Opinião: Protestar agredindo mulher ao vivo é a novidade do momento

Assisti ontem (31/10) e li hoje (01/11) a agressão sofrida pela repórter Monalisa Perrone, da TV Globo, e o tal pedido de desculpas do fulan

Atualizado em 01/11/2011 às 14:11, por Thaís Naldoni.

Assisti ontem (31/10) e li hoje (01/11) a pela repórter Monalisa Perrone, da TV Globo, e o tal do fulano que a agrediu. Chamo de fulano porque um carinha que acredita que a melhor forma de protestar contra "veículos de comunicação hegemônicos" é agredir uma mulher - que estava trabalhando - ao vivo, não merece ser nomeado. Isso é dar publicidade a ele.

Acho bacana que as pessoas protestem, que tenham voz e liberdade para isso, mas é o fim da picada que, em nome da sua "revolta", as pessoas acreditem que podem fazer o que quiserem. O cara disse que poderia ter "invadido qualquer link", mas escolheu o da Globo porque "teria mais visibilidade". Ele assina exatamente contra o que ele protesta. Se a ele incomoda a audiência da emissora, a melhor forma de se manifestar seria parar de assistir, tentar convencer as pessoas a mudar de canal, a praticar esportes em vez de ver TV, não empurrar uma mulher ao vivo, a ponto de deixá-la nervosa o suficiente para que não tivesse condições de continuar a trabalhar.

A única conclusão que chego com o episódio é de que a "consciência política" de parte de nossos jovens é de dar vergonha. Em vez de queimar e rasgar revistas (conforme se fazia com os livros na inquisição), de agredir uma mulher ao vivo, essas pessoas deveriam se indignar e protestar contra a corrupção no país, contra a falta de saneamento básico, de moradia, contra as más condições no sistema de saúde, contra a previdência social (que está quebrada), contra a degradação de nossas cidades, contra o valor do salário mínimo (que mal dá para um pai comprar comida para seus filhos).

É lindo e fácil fazer protestos vazios, quando em casa há quem pague suas contas, quando a faculdade está garantida, quando não falta comida, quando não falta transporte, quando não faltam condições.

Falar que a agressão à Monalisa Perrone (uma jornalista de extrema competência, mãe, de simpatia ímpar) foi causada pelos próprios seguranças da emissora, é desculpa para boi dormir. E, mais ainda, afirmar que "não tem medo porque mais 40 advogados intercederiam por ele em caso de processo", é se esconder ainda mais das responsabilidades. Isso não é coisa de quem se manifesta, mas coisa de gente covarde.

A pergunta que não quer calar: se no link estivesse o Luís Ernesto Lacombe, que é forte e tem quase dois metros de altura, o tal manifestante agiria da mesma maneira? Para mim, a resposta é mais clara que um cristal.

Torço, fortemente, para que a própria jornalista entre com um processo por lesão corporal, testemunhada por milhões de pessoas, com imagens gravadas. Preso, o "manifestante" não vai ser, mas bem que ele poderia ter tanques e tanques de roupa para lavar por bastante tempo. Quem sabe os motivos de tanta indignação não seriam revistos? O que sei é que protestar no Brasil, definitivamente, é coisa para quem tem tempo.

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