Opinião: “Telhado desabando”, por Heródoto Barbeiro
O espírito corporativo remonta à Idade Média ocidental. Sua origem se deu nos burgos da Europa e se organizavam de acordo com as profissões
que exerciam. Assim a corporação dos sapateiros reunia todos os que sabiam ou queriam aprender a fazer sapatos. Reunia-se em torno de um chefe, o mestre, tinha santo padroeiro e bandeira. O mestre era o todo poderoso e podia decidir se um novo artesão seria ou não admitido na organização que, no Norte, era chamada de guilda. Ditava também o formato, o estilo, a qualidade do produto e o preço final. Ninguém poderia desobedecer a suas ordens sob a ameaça de ser posto para fora da guilda e não poder mais fabricar e vender calçados. Na prática era uma ditadura apoiada nos mestres mais velhos e que dominavam o mercado das pequenas cidades, que vendiam para as caravanas de comércio. Geralmente eram os pais que escolhiam em que corporação o filho iria se filiar. Começava como um verdadeiro escravo e passava muito tempo até que pudesse deixar a condição de aprendiz e se tornar um oficial. Todos tinham que ficar abrigados em uma oficina, uma vez que não se permitia o empreendedorismo. Abrir uma nova, nem pensar, a corporação vetava. A característica maior desse sistema era o imobilismo, não se cogitava enriquecer, afinal o capitalismo ainda não havia se estruturado, mas garantia o poder para um grupo organizado.
As corporações ganharam amplo espaço a partir do Estado Novo, durante a ditadura de Getúlio Vargas. O sistema foi inspirado no modelo implantado na Itália por Benito Mussolini, o líder da ditadura fascista. Na Itália era necessário ser filiado a um sindicato para exercer uma profissão. Tinha que ter carteirinha emitida pela corporação. Através dos sindicatos era possível controlar todos, vigiar os opositores e, se necessário, retirar-lhe a carteirinha e impedi-lo de trabalhar. No Brasil os operários e industriais foram confinados nos sindicatos e os conflitos mediados por Vargas. Era um plano para impedir a luta de classes, o motor da história e da revolução, segundo Marx. Os fascistas venceram os comunistas. Sem conflito não haveria o perigo. Nessa conjuntura fortaleceram-se as corporações com os nomes mais diversos: sindicatos, associações, ordens, conselhos, todos pendurados em duas argolas: de um lado as verbas públicas e de outro as mensalidades pagas pelos corporados. Era um preço justo, uma vez que a sigla corporativa garantia determinados privilégios que o povo comum não tinha acesso. Até pronomes de tratamentos foram registrados na forma da lei. Não se sabe até onde esses ajuntamentos vão resistir com o novo mundo que se estrutura no século 21 e, graças às mídias sociais, estão desabando.
* é editor chefe e âncora do Jornal da Record News em multiplataforma.
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