Opinião: Selecionei as cidades mais pobres e mandei mais de cem mensagens via Orkut
Crédito: Leo Garbin Há mais ou menos seis anos dedico grande parte do meu tempo a pensar, apurar e escrever reportagens longas, muitasvezes publicadas em séries ou cadernos especiais.
Atualizado em 01/06/2012 às 15:06, por
Silvia Bessa.
Garbin Há mais ou menos seis anos dedico grande parte do meu tempo a pensar, apurar e escrever reportagens longas, muitas vezes publicadas em séries ou cadernos especiais. É comum encontrar com colegas e estudantes curiosos sobre meu sistema de trabalho. Poucos imaginam que gasto pelo menos 30% das minhas horas planejando. O que ouço ou vejo nas ruas é a alma da matéria. Penso que é preciso, no entanto, preparar a estrutura corporal que abrigará essa alma e a construção dela depende de um plano, de um método.
Organizá-lo propicia clareza para a pauta e o foco ao repórter. Dou três dos meus exemplos para os quais essa preocupação foi decisiva. O primeiro: a produção do caderno especial “O Brasil que mais vai sofrer com o aquecimento”. Toda a imprensa já havia escrito sobre o tema. Queria explicar o efeito das mudanças climáticas sobre as pessoas da região mais pobre do país, o Nordeste. Consegui um pesquisador renomado que fizesse um mapa inédito mostrando a área do semiárido mais afetado e cruzei os dados com os de desenvolvimento humano. Fiz um ranking dos municípios, e bingo: tinha a base para a pesquisa de campo. Outro, neste caso uma série de matérias: queria mostrar o fenômeno das lan houses nos rincões do Nordeste, algo que eu já tinha fortes indícios. Estatística? Autoridade nenhuma a tinha. Fiz minha amostragem. Selecionei as cidades mais pobres e mandei mais de cem mensagens via Orkut, a rede social virtual do momento. “Na sua cidade tem alguma lan house?”, perguntava. Tendo a resposta, prosseguia: “O sinal é discado ou via rádio?”. Pincei as que tinham sinal via rádio, que ofereciam preços mais baixos e mais chances de atingir cidadãos com menor poder aquisitivo. Pauta encaminhada, aí sim viajei pelos nove estados da região, percorrendo 7 mil quilômetros.
Uma terceira matéria, estampada em página dupla de um domingão no Diario de Pernambuco, até hoje rende repercussão. Foi a de Quixaba, lugar de 6 mil habitantes situado no Sertão. Debrucei-me sobre nomes da lista do ganhadores das Olimpíadas Brasileira de Matemática das escolas públicas. A cidade dos pernambucanos se repetia – 14 meninos eram de Quixaba. Liguei para professores. Todos apontavam para a mesma escola: lá estava o resultado de um investimento histórico governamental (superava o limite constitucional de 25% para a educação); da oportunidade aproveitada pela instituição, do empenho dos meninos e mestres. A pauta, veiculada com o título “Quixaba tem a fórmula da educação”, sempre esteve escondida sob as estatísticas. Só a descobri – e o governo do Estado também – quando a busca foi sistematizada e foi criado um plano de apuração para ela.
Meu sistema de trabalho parte de um princípio: jornalismo de qualidade não se sustenta no improviso.

Organizá-lo propicia clareza para a pauta e o foco ao repórter. Dou três dos meus exemplos para os quais essa preocupação foi decisiva. O primeiro: a produção do caderno especial “O Brasil que mais vai sofrer com o aquecimento”. Toda a imprensa já havia escrito sobre o tema. Queria explicar o efeito das mudanças climáticas sobre as pessoas da região mais pobre do país, o Nordeste. Consegui um pesquisador renomado que fizesse um mapa inédito mostrando a área do semiárido mais afetado e cruzei os dados com os de desenvolvimento humano. Fiz um ranking dos municípios, e bingo: tinha a base para a pesquisa de campo. Outro, neste caso uma série de matérias: queria mostrar o fenômeno das lan houses nos rincões do Nordeste, algo que eu já tinha fortes indícios. Estatística? Autoridade nenhuma a tinha. Fiz minha amostragem. Selecionei as cidades mais pobres e mandei mais de cem mensagens via Orkut, a rede social virtual do momento. “Na sua cidade tem alguma lan house?”, perguntava. Tendo a resposta, prosseguia: “O sinal é discado ou via rádio?”. Pincei as que tinham sinal via rádio, que ofereciam preços mais baixos e mais chances de atingir cidadãos com menor poder aquisitivo. Pauta encaminhada, aí sim viajei pelos nove estados da região, percorrendo 7 mil quilômetros.
Uma terceira matéria, estampada em página dupla de um domingão no Diario de Pernambuco, até hoje rende repercussão. Foi a de Quixaba, lugar de 6 mil habitantes situado no Sertão. Debrucei-me sobre nomes da lista do ganhadores das Olimpíadas Brasileira de Matemática das escolas públicas. A cidade dos pernambucanos se repetia – 14 meninos eram de Quixaba. Liguei para professores. Todos apontavam para a mesma escola: lá estava o resultado de um investimento histórico governamental (superava o limite constitucional de 25% para a educação); da oportunidade aproveitada pela instituição, do empenho dos meninos e mestres. A pauta, veiculada com o título “Quixaba tem a fórmula da educação”, sempre esteve escondida sob as estatísticas. Só a descobri – e o governo do Estado também – quando a busca foi sistematizada e foi criado um plano de apuração para ela.
Meu sistema de trabalho parte de um princípio: jornalismo de qualidade não se sustenta no improviso.






