Opinião: “Triste coincidência: DCI acaba dez anos depois do fim da Gazeta Mercantil”, por Wagner de Alcântara Aragão

Gazeta Mercantil faz uma falta tremenda... Tinha em Repórteres, assim mesmo, com “R” maiúsculo, sua maior força

Atualizado em 18/09/2019 às 14:09, por Wagner de Alcântara Aragão.

Comecei a semana com a tarefa de escrever meu artigo mensal para o Portal IMPRENSA. Tinha a pauta em mente, uma efeméride: os dez anos do fim da Gazeta Mercantil. Qual não foi a minha surpresa quando, ao me sentar para tecer estas linhas (que não seriam exatamente estas), li a notícia, aqui mesmo no Portal, do encerramento de outro diário clássico do jornalismo econômico, o DCI.
Que triste coincidência: em 2009, acabou a Gazeta Mercantil. Um decênio depois, ficaremos órfãos de outro título importante no ramo.
O fim do DCI, ao menos, contará com uma despedida. Os controladores do jornal anunciaram para o dia 23 de setembro a última edição do diário. Além disso, ao menos pelo que consta até o momento, a relação com os funcionários e os fornecedores parece ocorrer dentro da regularidade.
Crédito:Reprodução / Gazeta Mercantil Reprodução da capa da edição da Gazeta Mercantil em que se anunciava a transferência de controle e consequente encerramento
Já Gazeta Mercantil, dez anos atrás, teve um encerramento mais abrupto e traumático. Um dos mais significativos títulos da história do jornalismo no Brasil terminava de forma melancólica. Triste, para os leitores. Trágica, para funcionários e demais credores.
Gazeta Mercantil faz uma falta tremenda. Era um veículo de imprensa especializado em assuntos econômicos, caracterizado pela pluralidade de pontos de vista no noticiário, na abordagem, na análise. Tinha em Repórteres, assim mesmo, com “R” maiúsculo, sua maior força. Gente talentosa, competente, insistente na fidelidade à realidade factual, na caça de novidades, na busca por olhares diversos em torno de um dado.
Outra característica da Gazeta Mercantil era sua diagramação. Resistiu por muito tempo a inserir fotos – desenhos compunham boa parte das ilustrações -, e a aderir às cores. O aspecto sisudo, no entanto, não prejudicava de forma alguma a leitura – porque o leitor encontrava ali textos de qualidade, informações rigorosamente apuradas, dados checados.
Minha relação com a Gazeta Mercantil, até o início dos anos 2000, era meramente a de um leitor. Depois que ingressei na profissão de jornalista, atuando em Curitiba tive contato com repórteres da sucursal do jornal na capital paranaense, enquanto esta resistiu à crise e seus cortes. Mais experientes que eu, eram fonte de inspiração - pela atuação como profissionais e como colegas de trabalho.
Gazeta Mercantil deixou de circular aos 79 anos – pertinho, portanto, de se tornar octogenária. Em 29 de maio de 2009, a Companhia Brasileira de Mídia, então controladora do jornal, anunciava que transferiria o título ao antigo dono, Luiz Fernando Levy, e que não mais se responsabilizaria pela publicação do diário. Ficou por isso mesmo. Foi uma interrupção brusca. Sem direito a um tchau, uma despedida, uma edição oficialmente derradeira, como o DCI planeja agora.
Em 2016, a marca ressurgiu em novo formato, com ligeira alteração no nome – Gazeta Mercantil Experience. Não era, porém, a volta da Gazeta Mercantil velha de guerra. E não estamos a fazer nenhuma análise sobre a qualidade da sucessora, não é isso. Apenas se tratou de outra empreitada.
Gazeta Mercantil foi um dos vários títulos da imprensa brasileira que sucumbiram às novas formas de se consumir conteúdo noticioso, decorrentes da internet e mesmo da concorrência direta de novos jornais. O Valor Econômico, por exemplo, fruto de uma parceira à época entre Folha e Globo, abocanhara parte do mercado ocupado pela Gazeta Mercantil. Mesmo o DCI, revigorado em 2002, tinha sua fatia considerável.
A Gazeta Esportiva, outro diário tradicional, viu o Lance! avançar em seu campo, e parou de circular em 2001. Nesse ano foi o fim também do Notícias Populares e do Diário Popular, em nicho ocupado por outras publicações.
Quem me acompanha aqui no Portal IMPRENSA já leu que sou , creio na sua resistência, vejo futuro para esse tipo de publicação. Não, o impresso não vai acabar. Carece de se reinventar, encontrar seu rumo, e de uma conjuntura econômica e política mais favorável à subsistência como negócio. Um jornal com as características de Gazeta Mercantil faz falta, e certamente teria espaço em um novo tempo de mídia impressa.
Crédito:Arquivo pessoal * é jornalista e professor de disciplinas de Comunicação na rede estadual de ensino profissional do Paraná. Mestre em Estudos de Linguagens (UTFPR). Mantém um site de notícias ( ) e promove cursos e oficinas nas áreas de Comunicação e Cultura, sobre as quais desenvolve pesquisas também.