, que o povo, a opinião pública, os estudantes, os mais velhos, a própria imprensa foi mudando de posição. O povo foi para a rua contra a ditadura e não saiu mais", conta.
22 reportagens e um Esso Após o período trabalhando com o Costa e Silva, Chagas voltou desmoralizado ao jornal O Globo . "Voltei sujo feito pau de galinheiro", brinca. Mas como tinha visto de perto todo aquele período da briga dos generais, dos dias antes do golpe à tentativa de reabertura política, ele pediu ao chefe Roberto Marinho para escrever reportagens. A série de 22 matérias rendeu ao jornalista a conquista de um prêmio Esso e a recomposição na profissão. "Eu tive sorte", finaliza.





