Opinião: Uma sombra sobre megaeventos esportivos
O Brasil deve desconsiderar a imagem de “país cordial” ao pensar na segurança da Copa do Mundo e dos Jogos Rio 2016. Há sim riscos de terrorismo, fanatismos e violência e o assunto pede atenção da sociedade e dos órgãos jornalísticos sobre o que vem sendo feito pelas autoridades públicas nessa área.
Atualizado em 17/04/2013 às 11:04, por
Redação Portal IMPRENSA.
Poucas coisas no mundo do esporte são tão simbólicas e amadas quanto uma prova de corrida. É a mística esportiva sendo revivida em tempo real: é praticamente um ritual religioso, como eram os Jogos Olímpicos da Antiguidade Grega. Por tudo isso, quando acontece uma tragédia como a dos ataques ocorridos na Maratona de Boston, no dia 15 de abril, com três mortos de quase duas centenas de feridos, a dor vai além dos corpos e famílias vitimadas, atinge a todos que amam a cultura desportiva.
A violência é o antiesporte, é antijogo. E quando ela surge em contexto mágico de celebração esportiva ela profana o ritual de festa e de conexão com o belo, o divino, trazendo para esse momento único a dor e tristeza. Inegavelmente nada é mais definitivo e custoso que a morte e ela finda o jogo, cessa a esperança que temos, ao amar os esportes, em ter um contexto com a perfeição e com a superação do homem.
A chaga aberta na Maratona de Boston deste ano fere todos que amam o esporte. Contudo, além da ferida, esse ato, ainda não totalmente compreendido e solucionado do ponto de vista criminal, abre o debate aqui no Brasil sobre a questão de como estamos nos preparando para a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos Rio 2016. Uma nova pauta - que já existia, mas estava mal posicionada – impõe-se agora: como vem sendo planejada a segurança dos nossos megaeventos esportivos?
Nós, brasileiros, não podemos pressupor que a violência do terror nos é alheia. Em um cenário geopolítico amplo, realmente, o Brasil é visto como um “país cordial”, não temos inimigos externos declarados, como acontece com os Estados Unidos. Talvez esse fator seja ainda mais perigoso: quando o inimigo não é declarado o risco pode estar em qualquer lugar.
A violência no esporte já teve muitos momentos trágicos antes de Boston, como nos dramáticos episódios dos Jogos de Munique 1972, com o terror adentrado até mesmo a Vila Olímpica e tirando a vida de atletas judeus. Bombas já foram detonadas também nos Jogos de Atenas, em 1996.
Para evitar tragédias que acabam com a mágica do esporte, a segurança precisa ser planejada e priorizada. No Brasil, além dos riscos de atentados e atos terroristas aleatórios, como exemplos apontados acima, temos a nossa violência diária, não menos trágica. Batalhas campais já fizeram mortes em estádios; do lado de fora das arenas, mataram torcedores em Fortaleza, na inauguração da sede local dos jogos da Copa do Mundo e da Copa das Confederações, que acontece muito em breve, em junho deste ano. O episódio de violência entre torcidas cearenses aconteceu um dia antes do horror em Boston e matou duas pessoas.
O assunto é árido e difícil para a cobertura jornalística, tem relação com o esporte, mas centra-se em política, segurança pública, legislação, tecnologia e polícia. Um desafio e tanto para os profissionais de jornalismo que precisam agendar na mídia esse assunto. Já passou da hora de a segurança dos megaeventos esportivos brasileiros ser debatida.
O horror e a violência, no mundo de hoje, não tem rostos tão óbvios. E nós, brasileiros, temos que parar de colocar o filtro “poliana”, ou seja, ver tudo com excesso de otimismo. Parafraseando Chico Buarque, o Brasil é “um pote até aqui de mágoas”. Não temos inimigos externos declarados, mas a violência de ocasião é infinita nos estupros em vãs, nos latrocínios sem motivo na porta de casa, no crime organizado e sabe-se lá o que mais...
Nem preciso lembrar que a mágica dos megaeventos é uma mágica imagética, criada a partir de recursos bilionários. Uma bala perdida ou uma bomba caseira (tragicamente baratíssimos!) podem manchar para sempre um trabalho que, apesar de caótico, esperamos que seja de festa e de muita comemoração esportiva. Para não ficarmos no “imagina na Copa”, o assunto pede atenção e prioridade agora.
Para ler outras opiniões do colunista, .





