Opinião: Tenho certeza de que a confiança de Valdomira só foi dada porque ela se sentiu respeitada
Para chegar até Valdomira Vieira de Jesus, da zona rural do município de Senador Rui Palmeira (a 217 quilômetros de Maceió, AL), foi com mui
Atualizado em 29/04/2012 às 16:04, por
Silvia Bessa.
Respeito é bom e eles gostam
Crédito:Leo Garbin to custo. Primeiro, era preciso achar um bendito motoboy às 13 h no verão do Sertão nordestino; segundo, convencê-lo a subir o Alto do Couro e achar perdido no meio da Caatinga um agente de saúde que nos servisse de guia. Estávamos – eu, uma fotógrafa e um motorista – à procura de uma família, dona de uma das 19 cabras distribuídas pela prefeitura para garantir o leite dos meninos com menos de 5 anos de idade e desnutridos.Severino, o motoboy, nos levou ao encontro de Francisquinha, a agente de saúde. Ela rumou até a casa de Valdomira no lombo da moto. O carro ia atrás. O terceiro desafio era conquistar a confiança de Valdomira. A avó que virou mãe de Claudêncio e Fabrício, avistou o automóvel e se trancou com os filhos dentro da residência feita de barro já envelhecido e madeira pedindo para ser trocada.
Vendo Francisquinha pela brecha da porta, abriu devagarzinho. As duas ficaram lá por uns dez minutos. Foi quando assentou o lenço na cabeça e resolveu sair. Francisquinha tinha moral – é espécie de conselheira sentimental das famílias desse meio de mundo, consultora de quase tudo, até de nome de batismo.
“Pode entrar, doutora”, disse-me (no pensamento dela, jornalista é doutor). “Estou bem aqui. Posso sentar no seu terraço?”, indaguei. “Pode. A doutora me desculpe porque não tenho cadeira boa.” A cabra, que estava amarrada na única sombra do terreno, como um boi Nelore, ouviu o diálogo.
“Valdomira, não sou doutora. Só estou fazendo um trabalho para um jornal. É sobre a cabra. Já agradeço por me receber. A senhora fique à vontade, se quer conversar ou não.” Mais confortável diante das duas opções, de querer ou não querer conversar, envergou a coluna e se sentou na pedra ao lado da minha.
Começamos a falar da falta de chuva (como no Recife, que a gente inicia uma conversa no elevador falando como o tempo está quente), entramos na rotina da amiga Francisquinha, rimos da malsucedida escolha do nome Fabrício (que hoje é chamado de Felipe), passamos pela cabra e a determinação da prefeitura de que as crias da cabra, se fêmeas, seriam doadas para outras famílias. Chegamos à diferença que o leite faz para a alimentação dos meninos e terminamos por contar juntas quantos homens a abandonaram entre filhos, genros e amados. Foram cinco.
Havia vencido o quarto desafio. Valdomira entregou um dos seus maiores tesouros: sua confiança. Tenho certeza de que a confiança de Valdomira só foi dada porque ela se sentiu respeitada como fonte. Teve poder para decidir por contribuir ou não com a reportagem.
Também no jornalismo, confiança e respeito andam juntos
Coluna publicada na edição de abril (277) da Revista IMPRENSA






