Os boicotes e picuinhas editoriais da imprensa brasileira
Os boicotes e picuinhas editoriais da imprensa brasileira
Atualizado em 01/03/2011 às 18:03, por
Wilson da Costa Bueno.
Resgatando artigos anteriores, inclusive publicados neste espaço do Portal Imprensa, percebo que, desde longa data, tenho insistido na hipocrisia do argumento utilizado pela mídia brasileira - a defesa da liberdade de expressão - para contestar qualquer tentativa de regulação. É o que acontece neste momento quando se debate a necessidade de regular o marketing infantil, ou seja, de colocar um fim a esta avalanche de anúncios voltados para crianças e adolescentes e que estimulam o consumo não consciente e fazem a apologia de alimentos não saudáveis. É o que sempre ocorre quando os governos e a sociedade buscam impedir/punir abusos cometidos pela imprensa que, em muitos casos, se coloca como juiz supremo de empresas ou cidadãos, submetidos a verdadeiros "linchamentos morais".
A defesa da liberdade de expressão e da qualidade da informação nunca foi e nunca será o objetivo maior dos monopólios da comunicação em nosso País que, como assistimos no episódio da licitação para a transmissão dos jogos do Brasileirão em 2012, fazem o impossível para garantir privilégios, mesmo que, para isso, tenham que atentar contra a ética e o interesse público. A Record e a Globo em episódios deploráveis andaram "trocando socos" em seus telejornais como se fossem exemplos de ética e moral a serem seguidos, monopólios televisivos que se respaldam nos dízimos não transparentes e no triste espetáculo do Big Brother.
Na semana passada, mais especificamente no dia 22 de fevereiro, os dois jornalões paulistas (Folha e Estadão) contribuíram, tristemente, para ilustrar a sua falta de compromisso com a informação, ao reportarem um fato importante (pelo menos para eles).
Ambos os veículos noticiaram a obtenção de prêmios no Concurso da Society for News Design, tido como a mais importante premiação do design gráfico em todo o mundo. Mas, como era de se esperar, a cobertura dos dois veículos (em especial a do Estadão) foi parcial, contrariando os princípios básicos do jornalismo.
Ocorre que inúmeros jornais brasileiros foram contemplados neste concurso, o que deve ser saudado em virtude da importância da premiação, mas os jornalões resolveram não dar a notícia por inteiro, mas recortá-la, mantendo apenas aquilo que lhes interessava. Com isso, negaram aos seus leitores informações básicas, sonegaram escandalosamente alguns dados que, certamente, seriam de interesse de todos nós.
Sobretudo a postura do Estadão foi terrível, embora compreensível tendo em vista a mentalidade da sua direção e do editores que comandam sua linha editorial definitivamente, não alinhados com uma perspectiva moderna em termos de qualidade da informação. O jornal, que recebeu 5 prêmios neste Concurso, alardeou este fato com grande pompa em enorme reportagem na página A19. Descreveu cada peça premiada, mas se esqueceu de revelar um dado básico: outro jornal brasileiro, no caso a Folha, ganhou 10 prêmios no mesmo Concurso. Apenas citou que 11 outros veículos haviam recebido também prêmios e mais nada. Bico calado sobre o desempenho dos periódicos brasileiros. Convenhamos, está faltando informação nesta reportagem e a gente sabe a razão: o Estadão, pra não confessar que o principal concorrente havia sido melhor sucedido, sonegou a informação por completo de seus leitores. Ninguém ficou sabendo que a Folha ganhou 10 prêmios porque o Estadão se julgou no direito de sonegar esta informação.
A pergunta básica e óbvia é: Isso é correto? Lógico que não, por mais que alguém queira abraçar a tese de que ninguém deve fazer oba-oba do concorrente. Na verdade, essa idéia de ignorar o concorrente tem sido o motivo alegado por muita gente (particularmente jornalistas profissionais) para diferenciar o jornalismo de redação daquele praticado pelo jornalismo empresarial (que edita os quase sempre desinteressantes e propagandísticos house-organs). Ora, o Estadão agiu da mesma forma, esquecendo-se de que a grande imprensa não deve se confundir, em termos de postura, com as publicações de muitas empresas porque, em princípio, deveria ter outros compromissos com a circulação da informação.
E a Folha? Como se comportou no episódio? Da maneira esperada, ou seja, também fez alarde de suas conquistas (grande reportagem na página A6) mas , diferentemente do Estadão, não deixou de dizer que o seu concorrente havia ganho 5 prêmios, ou seja metade daqueles com que ela havia sido aquinhoada. Como se comportaria a Folha, se a situação fosse inversa? Ora, você tem dúvida de que agiria da mesma forma? Ela não deu todas as informações sobre a premiação dos brasileiros, em particular do seu rival, mas fez questão de deixar claro: tivemos o dobro de prêmios em relação a ele, portanto, palmas para mim.
A imprensa brasileira não se dispõe a cobrir os fatos com isenção e, apesar do discurso, não está nem nunca esteve interessada em agir assim. Vamos lá: está na hora de mudarmos o disco: não existem as pretensas objetividade e neutralidade no jornalismo porque, como temos visto pelo menos nos veículos que aí estão, a parcialidade é a tônica. Veículos e jornalistas têm seus filtros e vêem a realidade a partir de seus pontos de vista, interesses e compromissos. Circunstancialmente, suas coberturas estão sintonizadas com o interesse público e, neste caso é preciso reconhecer, prestam um importante serviço para a nação. Em muitos momentos (como a Globo no episódio das Diretas Já e do debate final entre Lula e Collor para presidência da República), a mídia agarra-se aos seus compromissos políticos e comerciais e dane-se a nação.
A imprensa faz sempre o jogo que lhe interessa e, felizmente, muitas vezes esse é o jogo que também nos interessa, mas, convenhamos, isso só acontece quando não estão na mesa determinadas cartas. Regular propaganda de bebidas, o marketing infantil, ou frear o incentivo ao descarte irresponsável (como no caso do lixo eletrônico) não é o que ela acha razoável, mesmo porque fazer isso seria mexer com o seu bolso. Apego à receita, independente de como ela é obtida, é o lema da mídia brasileira e aí a responsabilidade social, a sustentabilidade acabam indo mesmo pra cucuia.
Os empresários da comunicação gostam de julgar a responsabilidade social dos outros (dos governos, das empresas) mas fecham os olhos quando têm que contemplar o próprio umbigo. São "geneticamente" parciais porque têm o amor incontrolável pela grana em seu DNA. Eles têm o olhar vesgo e os ouvidos surdos, quando se trata de analisar as próprias mazelas e eles as têm e muitas.
A liberdade de expressão não deveria ser algo que se descarta toda vez que algum interesse particular ou privilégio devam ser preservados, não é peça de roupa que se possa trocar a qualquer momento ou sob qualquer pretexto. Mas a mídia, tenho afirmado isso, adota uma concepção muito particular de liberdade de expressão. Defende apenas a sua liberdade de expressão, mesmo que ela possa trazer prejuízos aos leitores, aos clientes, aos investidores, aos cidadãos, como no caso de emblemáticos linchamentos morais (você se lembra dos episódios da Escola Base e do Bar Bodega?).
É preciso desmascarar sempre a hipocrisia da mídia e evidenciar sua postura inadequada toda vez que ela afrontar a verdade dos fatos. O boicote à informação qualificada, as picuinhas editoriais, a visão estreita dos empresários da comunicação devem ser sistematicamente denunciados. Por trás das manchetes podem estar escondidos grandes interesses e eles é que ditam, na prática, o tom das coberturas. Olho vivo.
Em tempo 1: defender a regulação não significa aceitar que a imprensa seja submetida à censura (como ocorre com o Estadão neste momento em virtude da truculência de caciques políticos brasileiros) ou à violência de governos ou ainda à pressão de lobbies políticos e empresariais. Apenas julgamos que a imprensa não pode proclamar-se acima de qualquer suspeita porque, como todos nós, ela tem suas fraquezas e imperfeições
Em tempo 2: O fato de a imprensa livre ser fundamental para a consolidação da democracia não pode implicar tolerância com seus abusos, com sua disposição para defender privilégios que contrariam os interesses do País e dos seus cidadãos.

A defesa da liberdade de expressão e da qualidade da informação nunca foi e nunca será o objetivo maior dos monopólios da comunicação em nosso País que, como assistimos no episódio da licitação para a transmissão dos jogos do Brasileirão em 2012, fazem o impossível para garantir privilégios, mesmo que, para isso, tenham que atentar contra a ética e o interesse público. A Record e a Globo em episódios deploráveis andaram "trocando socos" em seus telejornais como se fossem exemplos de ética e moral a serem seguidos, monopólios televisivos que se respaldam nos dízimos não transparentes e no triste espetáculo do Big Brother.
Na semana passada, mais especificamente no dia 22 de fevereiro, os dois jornalões paulistas (Folha e Estadão) contribuíram, tristemente, para ilustrar a sua falta de compromisso com a informação, ao reportarem um fato importante (pelo menos para eles).
Ambos os veículos noticiaram a obtenção de prêmios no Concurso da Society for News Design, tido como a mais importante premiação do design gráfico em todo o mundo. Mas, como era de se esperar, a cobertura dos dois veículos (em especial a do Estadão) foi parcial, contrariando os princípios básicos do jornalismo.
Ocorre que inúmeros jornais brasileiros foram contemplados neste concurso, o que deve ser saudado em virtude da importância da premiação, mas os jornalões resolveram não dar a notícia por inteiro, mas recortá-la, mantendo apenas aquilo que lhes interessava. Com isso, negaram aos seus leitores informações básicas, sonegaram escandalosamente alguns dados que, certamente, seriam de interesse de todos nós.
Sobretudo a postura do Estadão foi terrível, embora compreensível tendo em vista a mentalidade da sua direção e do editores que comandam sua linha editorial definitivamente, não alinhados com uma perspectiva moderna em termos de qualidade da informação. O jornal, que recebeu 5 prêmios neste Concurso, alardeou este fato com grande pompa em enorme reportagem na página A19. Descreveu cada peça premiada, mas se esqueceu de revelar um dado básico: outro jornal brasileiro, no caso a Folha, ganhou 10 prêmios no mesmo Concurso. Apenas citou que 11 outros veículos haviam recebido também prêmios e mais nada. Bico calado sobre o desempenho dos periódicos brasileiros. Convenhamos, está faltando informação nesta reportagem e a gente sabe a razão: o Estadão, pra não confessar que o principal concorrente havia sido melhor sucedido, sonegou a informação por completo de seus leitores. Ninguém ficou sabendo que a Folha ganhou 10 prêmios porque o Estadão se julgou no direito de sonegar esta informação.
A pergunta básica e óbvia é: Isso é correto? Lógico que não, por mais que alguém queira abraçar a tese de que ninguém deve fazer oba-oba do concorrente. Na verdade, essa idéia de ignorar o concorrente tem sido o motivo alegado por muita gente (particularmente jornalistas profissionais) para diferenciar o jornalismo de redação daquele praticado pelo jornalismo empresarial (que edita os quase sempre desinteressantes e propagandísticos house-organs). Ora, o Estadão agiu da mesma forma, esquecendo-se de que a grande imprensa não deve se confundir, em termos de postura, com as publicações de muitas empresas porque, em princípio, deveria ter outros compromissos com a circulação da informação.
E a Folha? Como se comportou no episódio? Da maneira esperada, ou seja, também fez alarde de suas conquistas (grande reportagem na página A6) mas , diferentemente do Estadão, não deixou de dizer que o seu concorrente havia ganho 5 prêmios, ou seja metade daqueles com que ela havia sido aquinhoada. Como se comportaria a Folha, se a situação fosse inversa? Ora, você tem dúvida de que agiria da mesma forma? Ela não deu todas as informações sobre a premiação dos brasileiros, em particular do seu rival, mas fez questão de deixar claro: tivemos o dobro de prêmios em relação a ele, portanto, palmas para mim.
A imprensa brasileira não se dispõe a cobrir os fatos com isenção e, apesar do discurso, não está nem nunca esteve interessada em agir assim. Vamos lá: está na hora de mudarmos o disco: não existem as pretensas objetividade e neutralidade no jornalismo porque, como temos visto pelo menos nos veículos que aí estão, a parcialidade é a tônica. Veículos e jornalistas têm seus filtros e vêem a realidade a partir de seus pontos de vista, interesses e compromissos. Circunstancialmente, suas coberturas estão sintonizadas com o interesse público e, neste caso é preciso reconhecer, prestam um importante serviço para a nação. Em muitos momentos (como a Globo no episódio das Diretas Já e do debate final entre Lula e Collor para presidência da República), a mídia agarra-se aos seus compromissos políticos e comerciais e dane-se a nação.
A imprensa faz sempre o jogo que lhe interessa e, felizmente, muitas vezes esse é o jogo que também nos interessa, mas, convenhamos, isso só acontece quando não estão na mesa determinadas cartas. Regular propaganda de bebidas, o marketing infantil, ou frear o incentivo ao descarte irresponsável (como no caso do lixo eletrônico) não é o que ela acha razoável, mesmo porque fazer isso seria mexer com o seu bolso. Apego à receita, independente de como ela é obtida, é o lema da mídia brasileira e aí a responsabilidade social, a sustentabilidade acabam indo mesmo pra cucuia.
Os empresários da comunicação gostam de julgar a responsabilidade social dos outros (dos governos, das empresas) mas fecham os olhos quando têm que contemplar o próprio umbigo. São "geneticamente" parciais porque têm o amor incontrolável pela grana em seu DNA. Eles têm o olhar vesgo e os ouvidos surdos, quando se trata de analisar as próprias mazelas e eles as têm e muitas.
A liberdade de expressão não deveria ser algo que se descarta toda vez que algum interesse particular ou privilégio devam ser preservados, não é peça de roupa que se possa trocar a qualquer momento ou sob qualquer pretexto. Mas a mídia, tenho afirmado isso, adota uma concepção muito particular de liberdade de expressão. Defende apenas a sua liberdade de expressão, mesmo que ela possa trazer prejuízos aos leitores, aos clientes, aos investidores, aos cidadãos, como no caso de emblemáticos linchamentos morais (você se lembra dos episódios da Escola Base e do Bar Bodega?).
É preciso desmascarar sempre a hipocrisia da mídia e evidenciar sua postura inadequada toda vez que ela afrontar a verdade dos fatos. O boicote à informação qualificada, as picuinhas editoriais, a visão estreita dos empresários da comunicação devem ser sistematicamente denunciados. Por trás das manchetes podem estar escondidos grandes interesses e eles é que ditam, na prática, o tom das coberturas. Olho vivo.
Em tempo 1: defender a regulação não significa aceitar que a imprensa seja submetida à censura (como ocorre com o Estadão neste momento em virtude da truculência de caciques políticos brasileiros) ou à violência de governos ou ainda à pressão de lobbies políticos e empresariais. Apenas julgamos que a imprensa não pode proclamar-se acima de qualquer suspeita porque, como todos nós, ela tem suas fraquezas e imperfeições
Em tempo 2: O fato de a imprensa livre ser fundamental para a consolidação da democracia não pode implicar tolerância com seus abusos, com sua disposição para defender privilégios que contrariam os interesses do País e dos seus cidadãos.






