Opinião: Verdades que incomodam, por Vanessa Gonçalves
Fazer jornalismo é uma missão difícil. Requer cuidado, tato, atenção e, acima de tudo, ética. Reunir todas essas características na correriado dia a dia durante a apuração de uma notícia requer habilidade, que muitas vezes só conquistamos com a prática.
Outro ponto importante da profissão é ter faro jornalístico, boas fontes e acima de tudo, tino para saber a importância de uma notícia e o momento certo de colocá-la no ar. É um exercício diário, que requer do repórter e do editor um senso crítico apurado e afinado com o seu público.
Há três anos sou subeditora do Portal IMPRENSA e faço a cobertura dos bastidores da informação. Nesse período, descobri o quanto a profissão que escolhi é perigosa. A quantidade de ameaças e mortes que noticiei mostram que o glamour do jornalismo só está na cabeça de quem não sabe o que é ir a fundo na informação.
Na segunda-feira (2/2), recebi uma informação em off de uma fonte: o repórter Fábio Seródio deixava a rádio Jovem Pan após 26 anos para assumir a gerência de comunicação do Corinthians.
Para quem lida com o dia a dia da imprensa, esta notícia tem uma baita relevância e eu sabia o quanto seria importante colocar no ar a nota. Afinal, estamos falando de um jornalista tarimbado que iria tocar um departamento importante em um dos maiores clubes do país.
Como pede todo o off, passei a manhã apurando se a informação era verídica. Consegui comprovar com mais duas fontes o fato e a notícia entrou no portal.
Até aí, algo normal. Com a mudança de presidente no clube que deveria ocorrer no sábado (7/2), natural que houvesse mudanças em cargos deste nível. Algum mal nisso? Acredito que não.
Pois, para meu espanto, recebo um telefonema da minha diretora de Redação por volta das 14h, dizendo que o jornalista citado na nota havia telefonado para a redação refutando a notícia e colocando em xeque minha credibilidade. A alegação do colega é que nada daquilo procedia e que eu tinha "inventado" coisas, que era uma profissional "irresponsável" e que iria processar a mim e a empresa por causa do texto, caso ele não saísse do ar.
Expliquei como havia apurado a notícia e disse que não poderia revelar minhas fontes – algo que a Constituição me garante direito como jornalista –, mas que deixava a direção da empresa livre para tomar as medidas que achasse necessário.
Após o terceiro telefonema de Seródio, no qual ele perguntou para minha diretora "quem tinha me pagado" para dar aquela informação, que caso ele não arrumasse mais emprego a culpa seria minha e que eu pagaria por isso, resolvemos tirar o texto do ar para evitar uma ação judicial, e sugerimos a ele espaço para falar sobre o tema.
Obviamente, ele disse que eu havia sido irresponsável, que não havia nenhuma negociação no sentido dele assumir o posto no Corinthians, e que jamais ele quis tomar o lugar de outro profissional no clube (como podem ver no ).
Confesso que fiquei chocada. Em tempos onde políticos calam a imprensa com ações judiciais, jornalistas são mortos por denunciar corrupcão e extremistas decapitam profissionais por ódio à imprensa, jamais imaginei que um colega de profissão pudesse agir de tal forma por conta de uma notícia – verdadeira –, que ficou comprovada no início da noite do sábado (07).
Fico me perguntando o que o levou a agir dessa forma. Deve ter sido o fato de no texto eu ter usado as aspas das fontes, que diziam que ele sonhava com o cargo há anos e que tinha tentado isso nas gestões de Andrés Sanchez e Mário Gobbi, os últimos dois presidentes do clube. Ou talvez seja o fato de uma fonte dizer que havia dentro do departamento de comunicação uma rejeição ao nome dele, inclusive com uma movimentação para que ele não assumisse o posto.
Enfim, independentemente de qualquer coisa, creio que teria cabido ao novo gerente de comunicação do Corinthians o diálogo, não a ameaça. Ainda mais por se tratar de um profissional de rádio, que sabe como as coisas funcionam quando recebemos informações em off.
Eu jamais comprometeria – ou comprometerei – minhas fontes. Se elas pedem sigilo, assim será mantido. O que me entristece é a tentativa de ocultar a verdade. Qual o problema de informar que ele seria alçado ao cargo com a mudança de presidente do clube? Onde havia mentira no que eu escrevi após apurar com três fontes, duas delas inclusive de dentro do Corinthians?
Quando a notícia se confirmou, confesso que me senti aliviada, pois passei a semana inteira sendo chamada de mentirosa por seguidores do repórter nas redes sociais de forma injusta, ainda mais quando eu e o portal IMPRENSA, um veículo sério na apuração de notícias sobre o meio, fomos calados por ameaças.
Creio que depois disso caberia ao nobre colega desculpas a mim e ao veículo pela forma como fomos tratados. Sempre tivemos diálogo aberto com veículos e jornalistas e jamais tivemos de tirar uma nota do ar por ameaça como desta vez. E pior, por falarmos a verdade.
Um exemplo de nosso compromisso com colegas e a veracidade: quando Paulo Vinícus Coelho deixou a ESPN, ficamos sabendo dias antes. Entramos em contato com ele, que nos pediu para não publicar a notícia. Perdemos o furo para o Maurício Stycer. No entanto, nossa nota foi ainda mais completa, pois demonstrou que a saída dele tinha relação com questões internas e não apenas pelo desejo de cobrir a Libertadores no Fox Sports (veja no ). Se fôssemos um veículo irresponsável, poderíamos ter "melado" a transferência dele de canal. Fomos honestos e em nenhum momento corremos para dar o "furo" e ganhar cliques porque nosso compromisso é com a informação. Simples assim.
Espero que a atitude de Seródio tenham sido momentânea e que em algum momento ele tenha a humildade de confirmar o que de fato fez: tentou deixar a mim e ao veículo em descrédito. Torço para que ele tenha sucesso na nova função e que não use esse tipo de atitude na condução do novo cargo, onde jogo de cintura e paciência serão necessários para quem vai atender do outro lado do balcão.
De lição nisso tudo fica a certeza de que a verdade e a apuração são as maiores ferramentas de um jornalista; e serão elas que estarão ao meu lado sempre. Porque em plena democracia, ser tachada de mentirosa e irresponsável por um colega não é nada legal. Garanto a vocês. Agora, fim de papo de bola para frente.






