Opinião: Região e Comunicação

A regionalização comunicacional prevista no artigo 221 da Constituição Cidadã permanece letra morta pela displicência parlamentar que até ag

Atualizado em 25/03/2012 às 11:03, por José Marques de Melo.

Crédito:Leo Garbin ora não fixou percentuais nem regulamentou a produção cultural via rádio e televisão.
Em consequência, os traços marcantes da identidade brasileira, historicamente plasmados pelo nosso arquipélago cultural, começam a desaparecer ou a se esgarçar. A ausência de iniciativas eficazes e duradouras pode conduzir o país à condição de espelho caricato da aldeia global.
Afortunadamente existem tentativas de governos estaduais no sentido de aplicar o dispositivo constitucional aos sistemas midiáticos que tutelam.
A vanguarda desse movimento regionalista encontra-se no Estado de Alagoas, cujo governo criou em 2001 o primeiro Conselho Estadual de Comunicação do Brasil. Mais do que isso: implantou esse organismo mobilizando as instituições da sociedade civil para pensar modos de resgatar a autoestima regional e fortalecendo os valores culturais enraizados na sociedade.
Trata-se de experiência cujo autor se dispôs a reconstituí-la e explicá-la, sinalizando às demais unidades da federação para dar passos semelhantes.
Joaldo Cavalcante foi arrojado secretário de comunicação do governo de Alagoas (2001-2008). Terminado o duplo mandato de Ronaldo Lessa, voltou à universidade, completando seus estudos de especialização, cuja monografia final ensejou o livro “A Gente se Vê na Comunicação de Governo?” (Maceió, Cesmac, 2011). Ali está a fonte inspiradora de novas experiências em território nacional, orientando o cidadão a discernir sua “identidade como essência da informação oficial”.
Exercitando uma engenhosa carpintaria textual, ele figura ao mesmo tempo como observador participante e como agente da narrativa. Seguindo à risca a lição do artífice de “Caetés”, procede, na escrita, com a mesma destreza que Graciliano Ramos observou nas lavadeiras do sertão para limpar a roupa suja: molhando, torcendo e enxaguando até alvejar, para só então secar no varal.
Outra virtude do jovem escritor é ancorar-se na fortuna cognitiva de outro alagoano ilustre que deixou legado precioso a respeito da tradição do centralismo governamental brasileiro. Trata-se de Tavares Bastos, autor de “A Província e Cartas do Solitário”, em que pregou politicamente a descentralização do Brasil, servindo talvez de fundamento para a orientação geocultural adotada pelos constituintes de 1988.
O belo estudo de Joaldo Cavalcanti defende uma “política de comunicação oficial” ensejando uma brecha no “pacto federativo” que, segundo o prefácio do historiador Douglas Apratto, vem se perpetuando no cenário brasileiro. Daí a necessidade de regionalizá-la para “valorizar as diferenças culturais”, fortalecendo a autoestima da população, fator decisivo para instaurar o desenvolvimento.

Coluna publicada na edição de março (276) da Revista IMPRENSA