Opinião: Poderes e mídia
Ao publicar, no último dia 24 de janeiro, seu relatório “Brasil, o país dos trinta Berlusconis”, a Repórteres sem Fronteiras não ignorava a natureza sensível do tema resumido nesse título provocador.
Atualizado em 11/03/2013 às 15:03, por
Benoit Hervieu.
24 de janeiro, seu relatório “Brasil, o país dos trinta Berlusconis”, a Repórteres sem Fronteiras não ignorava a natureza sensível do tema resumido nesse título provocador. Trinta Berlusconis. A fórmula provém do intectual e jornalista Eugênio Bucci, consultado no decorrer da missão que antecedeu o relatório. Decidimos adotá-la como nossa, pois ela descreve um modelo de relações entre a mídia e os centros de poder.
Esse modelo não se circunscreve ao Brasil, como indica a referência ao Cavaliere italiano, que assumiu o controle do setor audiovisual público de seu país ao chegar à Presidência do Conselho, enquanto continuava reinando sobre o setor midiático privado através de seu oligopólio, Mediaset. Ora, a situação do Brasil e da América Latina revela precisamente que Berlusconi não inventou nada.
O modelo econômico que estrutura a mídia latino-americana deriva de uma longa e dolorosa história de desigualdades. Não constitui uma ofensa para os jornalistas do continente, tampouco para suas redações, salientar o alcance dessa dupla tutela dos poderes políticos e econômicos sobre a imprensa. No Brasil, mais especificamente, essa tutela se desdobra em dois âmbitos.
O primeiro diz respeito aos principais meios de comunicação do país, detidos por grandes grupos de origem familiar. Estes meios contam com um capital que lhes acautela o futuro. O problema consiste em sua elevada concentração. A segunda tutela se refere aos numerosos meios regionais, submetidos tanto às incertezas dos mercados como às verbas publicitárias públicas, aumentadas continuamente pelos sucessivos governos federais desde o fim da ditadura militar.
É nessa conjugação de dependências, políticas e econômicas, que prosperam os Berlusconis brasileiros, os “coronéis”: donos e senhores de seus estados, simultaneamente capitães da indústria, terratenentes, políticos e donos da maioria dos veículos de opinião. Assim como controla os fundos da publicidade oficial no território que considera seu, o “coronel” proprietário – diretamente ou através de testas de ferro – de uma meia dúzia de jornais e outras tantas rádios ou televisões locais também regula os circuitos de difusão e a atribuição das frequências pelas quais as rádios comunitárias e associativas tanto anseiam.
Esse modelo constitui um obstáculo. À informação plural. À independência da mídia. São muitos os jornalistas e cidadãos que reclamam um novo quadro regulador, na sequência da judiciosa revogação, em 2009, da Lei de Imprensa de 1967, herdada do regime militar. Terá lugar esse debate tão aguardado? Esperamos que sim. Para que se coloque um ponto-final na relação perigosa entre mídia e poder. Uma relação incestuosa.

Esse modelo não se circunscreve ao Brasil, como indica a referência ao Cavaliere italiano, que assumiu o controle do setor audiovisual público de seu país ao chegar à Presidência do Conselho, enquanto continuava reinando sobre o setor midiático privado através de seu oligopólio, Mediaset. Ora, a situação do Brasil e da América Latina revela precisamente que Berlusconi não inventou nada.
O modelo econômico que estrutura a mídia latino-americana deriva de uma longa e dolorosa história de desigualdades. Não constitui uma ofensa para os jornalistas do continente, tampouco para suas redações, salientar o alcance dessa dupla tutela dos poderes políticos e econômicos sobre a imprensa. No Brasil, mais especificamente, essa tutela se desdobra em dois âmbitos.
O primeiro diz respeito aos principais meios de comunicação do país, detidos por grandes grupos de origem familiar. Estes meios contam com um capital que lhes acautela o futuro. O problema consiste em sua elevada concentração. A segunda tutela se refere aos numerosos meios regionais, submetidos tanto às incertezas dos mercados como às verbas publicitárias públicas, aumentadas continuamente pelos sucessivos governos federais desde o fim da ditadura militar.
É nessa conjugação de dependências, políticas e econômicas, que prosperam os Berlusconis brasileiros, os “coronéis”: donos e senhores de seus estados, simultaneamente capitães da indústria, terratenentes, políticos e donos da maioria dos veículos de opinião. Assim como controla os fundos da publicidade oficial no território que considera seu, o “coronel” proprietário – diretamente ou através de testas de ferro – de uma meia dúzia de jornais e outras tantas rádios ou televisões locais também regula os circuitos de difusão e a atribuição das frequências pelas quais as rádios comunitárias e associativas tanto anseiam.
Esse modelo constitui um obstáculo. À informação plural. À independência da mídia. São muitos os jornalistas e cidadãos que reclamam um novo quadro regulador, na sequência da judiciosa revogação, em 2009, da Lei de Imprensa de 1967, herdada do regime militar. Terá lugar esse debate tão aguardado? Esperamos que sim. Para que se coloque um ponto-final na relação perigosa entre mídia e poder. Uma relação incestuosa.






